A consolação

Quantos olhos que passam por estas páginas não conhecem este profundo manancial?

Henry Law (1707-1884)

"Este nos aliviará..." (Gên. 5:29).

Assim nos fala o patriarca Lameque. Esta é sua exclamação de gozo ao receber o seu primogênito Noé. Ele trabalhava sozinho naquela terra endurecida pela maldição, a qual unicamente produzia cardos e espinhos. Mas agora Deus lhe dá um filho para que compartilhe as insipidezes de seu trabalho diário e, animado por esta esperança, chama-lhe Noé, que significa descanso ou alívio.

Leitor, nestas páginas só podemos buscar uma coisa: o bem estar máximo das almas eternas. Por esta razão, não vou examinar a possibilidade de que este nome tenha sido dado como um raio anunciador do Salvador que tinha que vir. Prefiro ir à busca de realidades. Prefiro indagar as boas novas que reluzem no Evangelho.

Os tormentos da alma

Em primeiro lugar, devo afirmar uma realidade tão antiga como a queda e tão extensa como a humanidade: Um mundo pecador é, por necessidade, um mundo de lágrimas. Em qualquer lugar que estejamos, nossa sombra será a aflição. Foi assim antes do dilúvio e o segue sendo agora. Em todos os ambientes e categorias, a mente está esgotada e o coração doente.

A seguir declaro uma verdade que veio, como uma irmã gêmea, com a primeira promessa: Temos uma consolação. Do seio do seu amor, Deus enviou a Cristo Jesus para ser a Consolação deste mundo maldito.

Meu ardente desejo seria que este conhecimento celestial derramasse, mais abundantemente, seu bálsamo reparador. Os homens bebem a taça da amargura, tendo correntes de cura que fluem velozes ao seu lado. Permitam-me, pois, que os convide a entrar comigo, por uns instantes, aos recintos da tristeza terrena. Ali vos mostrarei que Jesus é um descanso para a mente febril, um reconstituinte para o espírito débil, uma tábua para o náufrago, um alívio para o atormentado.

Mas, onde reside este sofrimento intenso? Com toda certeza, no peito daquele cuja consciência está acordada para discernir a natureza, a maldade e a retribuição dos seus pecados. Aos seus olhos, Deus aparece irado em sua terrível justiça. A lei retumba em seus ouvidos com uma maldição espantosa. Se quiser avançar, se encontrará na beira do inferno, e não se atreve a mover-se, pois o próximo passo pode lhe precipitar nas chamas; e tampouco quer dormir por temor de despertar entre os condenados.

A fonte do consolo

De onde pode vir o consolo a uma alma atormentada deste modo? Da terra não pode surgir, porque quão pobres são os encantos que o mundo oferece! O mundo não possui nada exceto para um homem cego pelo pecado. Quando as coisas são vistas como são na realidade, todos os caprichos terrenos devem ser como borbulhas vazias. Para que o alívio tenha valor, deve vir do céu.

Tudo é uma brincadeira se não me falar da reconciliação com Deus, do perdão do pecado, da salvação da alma. Só Jesus pode tirá-la dessas profundezas e guiá-la tremente até a Sua cruz. Ali o Pai celestial se revelará em seu amor eterno. Sua própria agonia constitui o fim da ira divina. Ele pode mostrar a espada justiceira cravada em seu próprio coração, as chamas vingadoras extintas com seu próprio sangue, o inferno carregado sobre o Cordeiro, e o céu dado gratuitamente aos culpados.

Isto não é consolação? Certamente é, e ele a derrama por suas mãos perfuradas e o seu lado aberto. Repito, isto não é consolação? Pergunte a aquele que tenha provado. Pergunte a aquele carcereiro que, atacado pelo pânico, precipitou-se na cela sabendo que seu castigo seria terrível. Ali ouviu de Jesus, a paz acalmou os seus temores e se regozijou crendo em Deus com toda a sua casa (Atos. 16:29-31).

Uma queda dolorosa

Mas ocorre muito frequentemente, por desgraça, que os que um dia se refugiaram nesta rocha, apartam-se outra vez. Cessam de vigiar e orar, e o tentador encontra uma porta aberta. Descuidam dos meios preventivos da graça, e o inimigo entra. O Espírito, entristecido, retira-se, e a corrupção torna a ganhar todo o seu poder.

Ai dos apóstatas! Quanta miséria há neles! Tornam a ter a sensação de sua situação perigosa e, além disso, a amargura de suas próprias recriminações. Dão-se conta de sua baixeza ao trair ao Amigo que lhes tinha dado vida.

Talvez seja esta sua própria agonia. Se antes tinha descanso em Jesus e agora desapareceu, é apenas por sua culpa. Ele não te separou de si mesmo; tu é que partiste, e agora suspira. Chora, porque sua queda é dolorosa, mas tenha esperança porque Jesus ainda está próximo, e sua voz te diz: «Volte... não farei cair a minha ira sobre ti...» (Jer. 3:12). Volta, pois o Senhor continua estendendo seus braços de misericórdia. Ele é o bálsamo de Gileade; ele não pode permanecer silencioso diante daquele que clama: «me torne o gozo da tua salvação» (Sal. 51:12).

Sentimentos errôneos

Há outros que, embora andem próximos do Senhor, vivem intranquilos. Com gratidão dizem: «Até aqui nos ajudou o Senhor», mas a peregrinação lhes parece longa, os adversários numerosos e sua própria fortaleza cambaleiam. Como Davi, creem que um dia perecerão nas mãos de Saul.

Leitor, talvez você tenha também tais sentimentos errôneos. Se Jesus não fosse quem é, poderia se deprimir; mas te convido confidencialmente a que se levante e sacuda o pó. Abra os olhos e leia em seu coração. Ele te falará da fidelidade do seu amor; te levantará o abrigo das suas asas e ali apagará todas as tuas dúvidas com promessas tão grandes como generosas: «Porque eu vivo, e vós também vivereis... sua vida está escondida com Cristo em Deus».

Enfrentando a aflição

Mas as aflições virão sobre ti como uma maré incessante. Terá que esperá-lo assim; é nossa sorte comum. Não há lar tão humilde cuja porta não encontre a aflição, nem palácio tão altivo por cuja escadaria que a dor não suba. A fé não protege disto. «No mundo tereis aflições». Mas receba a aflição com os braços abertos, se com ela Jesus vier. O verdadeiro crente sempre age assim.

A saúde pode murchar-se como uma flor; a debilidade e a enfermidade podem se enfurecer em nosso corpo; pode haver intranquilidade até a alvorada. Mas Jesus apazigua com sorrisos a fronte contraída pela dor, e tranquiliza com assobio aprazível a noite desvelada. Podem cair as posses terrenas e reinar a pobreza onde imperou a abundância. O sustento do crente também faltará? Oh, não! Todos os seus tesouros se encerram nesta frase: «O Senhor é o meu pastor; nada me faltará».

Os amigos podem nos abandonar, e seus olhares fugidios nos fazem estremecer. A traição e o ódio podem entrar onde um dia o amor triunfou. Jesus passou por esta prova em sua forma mais amarga; por isso, ele está pronto para demonstrar que não muda neste mundo mutável, e ele aumenta o seu amor estando mais unidos a nós que um irmão. Sua própria presença enche com acréscimo todo vazio interno.

Mas a morte se aproxima com passos velozes. Sim, logo levantará a coberta de sua cama para te tirar dali com a mão gelada. Então necessitarás de um consolo forte, pois uma escora gasta já não pode resistir. Passará pelo vale das sombras, mas não a sós, porque Jesus proclama: «Eu estou contigo; eu te levo para a minha casa de muitas moradas». Desta forma, a última prova será a melhor consolação.

Jesus, nossa consolação

Crente, rogo-te que vivas e morras fazendo de Jesus a tua consolação, e que sejas hábil nesta arte feliz. Habitue-se a meditar diariamente nele, em suas promessas e em suas obras. Mantenha uma comunhão estreita com ele. Meça a largura, o comprimento, a profundidade e a altura de sua obra e sua missão. Assegure-se de que tudo o que ele é e tem, tudo o que tem feito, faz e fará, é teu.

Nunca estiveste ausente do seu coração, nem pode estar, porque é um membro «de seu corpo, de sua carne, e de seus ossos». Permaneça sempre nele, e sempre terás um abrigo. Bata também, na rocha das promessas com a vara da fé. As águas doces emanarão e fluirão com amplitude e profundidade por este canal: «consolai-vos, consolai-vos, meu povo, diz o teu Deus» (Is. 40:1).

Ande assiduamente com os fiéis peregrinos da antiguidade. Sua companhia é preciosa. Embora estejam cheios de pesares, sempre estão contentes. Embora, como Jacó, sejam vagabundos sem lar, sempre estão consolados. Embora para salvar sua vida tenham que fugir e ocultar-se nas cavernas da terra como Davi, estão consolados.

Se, como aqueles três jovens cativos, têm que passar pelo fogo da perseguição, estão consolados. Se tiverem que enfrentar-se a todo perigo, ainda às tormentas mais furiosas, como Paulo, ou se tiverem que dar fiel testemunho diante da ralé zombadora ou diante dos tiranos altivos, como este apóstolo, estão consolados. Se eles morrerem a morte dos mártires sob uma chuva de pedras, como Estevão, estão consolados. Embora percam tudo, eles nunca perdem a consolação, porque estão no próprio Jesus Cristo; a obra do seu espírito; o dom da sua graça; a prova da sua presença; a degustação do seu céu.

Quem sabe alguns olhos que passam por estas páginas não conheçam este profundo manancial de consolação. Pobre! Seu coração está desconsolado. Tens semeado vaidade e, o que vais colher? Fez do mundo o seu tudo e, o que ele te ofereceu? Aquele que obtém muito, cobiça mais, porque as posses não contentam.

Se esta hora assusta, a próxima é como um abismo temido. Vagueias pelos campos da ansiedade e não achas onde repousar. A sociedade é um vazio insípido, e sua solidão é como uma lúgubre negrura. Onde estão as tuas consolações? Não te lembras de nenhuma, nem as possui agora, nem aparece nenhuma no teu horizonte.

Em seu interior uma voz te condena te dizendo que é verdade. Não se aparte, pois, da voz implorante desta página. Convença e consente em ser feliz. «Busquem o Senhor enquanto pode ser achado». Ampare-se em sua missão: «Certamente o Senhor consolará a Sião». Ampare-se em sua oferta: «Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos farei descansar». Ampare-se em seu título: «A consolação de Israel». Ampare-se em sua terna voz: «Como aquele a quem consola sua mãe, assim vos consolarei eu a vós». Ampare-se no mandamento celestial: «Consolai-vos, consolai-vos meu povo».

Não cesses de suplicar até que possa dizer daquele que é maior que Noé: «Este nos aliviará...».

Do Evangelho em Gênesis.

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