A Arca

Só estamos a salvo da inundação escondidos em Cristo, quando ele é a nossa morada e o nosso refúgio.

Henry Law (1707-1884)

"Disse em seguida o Senhor a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca" (Gên. 7:1).

A história da arca nos é familiar desde a infância, e despertou interesse às nossas primeiras lições. Somente o seu nome faz reviver em nós as ternas instruções de nossa mãe ou de um professor diligente. Faz-nos recordar as primeiras páginas de nossa primeira Bíblia e nos leva aos bancos da sala de aula de nossa infância.

Em um país cristão, quase todos ponderaram em sua juventude o trágico fim daquele mundo miserável. Muitos repassam com cuidado cada detalhe do relato até que adquire o realismo de uma cena presenciada. Mas não entram mais, e brincam caprichosamente com a história. Põem os pés na soleira do palácio da verdade, mas não penetram nas amplas câmaras onde Deus dá a luz. São como Agar: o poço de água está próximo e, embora tenham sede, não o podem ver.

Leitor, não te enganes. A Bíblia é como um espelho em suas mãos, para que nele vejas o coração de um Salvador amoroso e as obras de um Salvador poderoso. Cristo é o tesouro que encerram as Escrituras, e se o ganhares será, para sempre, sábio e rico. Mas se não o tiveres, toda riqueza é penúria e todo conhecimento loucura insólita. Siga este princípio e nunca feche as páginas sagradas até obter o sorriso daquele que é o gozo do céu.

Venha com um desejo santo para receber a luz da vida. Juntos, contemplemos a arca. Jesus está ali com toda a glória de seu amor redentor.
«Faça uma arca de madeira de gofer». Isto não é premeditação humana, mas a voz do céu. «E viu o Senhor que a maldade dos homens era muita na terra, e que todo intuito dos pensamentos do coração deles era de contínuo somente o mal». O pecado desmedido, triunfador, incessante, era o vapor que se elevava da terra.

Mas, o pecado pode atrever-se sem que o castigo venha? Impossível! O pecado é a coisa abominável que Deus odeia, e não pode progredir sem desencadear a vingança divina. A prova é esta: O santo e justo Deus proclama: «Tenho decidido o fim de todo ser».

Uma voz de alarme

Alguém poderia imaginar que a ameaça era vaga e que não se dava uma voz de alarme definida? O juízo de Deus não tira a sua espada até que as trombetas derem o seu claro som. Olhe a seguinte nota: «E eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra». Para que todos soubessem que a tragédia estava se formando. Para que todos escutassem o tangido fúnebre de um sino.

Deus é justo. Não fere sem causa nem aviso. Não obstante, parece que embora o anúncio tenha sido claro, só foram emitidos pelos lábios de um pregador. Mas, quem pode contar a multidão de mensagens que através das eras se acumularam em torno do nosso mundo, declarando que o dia do juízo e da perdição dos homens iníquos se aproxima? Ouvimos dizer com frequência que o leito do pecado é a fogueira eterna.

O castigo ameaçador se moveu com passos lentos. A longanimidade de Deus suportou com paciência. Os anos se sucederam; o sol continuava brilhando e os céus apareciam limpos. Certamente, se o prazo do arrependimento tivesse criado o dom de arrepender-se, o mundo teria se vestido com cilício e penitência. Mas deve haver algo muito mais potente que uma mera oportunidade para que uma alma sinta, confesse e abandone os seus pecados. Se o homem não é sujeito ao que é mais alto, precipita-se em sua culpabilidade. Às vezes uma pausa prolongada não é mais que uma iniquidade prolongada.

Um chamado pessoal

Rogo-te que tu mesmo apliques isto a ti. Não me é dado o conhecer os seus tempos, seus avisos ou suas chamadas. Mas tempo já tens, e avisos já tivestes; e cada momento constitui uma chamada. Diga-me: A bondade de Deus tem te conduzido ao arrependimento? Que a consciência responda. Acredite-me, um alívio não é um perdão. Uma execução postergada não é uma execução anulada. Agague foi perdoado hoje para que morresse amanhã de forma mais destacada. Se ainda estás afastado de Deus, derrame agora as tuas lágrimas e tuas orações antes que vás ao lugar onde nunca te cessarás de chorar e onde jamais se elevará uma oração.

A construção da arca progride no meio desta inundação imensa do mal. Noé tinha ouvido bem o mandamento: «Faça para ti uma arca». Algo surpreendente. Tinha que se prover de algo para proteger-se de um castigo novo e desconhecido. A razão poderia inquirir o porquê. A experiência, que não tinha comparação, arrojaria sombras de dúvidas; e o prejuízo, com seus mil sofismas, sugeriria que era muito improvável, se não impossível. Mas aquele homem de Deus estava persuadido e agiu; preparou-se e foi salvo.

Podemos imaginar que o ridículo e a mofa insinuariam aqueles dias de esperançoso trabalho, e que muitos zombariam de seu inquebrável empenho. Esta é a luta constante da fé. O homem natural não entende os seus motivos, suas esperanças, suas ações; mas ela possui um ouvido sensível e um olho rápido para ver a mão guiadora de Deus. Sabe bem em quem tem crido, e a sua certeza é mais firme que todas as conclusões da razão ou os testemunhos dos sentidos. Por isso, nada a comove; vence toda dificuldade e, abraçando a cruz, ganha a coroa da vida.

Escapando da ira

No fim soa a última hora. A taça de iniquidade já está até para ser transbordada e, quem poderá parar a mão direita do Senhor? As nuvens se apertam e derramam correntes incessantes. Onde estão agora as pilhérias, os vitupérios, a incredulidade insolente? Às vezes a verdade de Deus é descoberta tarde demais e só creem na destruição quando a vítima sente as suas garras. Já não encontra refúgio. O edifício mais elevado, o topo da rocha mais elevada, tudo, é um tumulo alagado. A terra parece um redemoinho de desespero, e em seguida, só fica o silêncio da vida ausente.

Estes são os fatos solenes. Quando não há temor da ira que foi anunciada, é impossível escapar dela. Mas, ouça, porque cada gota daquele imenso dilúvio tem uma voz para aquele mundo iníquo e sua morte angustiosa. A palavra de Deus responde de igual modo: tão certo quanto os homens andam sobre aquela mesma terra, assim também estalará a labareda final. Mas, se não esperarmos tal momento! O dormitar despreparado é sinal de que está próximo. Logo virá e passará. Logo receberemos a nossa parte.

Leitor, naquela hora, tu te encontrarás na Arca da salvação, ou te retorcendo nas ondas dos condenados? Reflita! Este mundo decrépito e cego pelo pecado avança para o abismo da sua ruína. Estás, pois, seguro no porto protetor, ou estás desprotegido, como um cesto no meio do oceano que ruge?

Sabe por que te pergunto isto? Porque gostaria que estivesses a salvo, e fosses feliz, e tenhas paz e bênçãos para sempre. Mas não há abrigo, nem felicidade, nem paz, nem bênção, fora da Arca do Evangelho, que é Cristo Jesus.

Cristo, a Arca do Evangelho

Contemple-o! O que é a arca a não ser uma figura de sua completa redenção? Jesus é a salvação de todo perigo, o refúgio nas alturas, a rocha protetora. É o palácio duradouro cujo fundamento foi posto na eternidade; edificado no cumprimento dos tempos sobre as planícies da terra. Jesus é o resguardo elevado que, havendo-o Deus decretado, renomado e provido, foi entregue aos filhos dos homens. É proteção tão segura que os raios do juízo divino caem sem perigo ao redor dele, e as raivosas tormentas da vingança, e as ondas furiosas da ira não fazem mais que consolidar a sua fortaleza. E tem que ser assim, porque este lugar de repouso é o Deus poderoso. A nossa salvação é o servo do Senhor. Nosso glorioso santuário é o glorioso Jesus.

A Arca está perto de ti, aos seus pés. Suas portas estão totalmente abertas, e tudo te convidas, mais ainda, ordena-te que entres. O dedo de Deus tem escrito sobre a porta que, aquele que entrar, estará a salvo para sempre. Não há poderes na terra nem no inferno que possam prejudicar os resgatados.

Pensamentos enganosos

Vacilas? Lástima, porque há muitos rostos que proclamam com rastros de preocupação mundana a frivolidade, indiferença, profanidade e pecado herdados de seus antepassados. Por que quer suicidar-te? Oh, se eu pudesse penetrar no fundo do teu coração para detectar a dúvida fatal que destila ali o seu ópio!

Com estes argumentos descobrirás os inimigos mortais que habitam em ti. A inquietação se acalma, às vezes, com a ideia néscia que assegura que somos como os demais. Se estivermos em perigo, quem não está? Esta imensa multidão vai perecer? Deus é misericordioso e não pode descarregar esse castigo inconcebível. Tal pensamento é enganoso. Os números não podem mudar a verdade divina ou o caráter do pecado, nem podem construir um barco para flutuar nas ondas de fogo.

A juventude, se chegar a pensar, crê que os anos vindouros brindarão com algum refúgio, mas este é um sonho banal. Acaso pode a fé surgir da incredulidade envelhecida? A humanidade, em sua infância, não foi suficiente para deter o dilúvio. Quem poderia contar as origens que a devorou?

Se fores jovem, sejas prudente e não rias por um pouco de tempo para em seguida gemer por uma eternidade sem limite. Outros acreditam estarem salvos porque aprenderam as verdades do cristianismo. Faz tempo que estudaram sobre a Arca e durante muitos dias constituíram a sua visão e seu tema principal. Mas isto não salva. Os que confiam em um mero conhecimento mental irão ver que a sua memória é como um fio agudo para o devorar do verme que não morre.

Talvez te aproximes muito por meio de ritos, cultos e regulamentos, tanto, que pareça que tens posto tuas mãos na graça salvadora. Também muitos tocaram a arca, e isso foi tudo. Quando as águas cresceram, quiseram agarrar-se a ela com uma mão em agonia. Em vão. Estavam fora, e aí tudo é morte. Alguns esperam poder orar e clamar antes que seja tarde demais. Mas, quantos se afundaram gritando inutilmente com pedido de auxílio!

Quiçá sejas agraciado em dons, em talento, em posição, em diligência, em amor próprio ou em aplausos diante dos homens. Mas do mesmo modo que os picos que transpassavam as nuvens se dobraram diante do dilúvio, assim também as mais altas pretensões são como pó diante do grande trono branco.

Segues mantendo ainda a esperança de que no último instante poderás achar algum meio de escapar? Muitas coisas foram inventadas quando o dilúvio começou a sua obra devastadora, mas tudo foi inútil.

Uma provisão real e sólida

Leitor, não te deixes enganar, no que diz respeito a vida da tua alma, por estes impostores disfarçados. Volta-te para a verdade de Deus. Busque a única provisão real e sólida que a Bíblia destaca com braço estendido. Só há um nome debaixo dos céus, dado aos homens, pelo qual podemos ser salvo. Só há um refúgio. Só estamos a salvo encerrados e envoltos em Cristo. Só estamos por cima do perigo quando ele é a nossa morada, a Arca.

Não descanse até que tenha passado pelo umbral da Arca descida do céu. «Certamente na inundação de muitas águas, estas não chegarão a ele» (Sal. 32:6).

Do Evangelho em Gênesis.

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