Para a proclamação do Evangelho e a edificação do Corpo de Cristo
Ano 14 • N° 70 • Abril - Maio - Junho 2013

TEMA DA CAPA

Servindo por amor

Por meio da manifestação do seu amor, Deus obtém um fruto que não pôde colher em Adão:
o nosso amor.

Rubén Chacón

 

A terceira vez que Deus falou a Moisés no livro de Levítico foi para revelar-lhe a oferta pela culpa do pecado.

A culpa era produzida por ter ofendido as coisas consagradas a Deus (5:14-19), ou por ter ofendido ao próximo (6:1-7). Este segundo aspecto foi declarado a Moisés a quarta vez que Deus lhe falou do tabernáculo de reunião.

 

Uma consciência culpável

O pecado não somente ofende a santidade de Deus, mas também faz que nos sintamos culpados. O pecado origina um problema diante de Deus e diante da nossa consciência. O pecado está sobre nós e está em nós. Cada vez que pecamos a culpa se aloja em nossa consciência. O primeiro é um problema objetivo que temos; o segundo, ao contrário, é subjetivo.

A oferta pelo pecado resolveu, de uma vez por todas, o nosso pecado diante de Deus. Jesus Cristo, com o seu precioso sangue tirou do nosso meio o pecado que havia entre ele e nós.

No entanto, o Senhor é tão precioso e sua obra tão completa que quis, além disso, aliviar a culpa da nossa consciência. O Senhor fez uma provisão tão preciosa e tão completa, não só para deixá-lo satisfeito, mas para que nós também o estivéssemos, de tal maneira, que não só tivéssemos paz para com Deus, mas também para que ficássemos em paz conosco mesmos. Bendito seja o Senhor!

 

Cristo, nossa oferta pela culpa

O sacrifício de Cristo está aqui representado pelo «carneiro sem defeito» (5:15). Não obstante, esta quinta oferta não é outro sacrifício, mas outro aspecto do único sacrifício de Cristo. O mesmo sacrifício que tirou o pecado de diante de Deus, tira-o também das nossas consciências. Assim ficava totalmente paga a dívida pela culpa.

A novidade desta oferta, no entanto, consistia em que no sacrifício do carneiro –estimado seu preço em siclos de prata– o ofertante devia acrescentar a quinta parte em restituição pelo pecado.

Aqui, então, Cristo não só é o nosso carneiro sacrificado, mas também a quinta parte acrescentada. Mas, o que significa este fato? Que pelo bendito sacrifício de Cristo, Deus obteve algo que não tinha antes. Com a expiação ou propiciação, Cristo não só obteve o perdão dos nossos pecados, mas trouxe, além disso, ganho para Deus.

Por meio da redenção, Deus obteve algo do homem que não tinha como resultado da criação. Por meio da morte de Cristo não só foi restaurado ou reparado o dano causado pelo pecado, mas também houve ganho extra para Deus.

 

Um «quinto» para Deus

O que Deus ganha mediante o sacrifício pela culpa? O que produz em nós o fato de que sejam limpas as nossas consciências pelo sangue de seu Filho? Para que Deus limpa as nossas consciências? Para que libertados dos nossos inimigos, o servíssemos sem temor em santidade e em justiça… todos os dias da nossa vida» (Luc. 1:74-75). Aleluia!

O escritor aos Hebreus pergunta assim: «Quanto mais o sangue de Cristo… limpará as suas consciências das obras mortas para que sirvam ao Deus vivo?» (9:14). Por meio da manifestação do seu amor, Deus obtém um fruto que não pôde colher em Adão: o nosso amor. É claro que nós o amamos, porque ele nos amou primeiro (1ª João 4:19).

O livro de Deuteronômio insistirá uma e outra vez que o que Deus procurava finalmente do homem e de seu povo, era o seu amor (Dt. 6:5; 7:9; 10:12; 11:1). Não obstante, não era possível –por causa do pecado- que o homem pudesse produzir este fruto por si mesmo. O amor humano não podia dar essa medida que Deus esperava. Somente a oferta do Senhor pela culpa poderia obter este «quinto» para Deus. Somente a sua graça poderia obtê-lo, porque o perfeito amor do nosso Senhor lança fora o medo.

Atrás do temor, diz João, esconde-se o medo ao castigo. Mas quando a dívida é absolutamente cancelada, então o temor dá passagem para o amor. No amor não há temor. Estamos cobertos por uma oferta tão perfeita e completa, que não fica lugar para o menor medo ao castigo, mas, pelo contrário, deixa um amplo espaço de liberdade para amar a Deus.

Por isso, Paulo, exortando aos Gálatas, diz-lhes: «Porque vós, irmãos, para a liberdade foram chamados; somente que não usem a liberdade como ocasião para a carne, mas servi por amor uns aos outros» (5:13).

É verdade que podemos converter a liberdade em libertinagem; de outra maneira, a exortação de Paulo não teria sentido. Mas caso ocorresse, significaria uma só coisa: Que ainda não vimos como deveríamos ver a preciosa obra de Cristo. Indicaria que ainda somos escravos do temor.

É certo, como vimos no livro sobre o Êxodo, que segundo a lei dos escravos, um escravo podia fazer uso de sua liberdade e partir do seu amo ao sétimo ano. No entanto, o escravo também poderia dizer: «Eu amo ao meu senhor… não sairei livre» (Êx. 21:5). A pergunta que surge então, é: uma vez livre do pecado você vai abandonar a teu Senhor? Uma só coisa: Mesmo que não o conheça. Mesmo que não conheça a sua bondade e formosura. Que mantenha ainda algum medo dele

A novidade do Novo Pacto é que uma vez que fomos alcançados pela oferta da culpa, surge apenas uma maneira normal de servir a Deus: Por amor. Qualquer outro motivo para explicar o nosso seguir a Cristo, é o antigo testamento.

Paulo, disse-o assim: «Enquanto que o herdeiro é menino, em nada difere do escravo» (Gál. 4:1). Mas com esta expressão, Paulo não estava dizendo que, agora, havia duas formas de servir a Deus. Uma, sendo meninos; e outra, sendo maduros. Não, o que ele está explicando é que «quando éramos meninos» –na dispensação do antigo testamento– estávamos em escravidão. Mas quando veio o cumprimento do tempo, quer dizer, o tempo da maturidade, Deus enviou a seu Filho.

Em outras palavras, com Cristo chegou o tempo da maturidade, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. Então, objetivamente, Cristo nos trouxe a maturidade; a qualidade de filhos maduros. E como foi possível isto? Pela redenção é que ele nos fez filhos, e sendo filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, o qual clama: Abba, Pai! (Gál. 4:1-7).

A maturidade é possível, agora, porque nos foi dado o Espírito de seu Filho. E o fruto do Espírito é amor. Assim já não somos escravos, mas filhos maduros. Filhos que servimos a Deus por amor. Esta é a normalidade que Cristo tornou possível.

 

Um «quinto» para o meu próximo

Mas o «ganho» obtido pelo sacrifício da culpa, não se aplicava somente com respeito a Deus, mas também com respeito ao próximo.

Com efeito, quando a culpa era produzida por causa de ter defraudado ao próximo, o ofertante deveria não só restituir integralmente o defraudado a quem pertencera, mas devia também acrescentar a quinta parte do seu valor (Lv. 6:1-7).

Portanto, Deus obteve um «quinto» a mais com a oferta do seu Filho, não só com respeito a ele, mas também em relação ao nosso próximo.

Isto significa, que Cristo também tornou possível o nosso amor ao próximo, de maneira tal que não só façamos com ele o que é legal, mas também o que é de graça. Assim, por exemplo, Paulo exorta que «não paguemos a ninguém mal por mal», mas com o bem vençamos o mal (Rom. 12:17,21).

Amar ao próximo como a nós mesmos, é ainda a lei. Mas amá-lo como Cristo nos amou, é graça de Deus. Este «quinto» só é possível se, igual com respeito a Deus, a dívida com o próximo está também completamente paga.

Enquanto o dever nos governar ou, o que seria pior, enquanto a convicção nos governar que devemos merecer o que é de Deus e, portanto, fazer as coisas para obter a aprovação dele, este «quinto» não se manifestará em nós.

Atuar por graça é atuar desinteressadamente; é atuar por amor. Apenas a graça pode mais do que a lei. O fundamento dela é a gloriosa obra de Cristo. Como ele foi conosco, nós podemos também ser com outros.

Se Deus nos perdoou gratuitamente em Cristo, por que não fazê-lo com os outros? Por que haveria eu de exigir méritos ao meu próximo para perdoá-lo? Se Deus não tem feito assim conosco, por que nós haveríamos de fazê-lo?

A ética do Novo Testamento é uma moral de graça. Não é para obter nada nem para merecer algo. É simplesmente «dar de graça o que de graça recebemos» (Mt. 10:8). Mas, enquanto crermos que Deus não está completamente agradado de nós –graças à obra de Cristo- a graça não fluirá de nós; seguiremos presos pela camisa de força do dever e do merecer.

Somos livres para amar e para fazê-lo gratuitamente. Não há nada que nós devamos acrescentar à perfeita obra de Cristo. Não obstante, ele nos acrescentou um «quinto»: Fez possível que atuemos como ele, «pois como ele é, assim somos nós neste mundo» (1ª João 4:17).