Três operações da dor

Segundo C. S. Lewis, logo depois da queda, não somos só criaturas imperfeitas que devem ser melhoradas: somos rebeldes que devem depor as suas armas. É necessário morrer diariamente, pois quando menos pensamos voltamos a encontrar o eu rebelde mais vivo do que nunca. Este processo, que não pode dar-se sem dor, é o que se conhece como "mortificação".

Pois bem, a dor deixa em frangalhos várias ilusões em nossa vida. A primeira, o pensar que tudo está bem conosco. Diferente do engano ou do pecado, a dor é um mal não mascarado, evidente: todos nós sabemos que algo anda mal quando algo nos dói. A dor é um mal impossível de ignorar. Podemos seguir tranqüilos e contentes com nossos pecados e estupidezes, mas a dor irá insistir para que demos atenção. Deus nos sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita na dor: é o alto-falante que utiliza para despertar um mundo surdo. Enquanto o homem malvado não descobre o mal presente em sua existência em forma de dor, está preso em uma ilusão.

Uma vez que a dor o desperta, se vê confrontado com o universo real: ou se rebela ou tenta algum tipo de ajuste que pode levá-lo a fé. Não há como duvidar de que a dor, como um alto-falante de Deus, é um instrumento terrível: pode levar a rebelião total e sem arrependimento; mas dá ao homem mau sua única oportunidade de correção.

Um segundo efeito da dor toca nossa auto-suficiência, pois rompe a ilusão de que o que temos, seja bom ou mau em si mesmo, é nosso e nos basta. Todos tem nos advertido quão difícil é voltar nossos pensamentos a Deus quando tudo vai bem em nossas vidas. "Temos tudo o que desejamos" é uma frase terrível quando "tudo" não inclui Deus. Encontramos que Deus é uma interrupção. Pensamos em Deus como o aviador pensa em seu pára-quedas: está aí para as emergências, mas espera não ter que utilizá-lo nunca.

Pois bem, Deus sabe o que somos e que nossa felicidade está nele. Entretanto, não a buscaremos nele enquanto nos deixar qualquer outro recurso onde seja possível procurá-lo. Enquanto o que chamamos "nossa própria vida" se mantém agradável, não a entregaremos a Deus. O que pode fazer Deus, então, por nosso bem, a não ser fazer "nossa própria vida" desagradável para nós, e fazer desaparecer a possível fonte de falsa felicidade?

Uma terceira operação da dor é designar o caminho para a verdadeira auto-suficiência: render nossa vontade a de Deus, e achar nossa fortaleza nele. É na "provação" ou "sacrifício" supremo que aprendemos qual é a verdadeira auto-suficiência que devemos possuir e em que devemos nos apoiar: a fortaleza que Deus nos dá através de nossa vontade submetida. A vontade humana se faz verdadeiramente criativa e verdadeiramente nossa enquanto não for totalmente de Deus. Disto nos deu exemplo o Senhor Jesus no Calvário. Ali o exemplificou para que o imitássemos, sem nenhum apoio natural.

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