A necessidade da obra do Espírito

Uma obra imprescindível no caminhar de todo crente.

C.H. Spurgeon

Uma característica notável dos milagres de Cristo é que nenhum deles era desnecessário. Não foram caprichos do poder, e até sendo manifestações de poder, todos cumpriam um propósito prático. O mesmo ocorre com as promessas de Deus. Nenhuma promessa bíblica é um mero capricho da graça. Em consequência, se Deus prometeu no pacto com Israel pôr seu Espírito dentro deles, essa promessa foi absolutamente necessária, e também tem que ser imprescindível para a nossa salvação que cada um de nós receba o Espírito de Deus.

1. Atraindo-nos a Cristo

A obra do Espírito Santo é totalmente necessária se é que queremos ser salvos. Esta proposição é muito evidente quando recordamos o que o homem é por natureza. A substância do Evangelho é que o homem está morto no pecado e que a vida divina é um dom de Deus, e teria que ir contra toda esta substância antes de poder supor que o homem pode conhecer e amar a Cristo prescindindo da obra do Espírito Santo. Sem a influência vivificadora do Espírito de Deus, as almas dos homens estão mortas..., por toda a eternidade.

Mas a Escritura não só diz que o homem está morto no pecado, mas algo pior que isso: que ele é de fato resistente a tudo o que é bom e reto. «Os desígnios da carne são inimizade contra Deus; porque não se sujeitam à lei de Deus, nem tampouco podem» (Rom. 8: 7). A vontade do homem é oposta às coisas de Deus. «Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer»; mas depois segue algo ainda mais contundente: «Não quereis vir a mim para que tenham vida».

Ninguém quer vir a Cristo. O homem não só é impotente para fazer o bem, mas é suficientemente forte para fazer o mau, e a sua vontade é totalmente oposta a todo o bem. Os homens não querem vir. Não pode induzi-los nem mesmo forçá-los; se o Espírito não os atrair, eles não querem vir a Cristo para ter vida.

Então, é necessário que o Espírito de Deus opere para corrigir a inclinação do coração, para pôr o homem na vereda correta e lhes dar as forças necessárias para que corram nela. É impossível desconhecer a necessidade da obra do Espírito Santo.

Um escritor comentou muito acertadamente que não conheceu nenhum homem que sustentara algum grande engano teológico, que não sustentara deste modo alguma doutrina que minimizasse a depravação humana. Mas uma vez que se adota o ponto de vista correto, ou seja, que o homem está completamente caído, que é culpado e que está perdido e condenado, então haverá uma sã doutrina em todos os pontos do grande Evangelho de Jesus Cristo.

Se crermos que o homem, como a Escritura afirma, é depravado, que seus afetos são pervertidos, que seu entendimento está obscurecido e que a sua vontade é perversa, então temos que aceitar que se alguém assim descrito pode ser salvo, tem que ser pela obra do Espírito de Deus, e do Espírito de Deus unicamente.

2. Salvando as almas

A salvação tem que ser uma obra do Espírito em nós, porque os meios usados na salvação são por si mesmos inadequados para o cumprimento da obra. E quais são os meios da salvação? Acima de tudo, a pregação da Palavra, o instrumento primordial de Deus. «Agradou a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação».

Mas, o que há na pregação que salve às almas? Poderia dar a impressão de ser o instrumento da salvação das almas. Há diversos lugares aos quais vocês podem entrar e dizer: «Aqui há um ministro instruído na verdade, um homem que ensina e ilumina o intelecto. Bem, se Deus tiver a intenção de realizar uma grande obra, ele vai usar um homem instruído como este».

Mas, não é um fato evidente que muitos pregadores da moda, eloquentes e instruídos, são justamente os varões mais inúteis da criação para ganhar almas para Cristo?

O Senhor se agrada de revestir de poder o fraco, mas não outorga poder a quem, caso fizesse algum bem, pudesse atribuir a excelência disso a sua aprendizagem, a sua eloquência ou a sua posição.

Deus abençoou os mais fracos para fazer o maior bem. Então, não se deduz disto que tem que ser a obra do Espírito? Porque se não houver nada no instrumento que possa conduzir a fazê-la, não é acaso a obra do Espírito a que faz que se cumpra a obra?

Sob o ministério da pregação, os pecadores são conduzidos ao arrependimento e convertidos em santos, e alguns que tinham resolvido a não crer se viram forçados a crer. Quem realiza tudo isso? Tem que ser o Espírito que opera no homem através do ministério, pois do contrário tais obras nunca seriam realizadas.

Sem a ação do Espírito, seria em vão esperar salvar as almas por meio da pregação. A salvação tem que ser obra de um poder superior. Então, com base nestes fatos, concluímos que deve haver uma influência superior, invisível e misteriosa: a influência do Espírito de Deus.

3. Revelando a Cristo

Em terceiro lugar, permitam-me recordar-lhes de novo que podemos ver claramente a absoluta necessidade da obra do Espírito Santo no coração partindo deste fato: que tudo o que foi feito por Deus o Pai, e tudo o que foi feito por Deus o Filho é ineficaz para nós, a menos que o Espírito nos revele estas coisas.

Em primeiro lugar, nós cremos que Deus o Pai elegeu o seu povo. Ele o escolheu para si desde antes da fundação do mundo. Mas, que efeito pode ter em alguém a doutrina da eleição enquanto o Espírito de Deus não entra nele? A eleição é letra morta tanto em minha consciência como no efeito que poderia produzir em mim, enquanto o Espírito não me chame das trevas para a sua luz admirável.

E em seguida, sabendo do meu chamado por Deus, sei que fui eleito por ele. A doutrina da eleição é algo muito precioso para um filho de Deus. Mas, o que a faz valiosa? Nada, exceto a influência do Espírito. Enquanto o Espírito não abre os nossos olhos para lê-la, nenhum coração pode conhecer a sua eleição. Ele, mediante as suas operações divinas, dá um infalível testemunho aos nossos espíritos de que somos nascidos de Deus.

Além disso, olhem o pacto da graça. Sabemos que Deus o Pai fez um pacto com o Senhor Jesus Cristo na eternidade passada, e que nesse pacto lhe foram dadas as pessoas de todo o seu povo; mas do que nos serviria o pacto se o Espírito Santo não nos entregasse as bênçãos dele mesmo?

Tragam aqui a qualquer pecador e lhe digam que existe um pacto de graça, e o que ganharia com isso? «Ah», diz, «meu nome não pode estar registrado ali; não posso ter sido eleito em Cristo». Mas basta que o Espírito de Deus habite em seu coração por meio da fé e do amor que é em Cristo Jesus, e esse homem verá o pacto, ordenado em todas as coisas e que será completo.

Considerem, igualmente, a redenção de Cristo. Ele foi a propiciação de todo o seu povo, e todos aqueles que entrarão no céu comparecerão lá por um ato de justiça assim como de graça, já que Cristo foi castigado em seu lugar, e que seria injusto que Deus os castigassem, pois ele já castigou a Cristo em vez deles. E, já que Cristo pagou todas as suas dívidas, eles têm o direito a sua liberdade em Cristo; ele os tem coberto com a sua justiça, e têm tanto direito à vida eterna como se eles mesmos tivessem sido perfeitamente santos.

Mas, do que me serve isso enquanto o Espírito não tome das coisas de Cristo e me mostre? O que é o sangue de Cristo para qualquer de nós enquanto não tiver recebido o Espírito de graça?

Você tem ouvido pregar a respeito do sangue de Cristo mil vezes, mas isto tem feito você o seguir. A morte de Jesus não significou nada para você. Você sabe que ele fez expiação por uns pecados que não eram seus, mas só quando o Espírito de Deus te conduziu à cruz, e te abriu os olhos, para ver a Cristo crucificado, então o sangue teve certamente um significado. Ah, meu querido ouvinte, que Cristo tenha morrido não significa nada para ti a menos que tenha um Espírito vivente em teu interior.

Dentro das múltiplas bênçãos do pacto só menciono algumas, só para mostrar que nenhuma delas é de alguma utilidade a menos que o Espírito Santo as dê. As bênçãos provêm de Cristo, mas nós não podemos alcança-las. O Espírito de Deus as faz descer para nós. É como o maná nas alturas, longe do alcance dos mortais; mas o Espírito abre as janelas do céu, faz descer o pão, o põe em nossa boca e nos capacita para comê-lo. O Espírito é absolutamente necessário.

4. Guiando-nos no caminho

Isto conduz a outro ponto. A experiência do verdadeiro cristão é uma realidade; mas nunca pode ser conhecida nem sentida sem o Espírito de Deus. Pois, o que é a experiência do cristão? Permitam-me dar-lhes apenas um breve resumo de algumas de suas cenas. Uma pessoa muito honorável veio a este lugar esta manhã. Nunca se entregou a nenhum tipo de vício externo; nunca foi desonesto; é conhecido como um comerciante reto e leal.

Agora, para a sua surpresa, ele é informado que é um pecador perdido e condenado, e tão perdido na verdade como o ladrão que morreu na cruz por seus crimes. Vocês acham que esse homem acreditaria nisso? Contudo, suponham que acreditasse simplesmente porque leu na Bíblia. Pensam que esse homem seria levado a sentir isso? Impossível!

Podem imaginar esse homem murmurando: «Deus, sê propício a mim, pecador», estando junto a prostituta e ao blasfemo e sentindo em seu próprio coração como se tivesse sido tão culpado quanto eles? Seria inconcebível, certo? Vai contra a natureza que um homem sendo tão bom se rebaixe ao nível do pior pecador. Ah, mas isso terá que acontecer antes de poder ser salvo; tem que sentir isso antes de poder entrar no céu; mas, quem poderia reduzi-lo a tão arrasadora experiência a não ser o Espírito de Deus?

Eu sei muito bem que a natureza arrogante não se dobra para fazer isso. Somos aristocratas em nossa justiça própria; nós não gostamos de nos humilhar nem ser contados entre os pecadores. Se somos levados para lá, tem que ser o Espírito de Deus aquele que nos derrube. Se alguém me houvesse dito que eu teria que clamar a Deus pedindo misericórdia, e que tinha que confessar que havia sido o mais vil dos vis, eu teria rido na sua cara, dizendo-lhe: «Como, eu não tenho feito nada particularmente mau; eu não tenho feito mal a ninguém».

No entanto, eu sei que neste preciso dia posso tomar meu lugar na mais baixa posição, e quando entrar no céu me sentirei feliz ao me sentar entre os piores pecadores para louvar o poderoso amor que me salvou dos meus pecados. Agora, que um homem íntegro aos olhos do mundo se sinta um pecador perdido, tem que ser o resultado da obra do Espírito Santo, pois do contrário nunca o fará.

Isto é tão contrário à natureza humana, tão oposta aos instintos de nossa humanidade caída, que nada a não ser o Espírito de Deus pode levar um homem a despojar-se de toda justiça própria e de toda a fortaleza da criatura, e a ver-se forçado a descansar e a apoiar-se inteiramente em seu Salvador.

Permitam-me descrever agora a um cristão depois da sua conversão. Se chegar a aflição, ele olha para a tempestade e diz: «Sei que todas as coisas cooperam para o meu bem». Os seus filhos falecem, a sua esposa é levada para a sepultura; e ele diz: «Jehová deu, e Jehová tirou; bendito seja o nome de Jehová» (Jó 1:21). Se a sua fazenda fracassa, a sua colheita se perde, e seu negócio se arruína, tudo parece perdido e ele se vê reduzido à pobreza. No entanto, ele diz: «Embora a figueira não floresça, nem nas videiras haja frutos, embora falte o produto da oliveira, e a lavoura não deem mantimento, e as ovelhas sejam tiradas da manada, e não haja vacas nos currais; contudo, eu me alegrarei em Jehová, e me alegrarei no Deus da minha salvação» (Hab. 3:17-18).

Em seguida o vê deitado em seu leito de enfermidade, e consumido ali, diz: «Bom me é ter sido humilhado, pois, antes de sê-lo, andava extraviado; mas agora guardo a Sua palavra». Por fim, vê aproximando-se dele o vale da sombra de morte, e o ouve exclamar: «Sim, embora ande no vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estarás comigo; tua vara e teu cajado me infundirão consolo».

Agora, o que é que faz que este homem esteja tão tranquilo no meio de todas estas aflições pessoais, a não ser o Espírito de Deus? A nobre e sublime experiência de um cristão em tempos de tribulação demonstra que tem que existir uma obra do Espírito de Deus.

Mas olhem também para o cristão em seus momentos de fartura. Ele é um homem rico. Deus lhe deu abundância. E ele diz: «Não valorizo estas coisas em absoluto, exceto na medida em que são um dom de Deus; permaneço sem me apegar a elas, e apesar disso, desejo partir e estar com Cristo, o qual é muitíssimo melhor. Não necessito nada na terra, e até o morrer seria ganho, embora tenha que deixar tudo isto».

Agora, o que é o que motiva um homem que dispõe de todas essas misericórdias a não pôr o seu coração nas coisas desta terra? Não é uma mera virtude moral. Não; o que conduz a alguém a viver no céu tendo uma tentação para viver na terra só pode ser unicamente a obra do Espírito.

5. Operando em nós o querer e o fazer

E agora, por último, os atos aceitáveis da vida do cristão não podem realizar-se sem o Espírito; e disto se comprova outra vez a necessidade do Espírito de Deus. O primeiro ato da vida do cristão é o arrependimento. Se alguma vez você tentou se arrepender sem o Espírito de Deus, saiba então que exortar a um homem a que se arrependa sem a ajuda do Espírito é exigir um impossível.

Arrepender-se é tão impossível para o homem como impossível lhe é guardar a lei de Deus, pois o arrependimento está na própria raiz da obediência perfeita à lei de Deus. Se um homem pudesse arrepender-se por sua própria vontade, então não haveria necessidade de um Salvador.

O ato seguinte na vida divina é a fé. Talvez vocês pensem que a fé é algo muito fácil; mas se são levados alguma vez a sentir a carga do pecado, descobririam que não é um trabalho tão fácil. A fé é a coisa mais fácil do mundo quando não há necessidade de se crer em nada; mas quando tenho a oportunidade de exercitar a minha fé, então descubro que não tenho tanta força para aplicá-la. Quando chegam o pecado e a aflição, então descubro a minha fraqueza, e tenho que clamar pedindo a ajuda do Espírito. Por meio dele podemos fazer todas as coisas e sem ele não podemos fazer absolutamente nada.

Em todos os atos da vida cristã, seja consagrar-se a Cristo, ou na oração cotidiana; seja o ato da submissão constante ou o de pregar o Evangelho; seja o de ministrar para as necessidades dos pobres ou o de consolar os aflitos, em todas essas coisas, o cristão descobre a sua fraqueza e a sua impotência, a menos que esteja revestido com o Espírito de Deus.

Às vezes, você prepara um sermão e prega, mas causa a maior confusão que se possa gerar. Então diz: «Oxalá nunca tivesse pregado». Mas tudo isto é para nos mostrar que nem consolando nem pregando se pode fazer o correto, a menos que o Espírito opere em nós assim o querer como o fazer, por sua boa vontade.

Além disso, tudo o que fazemos sem o Espírito é inaceitável para Deus; e tudo o que fazemos sob a sua influência, por mais que o desprezemos, não é desprezível para Deus, pois ele nunca despreza a sua própria obra, e o Espírito não pode olhar o que faz em nós de nenhuma outra maneira que com complacência e deleite. Se você pudesse levantar a melhor oração no mundo, sem o Espírito, Deus não teria nada com ela; mas, mesmo que a oração seja frágil, se o Espírito a elaborou, Deus a aceitará.

Uma pergunta final

Querido leitor, tens então contigo o Espírito de Deus? Se não tens ido mais longe do que caminhado por ti mesmo, então tens tomado a via equivocada. Mas, se tiver recebido algo que nem a carne nem o sangue pode te revelar, se tens sido conduzido a fazer e a amar aquilo que uma vez desprezou, e a desprezar aquilo no que uma vez repousava em teu coração, então, se essa for a obra do Espírito, te regozijes; pois onde ele começou a boa obra, a concluirá.

Você pode saber se é a obra do Espírito por isto: fostes levado a Cristo e fostes afastado do seu eu? fostes afastado de todos os sentimentos, de todos os atos, de todas as orações que constituíam a base da tua confiança e da tua esperança, e fostes levado a confiar apenas na obra consumada de Cristo?

Se for assim, isto é algo mais do que a natureza humana pode obter. O Espírito de Deus tem feito isso, e ele nunca abandonará o que uma vez começou. Irás de poder em poder, e estarás no meio da multidão lavada com o sangue, por fim completo em Cristo e aceito no Amado.

Mas se você não tiver o Espírito de Cristo, você não é nada para ele. Que o Espírito o conduza ao seu quarto para chorar agora, para se arrepender agora, para que você olhe para Cristo agora, e que tenhas agora uma vida divina implantada, que nem o tempo nem a eternidade serão capazes de destruir. Deus ouça esta oração e faça que nos retiremos com uma bênção, por Jesus nosso Senhor. Amém.

Condensado de www.spurgeon.com.mx

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