O aroma suave

Os filhos de Israel aprenderam, na penumbra de seus ritos, a plenitude da obra de Cristo.

Henry Law (1707-1884)

"E sentiu Jehová um aroma suave" (Gên. 8:21).

Leitor, não desejas que a tua alma seja aceita diante do trono da graça? Quem sabe você respondesse: Tal bênção é inalcançável. Como pode uma criatura tão insignificante alcançar tal favor, um pecador tão vil? Bendito seja Deus! Há uma porta disponível. Aproxime-se apoiado com fé nos braços de Jesus; revestido, por fé, em sua justiça; amparando-te, por fé, nos méritos do seu sangue, e entrarás com alegria indescritível.

A Bíblia parece escrita com o propósito de nos guiar, por um caminho eterno, ao repouso que Deus oferece. Por isso, em suas páginas, vemos como as portas douradas se abrem quando mãos como as nossas as tocam. Abel se aproxima com o cordeiro requerido e não acha rejeição. «E olhou Jehová com agrado para Abel e a sua oferta». Noé foi com a mesma chave e não encontrou impedimentos. Seu culto consistiu naquele incenso de gratidão. «E sentiu Jehová um aroma suave».

A morte de Jesus

Assim foi e sempre será. Há tão poderosa virtude na morte de Jesus, que Deus não a pôde resistir. Quando um pobre pecador a apresenta, há gozo no alto. Quão importante é que vejamos esta verdade com toda clareza! À partir deste ponto, quando Noé verteu o sangue, que representava a Cristo, Deus sentiu um aroma suave. Ao ser imolado o Cordeiro, uma fragrância agradável inundou o céu.

Estas gratas novas mostram o argumento com que podemos obter o perdão e a graça necessária. Mesmo que tivéssemos tratado de explicar esta lição com muitas razões, só teríamos conseguido elaborar um leve esboço. Mas o Espírito apenas afirma: «E sentiu Jehová um aroma suave». Com um só olhar, compreendemos tudo. Ao levantar-se a cruz, nuvens de aroma de vitória transpassaram o firmamento.

Esta imagem é uma joia do tesouro bíblico, que fala na linguagem de todas as classes em todas as épocas e em todos os lugares. Ela foi uma luz para os piedosos peregrinos dos tempos primórdios e, depois de muitos séculos, continua sendo uma luz para nós. Ela reavivou os nossos irmãos da antiguidade e reavivará ao último santo. Desce à humildade da mais singela morada, mas se remonta também por cima do intelecto mais elevado.

«E sentiu Jehová um aroma suave». Todos entendem igualmente que o Pai encontra o seu repouso em Jesus, ficando a sua divindade satisfeita. Todo o Evangelho da reconciliação se encontra nessa frase. Os filhos de Israel aprenderam, na penumbra de seus ritos, a plenitude da obra de Cristo. O derramamento de sangue proclamava um perdão completo. Mas, para lhes dar uma certeza maior ainda, agitava-se, sobre cada vítima, este ramo de oliveira: «...e o sacerdote fará arder tudo sobre o altar; holocausto és, oferta queimada de aroma suave para Jehová» (Lev. 1:9).

E quando o grande apóstolo enaltece a cruz, usa o mesmo emblema para demonstrar o seu poder: «Cristo nos amou, e se entregou a si mesmo por nós, oferta e sacrifício a Deus em cheiro suave» (Ef. 5:2). Esta é a lente de aumento com o qual vemos que a morte de Jesus é o jardim que emana os perfumes mais suaves para Deus. Somente aquele sacrifício exala uma fragrância eterna e ilimitada.

A Justiça

Aproximemo-nos mais e vejamos o deleite infinito de Deus. Quando contemplamos a Deus em sua majestade, podemos ver sobre a sua cabeça as incontáveis coroas de sua pura e santa excelência. Todas elas brilham harmoniosamente com glória infinita e imutável. São inseparáveis e não podem existir sozinhas. Estão unidas com laços que apenas Deus podia atar, e que ele nunca desfará. Sendo assim, poderiamos perguntar: Como, então, podem todas elas contribuir para fazer que um pecador participe do trono do Eterno?

Que fale, primeiro, a Justiça. As suas reclamações nos enchem de terror. Tem direito de exigir uma obediência ininterrupta durante toda a vida. Cada pensamento que se desvia do amor perfeito, incorre em uma dívida infinita. Em sua mão leva um rolo escrito, contra nós, por dentro e por fora. Se relaxasse, equivaleria a tolerar o mal, e Deus cessaria de ser Deus. Portanto, clama com insistência: «Pague o que deve». Mas como poderia pagar aquele que não possui nada a não ser o seu próprio pecado?

Contemple a cruz. Ali Jesus pagou com a sua morte, e não há língua que possa expressar o seu valor. A Justiça sustenta a balança, que range com o peso de tanta iniquidade. Mas aquele sacrifício satisfaz, com acréscimo, a diferença. A Justiça se regozija agora, porque foi imensamente honrada, pois, embora toda a raça humana tivesse sido precipitada na cela da tortura e ali se retorcesse eternamente pagando o castigo infernal, contudo, a dívida não seria cancelada. Mas Jesus morre e a Justiça se torna, imediatamente, coroada com satisfação eterna.

Um exemplo da vida diária, ainda que só reflita a verdade em parte, pode nos ajudar. Certo homem tem uma dívida milionária. Seus meios apenas lhe permitem pagar um centavo a cada dia. A credora manda prendê-lo e começa a cobrar o débito diário. Passam os anos, mas a quantidade apenas decresce, pois o tirar um grão de areia a cada dia nunca extinguirá as areias do oceano. Mas, eis que, um homem rico vem e, com apenas um pagamento, cancela a dívida. A acusação é retirada; o prisioneiro sai livre; e o credor se alegra com o pagamento. Do mesmo modo, a taça de expiação que a justiça recebe na cruz está tão cheia que não pode conter mais. A Justiça se satisfaz com a doçura do seu sabor.

Considere as maravilhas que agem assim: a Justiça descansa a sua espada vingadora e se envolve em sorriso de amor aprovativo. Cessa de ser o adversário que exige a condenação, e se transforma em advogado que, insistente, pede a absolvição. O mesmo princípio que com tanta rigidez demanda a morte por cada pecado, nega-se, com igual rigidez, a receber o pagamento duas vezes. Agarra-te, pois, à cruz. A Justiça estabelece ali, com petição poderosa, o seu direito ao céu.

A Verdade

Vejamos agora o doce sabor que desprende a Verdade de Deus. Se a Justiça for inflexível, também o é a Verdade. Seu sim é sim; seu não é não. Quando fala, a sua palavra deve cumprir-se. Os céus e a terra passarão, mas ela não pode retroceder. A sua voz já se deixou ouvir anunciando a ira eterna que cada pecado provoca. Por isso, fechou as portas do céu com barras de duro diamante. Lágrimas, penitências e súplicas são em vão.

A Verdade seria falsa se aquele pecado escapasse impune. Mas Jesus deve beber a taça da vingança; cada ameaça recai sobre ele. A Verdade não necessita mais. Bate as suas asas com gozo, e veloz voa ao céu para anunciar que nenhuma palavra deixou de cumprir-se.

Tomemos outro exemplo imperfeito. Um rei proclama um decreto e declara sob juramento que a desobediência será seguida pela morte. Um súdito se rebela e é achado culpado. É-lhe imposta a execução. Se o rei vacilasse agora, onde parariam a sua fidelidade e a majestade de seu império? Mas imaginemos que o filho do rei se oferece para sofrer a pena no lugar do ofensor. Deste modo, a lei seria honrada, o decreto não seria violado, e a ordem seria satisfeita, ao mesmo tempo em que o culpado seguiria vivendo. Assim também, quando Jesus sofre, a Verdade se reveste de honra e percebe o aroma suave da satisfação.

Regozije-se na cruz, crente. A mesma lei que tinha forjado tão fortes cadeias, acha que, apenas ali, pode aceitar a fazer de sua vida a sua morada. Agora demanda a tua salvação porque não tens nada contra ti, mas, pelo contrário, lhe oferece tudo isso com a promessa: «…para que todo aquele que nele crê, não se perca, mas tenha a vida eterna».

A Santidade

Devo acrescentar que Jesus é aroma suave à Santidade de Deus. Este atributo é a planta sensível do céu que se retrai diante da presença do pecado. Não pode resistir a impureza e apenas aceita uma retidão imaculada. Só respira onde tudo é puro. Pois bem, na cruz acontece algo maravilhoso que faz vibrar de gozo cada fibra do coração. Brota dela uma corrente que limpa toda culpa até fazê-la desaparecer. E isto não é tudo. Quando o pecador a contempla, a sua paixão por aquele pecado murcha, e floresce o amor de Deus. Por isso, a cruz apresenta à Santidade, «…uma igreja gloriosa, que não tenha mancha nem ruga nem coisa semelhante».

Leitor, você quer obter um salvo-conduto e aptidão para o céu? More junto à cruz. Ali adquirirá o direito de herdar o céu e a liberdade de gozar. Os ministros de Cristo querem enfraquecer aquele poder de Satanás? Preguem a cruz. A única força santificadora é a fé em Cristo.

A Misericórdia

Também a Misericórdia exala doce aroma. A Misericórdia chora ao contemplar a miséria humana. Aflige-se diante da aflição. Prova a gota mais amarga da taça de dor. Mas seu triunfo é grande quando se evita a angústia, quando se perdoa ao culpado, quando se resgata ao que perece. Quão intenso é o seu gozo quando vê a imensa multidão que foi arrancada da amarguíssima agonia, e levada para a glória celestial! O seu deleite se transborda para ouvir as vozes dos que cantam as vitórias do Cordeiro, e ao entender que esta adoração ressoará com melodia mais potente pela eternidade. Mas apenas na cruz a Misericórdia pode erguer a cabeça em triunfo.

Com dor, eu noto que muitos filhos do pecado têm uma vaga esperança de achar misericórdia sem ter achado a Cristo. Oh! Se pudessem compreender a tempo que a misericórdia de Deus nunca se afasta do Calvário! Confio, leitor, que agora poderás ver com clareza em que forma todos estes atributos cantam, gozam-se, dão graças e glória por esse Jesus que dá satisfação por tudo. Seu incenso sobe e o céu se extasia com o seu perfume. Por isso, o Pai apresenta o Filho dizendo feliz: «Eis aqui... o meu escolhido, em quem minha alma tem contentamento». E também: «Este é meu Filho amado, em quem tenho prazer».

O aroma de Jesus

Leitor, pensas da mesma forma? O gozo do céu é o seu próprio gozo? O seu perfume é o perfume do seu espírito? Recreiam-se e repousam todas as suas faculdades em Jesus? Ele é o seu paraíso das mais belas flores e fragrantes espécies? Creia-me, todo doce aroma está nele. Creia-me, fora dele não existe aroma de doçura.

O mundo é um deserto impuro. O vapor de sua maldade é corrupção e podridão. Aparta-te dos seus espinheiros. Vem e passeie pelas verdes alamedas do Evangelho, e participe de suas delícias abundantes. Os redimidos cantam pelos caminhos do Senhor: «Seu nome é como unguento derramado». «É a rosa do Sarom». «Meu amado é para mim um saquitel de mirra». «Ele é como um cacho de flores de alfena». «Mirra, aloés e cássia exalam todos os seus vestidos». Sim, ele é o aroma suave que nunca se desvanece.

E quem pode ouvir isto e persistir em uma vida sem Cristo? Suplico-te, filho do pecado, que faças uma pausa. Sem Cristo está sob maldição; os seus méritos são trapos sujos; a sua oração é abominação; o seu louvor, um insulto; o seu serviço, uma brincadeira. Cada dia te leva a um passo mais longe de Deus, e sua morte será a sua queda no inferno. Diga-me, não é muito melhor ser aroma suave de Cristo para Deus? Pense! Uma vida com o perfume de Cristo será como uma fragrância eterna no reino de luz. Mas, uma vida que exala o aroma da corrupção terrestre, converte-se por fim na fumaça aborrecível do sepulcro das trevas.

Do Evangelho em Gênesis.

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