O homem na mensagem

O mensageiro e sua mensagem são uma só coisa; a mensagem está na constituição do homem e sua história sob a mão de Deus.

T. Austin-Sparksn

Um instrumento escolhido

Isto não pretende ser uma «vida do apóstolo Paulo», mas tem algo a ver com o significado particular deste servo de Jesus Cristo. Embora em seu caso existam fatores vitais e essenciais que são comuns a todo servo de Cristo, e que são básicos para todo ministério frutífero (como mencionaremos mais adiante), tudo o que se refere a Paulo indica que ele era na verdade um «instrumento escolhido», conhecido de antemão, predestinado e eleito.

Isto era particularmente certo na natureza do ministério para o qual ele foi «aprisionado». A própria natureza do ministério –na medida– pode ser a «chamada» de outros, mas Paulo foi o pioneiro. Todos os apóstolos permaneceram no terreno comum que se refere aos fundamentos da fé: a pessoa de Cristo, a obra de Cristo, a redenção, a justificação, a santificação, a comissão para pregar a salvação em Cristo a todo mundo, a segunda vinda do Salvador, etc.

Eles tinham o mesmo fundamento. Cada um pôde ter «a graça conforme à medida do dom de Cristo»; quer dizer, segundo o seu dom pessoal, quer seja apóstolo, profeta, evangelista, pastor ou mestre, cada um tinha «a graça» –unção, capacitação– correspondente a sua responsabilidade, mas nos «fundamentos», quer dizer, em todo o essencial, eles coincidiam e estavam unânimes. O que queremos dizer com relação a Paulo, nem por um momento podemos sequer tirar algum pequeno fragmento do grande ministério de João, de Pedro, de Tiago ou de outros.

Nunca o Novo Testamento poderia sofrer a perda desses ministérios, e em outros lugares temos nos gloriado neles. Quando tudo o que se tem dito com respeito ao valor deles –e este seria um imenso «tudo»– ainda podemos afirmar que havia, e há, algo que é único e particular no que veio através de Paulo.

Antes de prosseguir, diremos algo muito importante. Paulo nunca teria podido compreender a sua vida antes da conversão, até que passou a estar debaixo das mãos de Jesus Cristo. Essa vocação a qual tinha sido chamado quando Jesus se converteu no seu Senhor, lança muita luz sobre a soberania de Deus em sua história passada. Este é um princípio que ajudará a muitas pessoas e servos de Deus, o qual mostra quão enormemente importante é que Jesus seja não só o Salvador, mas o Senhor.

Debaixo da mão do Senhor

O nascimento judeu de Paulo, a sua criação, a sua formação, educação e profundo arraigo naquilo do qual seria libertado por aquele poder de Deus, algo que demonstraria não ser o que Deus necessita, é em si mesmo de um grande valor educativo. Por que Deus, em sua presciência, poria um homem profundamente em algo que em última instância não representa o Seu pensamento, é um fato a se destacar.

Muitos sustentam isto, porque desejam saber se, pelo fato de que Deus os pôs em certo caminho, trabalho, forma, associação, têm que permanecer ali para sempre, quer queiram ou não. A história de Paulo refuta esse argumento. Os caminhos de Deus, no caso de Paulo, mostram que Deus pode fazer tal coisa, e que toda a Sua soberania realmente pode estar no fato, mas apenas para um propósito determinado, um fim temporário; quer dizer, para dar um conhecimento profundo e exaustivo através daquilo que realmente, no melhor dos casos, é uma limitação ao propósito pleno de Deus.

Um servo de Deus eficiente deve ter um conhecimento pessoal daquilo do qual o povo requer ser libertado. Abraão teve que conhecer Caldéia; Moisés teve que conhecer o Egito; Davi teve que conhecer a falsidade do reinado de Saul. Assim, Paulo teve que conhecer o judaísmo proscrito, a fim de poder falar dele com autoridade, a autoridade da experiência pessoal. Se nós fôssemos salmistas, deveríamos pôr um «Selá» ali. «Pense nisto!».

Entretanto, devemos sublinhar dois aspectos deste princípio. Estamos nos referindo a aquilo que estava, sem dúvida, dentro da obra divina, «conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o desígnio de sua vontade» (Ef. 1:11), e «conforme o seu propósito» (Rom.8:28). Em sua conversão, Paulo não estava trocando o seu Deus; Jehová era seu Deus para sempre. A mudança ocorreu no método de Deus. Ainda era Deus operando. Estamos dizendo isto porque ninguém pode dizer que, porque nasceu e se criou desta ou daquela maneira, a intenção da «Providência» (quer dizer, Deus) era que esta fosse a sua condição para sempre.

Devemos ser como somos e permanecer onde estamos pela vontade soberana de Deus, sabendo que qualquer mudança importante igualmente é definitivamente de Deus, e a única alternativa a nos libertar dela é por meio de uma aberta desobediência à vontade de Deus que nos apresentou, um desviar do caminho. Sem dúvida haverá demandas em nosso caminhar de fé com Deus, porque o elemento de aparente contradição pode estar presente.

Não sabemos que batalhas mentais e da alma Paulo teve. Não é registrado que, diante da imensa revolução, ele raciocinasse com o Senhor: «Bem, Senhor, por sua própria soberania eu nasci judeu, e isto com mais que termos gerais: da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, fariseu. E agora, Senhor, está-me exigindo tomar um curso que nega e contradiz tudo aquilo. Não é próprio de ti, Senhor, te contradizeres a ti mesmo; isto parece tão inconsistente. É como se eu não tivesse sido temeroso a ti, e não tivesse crido em ti».

A provisão de um servo

A mudança foi tão revolucionária que parecia haver dois caminhos contrários no próprio Deus. Aqui houve uma grande ocasião para assumir esta palavra: «Confie em Jehová de todo o teu coração, e não te apoies em tua própria prudência» (Prov. 3:5).

Poderíamos citar os casos de muitos servos de Deus que foram levados a uma crise entre a razão e a fé quando Deus estava demandando uma decisão que parecia contradizer toda a sua direção anterior. Alguns destes vieram a ser grandemente reivindicados pela obediência; outros viveram para serem exemplos de pessoas que perderam o caminho, ou o melhor de Deus.

Tudo isto tem a ver com a soberana preparação e a provisão de um servo Deus para que ele conheça realmente por experiência profunda aquilo sobre o qual está falando e qual é a diferença. Isto é então, em resumo, o que toca a seu relacionamento judeu.

Mas Paulo foi eleito e destinado a ser o mensageiro especial de Deus a todas as nações, não só a uma nação. As nações estavam principalmente sob o domínio do governo romano e da cultura e língua grega. De seu pai, Paulo herdou a cidadania e a liberdade romana, e por seu nascimento e sua educação em Tarso, teve a língua grega e uma familiaridade de primeira classe com a vida e a cultura grega.

Estas três coisas –o judaísmo, a cidadania romana e a língua grega– lhe permitiram desenvolver-se com facilidade virtualmente em todo mundo. Entretanto, somado a toda esta qualificação natural estava aquilo sem o qual Paulo nunca teria sido o fator real que a história testemunha - ele foi ungido com o Espírito Santo.

Frequentemente, a unção compensa a deficiência natural na educação e o nascimento, e os homens têm feito uma história espiritual que nunca teria sido reconhecida em ambientes meramente naturais. O Senhor teve grande cuidado em que Paulo nunca pudesse tomar vantagens naturais no terreno de seu verdadeiro êxito. Isto esteve comprometido ou sugerido nas primeiras palavras registradas do Senhor a respeito dele (a Ananias) depois de sua conversão: «Eu lhe mostrarei o quanto lhe é necessário padecer pelo meu nome» (Atos. 9:16).

A soberania de Deus

A soberania de Deus é multifacetada, e tem muitas formas. É só quando se conta a história completa que vemos a verdadeira explicação. No princípio e no curso pode haver lugar para muitos «por ques?». Um Moisés e um Jeremias podem começar com aquilo que estão convencidos que é uma definitiva desvantagem e contradição, mas a história justifica a Deus e ao final é reivindicada a Sua sabedoria.

Quando Deus diz: «instrumento escolhido», ele conhece tudo sobre a argila de que é feito o vaso. Como veremos, as duas coisas implícitas às quais nos referimos se tornam cada vez mais evidentes. A primeira é que o mensageiro e sua mensagem são uma só coisa; a mensagem está na constituição do homem e sua história debaixo da mão de Deus.

E a segunda é que o homem é reconhecido não só por suas qualificações naturais, mas primordialmente porque Deus o ungiu para a sua posição e sua obra.

O fruto da unção

Nenhum homem pode estar nelas, mas em uma posição totalmente falsa, a menos que o que ele mesma fala tenha nascido de uma experiência real.

Por exemplo, só pode falar de quebrantamento um homem que foi quebrantado. Todo o ministério de Paulo foi fruto de uma história contínua com Deus em experiências profundas e geralmente dolorosas de conflito. Foram «os despojos da batalha».

É absolutamente imperativo que seja evidente e manifesto que qualquer posição, função e serviço de alguém em relação a Cristo seja fruto da unção, para que a impressão e a conclusão de todos seja que tal homem, sem dúvida alguma, foi ungido para esta obra.

A unção simplesmente significa que Deus é muito evidente na vida daquela pessoa, no que está fazendo e na posição que ocupa.

Estar fora de posição é estar sem a unção neste particular. Nós não podemos selecionar, escolher ou decidir nosso lugar e função. Isto é algo orgânico, e assim como é trôpego para uma perna tentar fazer o trabalho de um braço no corpo humano, assim sempre haverá algo errado quando assumimos um trabalho ou uma posição para a qual a soberania do Espírito não nos escolheu.

Com todas as adversidades e oposições, é muito útil saber que estamos onde estamos por intuito divino e não por nossa própria vontade.

É uma boa coisa quando sabemos qual é e qual não é a nossa função, e atuamos em consequência dela. Há suficientes funções no corpo para que cada membro, debaixo da unção, tenha a sua muito definida, e a função se expressa tão naturalmente como um olho vê, uma orelha ouve, uma mão sujeita e assim sucessivamente, se a cabeça (a Cabeça) está no controle completo e correto.

Então, Paulo tem muito que nos ensinar sobre este assunto, primeiro por sua própria vida e em seguida por seus escritos.

A esta altura, somos trazidos de volta ao ponto onde divergimos da mensagem para o homem, e agora devemos considerar a diferenciação daquela função para a qual Paulo foi especialmente escolhido e aprisionado.

A vocação distintiva de Paulo

Que havia uma diferença e peculiar importância no ministério de Paulo tem uma série de fortes evidencias e testemunhos. Ele mesmo sabia desta distinção e frequentemente se referiu a ela, tanto em relação a sua substância como à forma em que recebeu o seu ministério. Isto se expressa em palavras como: «a administração da graça de Deus que foi dada para convosco... que por revelação foi declarado o mistério... lendo o qual podeis entender qual seja o meu conhecimento no mistério de Cristo... me foi dada esta graça... de esclarecer a todos qual seja a dispensação do mistério» (Ef. 3:2-4, 8-9).

Embora Paulo não diga que apenas ele teve o «mistério» revelado, ele afirma que, como uma mordomia, um ministério, lhe foi revelado de uma forma claramente pessoal e direta do céu. Ele afirma ter sido divinamente aprisionado para este ministério específico. O que foi essa revelação será desenvolvido ao longo do que ainda devemos escrever. No momento, ocupamo-nos com o fato da vocação específica de Paulo.

Não menos importantes entre as evidências disto, estão a fúria, as ofensas, o ódio, a malícia e a crueldade assassina do diabo e suas forças focadas sem trégua sobre este homem. Isto foi, sem dúvida, devido à revelação que vinha através dele e não só por sua personalidade. Tudo começou e se desatou até antes que Paulo fosse o vaso chamado para isso.

Para ver e entender isto, temos que voltar para o homem que tinha visto previamente aquilo que foi mostrado a Paulo. Referimos-nos a Estevão, o primeiro mártir cristão, e ficamos profundamente comovidos quando lemos o relato de sua morte. Mas quão pouco temos entendido Estevão, e quão cegos nós fomos para perceber o real significado de sua morte – seu martírio por meio dos homens controlados por Satanás.

Estevão, o precursor de Paulo

Uma consideração cuidadosa do discurso de Estevão diante do Sinédrio judeu mostrará que ele foi uma espécie de prólogo, uma introdução ao ministério de Paulo. Se Estevão tivesse permanecido com vida, sem dúvida, ele e Paulo teriam formado uma aliança poderosa na administração do mistério.

Isto, é obvio, supõe que o Senhor não previu que Estevão iria morrer, e que, nesse conhecimento prévio, ele não teria designado a Paulo como único administrador deste ministério em sua plenitude. A soberania divina raras vezes se evidenciou mais do que foi no episódio no qual Saulo presencia a morte de Estevão, embora como cúmplice dela.

À medida que avançamos com Estevão em seu discurso, seguindo os seus pensamentos desde Abraão através de Isaque, Jacó, os patriarcas, José, Israel, Moisés, Egito, o Êxodo, o Sinai, o tabernáculo, o deserto, Josué, Davi, Salomão, o templo, os profetas, até Cristo, há algo que domina a mente de Estevão, que é a chave de tudo e que –mais que qualquer outra coisa– explica, define e caracteriza a Paulo e seu ministério.

Deus não desiste do seu propósito

Este algo é que Deus está sempre, desde a eternidade até a eternidade, avançando a um objetivo supremo. Através da queda do homem, e da obstrução e tentativa de frustração humana e satânica, por meio de uma grande variedade e multidão de formas, meios e pessoas, em todas as gerações e eras, Deus sempre está prosseguindo. E seus instrumentos desejados e escolhidos podem inclusive se tornar um estorvo mais que uma ajuda.

As nações, impérios e sistemas podem opor-se e obstruir; as circunstâncias parecem limitá-lo, mas –em um tempo determinado– vemos que Deus não desistiu, e ainda prossegue. Ele mesmo estabeleceu um propósito e uma meta e essa meta será alcançada.

Embora os judeus «sempre resistem ao Espírito Santo», como diz Estevão; tanto pior para eles. Esta é a tremenda conclusão de seu discurso.

Dentro dessa inclusividade há outros destaques. O propósito de Deus é celestial, amplo, espiritual, eterno. Nem o tabernáculo, com toda a sua beleza interior e encarnação simbólica do pensamento divino; nem o templo de Salomão com toda a sua magnificência e glória; nem o próprio Salomão com a sua impressionante sabedoria e entristecedora riqueza –diz Estevão– pode remotamente ser comparado a aquilo para o qual Deus está se movendo em relação ao seu Filho.

Isso não é «feito por mãos»; não é da terra. Isso é a casa de Deus (Atos 7:48-49). O Espírito Santo –diz Estevão– se move mais e mais para este propósito supremo. Estevão, em uma hora gloriosa, conheceu a força arrasadora daquilo com o qual Paulo toda a sua vida: a incorrigível tendência do povo de Deus de mundanizar o que é essencialmente celestial; de cristalizar as coisas espirituais em sistemas construídos pelo homem; de tomar o que é de Deus e convertê-lo em algo terreno, exclusivo e legal, debaixo do controle do homem.

A oposição à visão celestial

Estevão representa e é testemunha desta «visão celestial» (que se converteu na frase de Paulo), a qual lhe atraiu o ódio mais violento e vicioso dos interesses religiosos, no que concerne aos sistemas, e o zelo mais feroz de Satanás, por trás de tudo.Qualquer pessoa que toque as tradições religiosas e a ordem estabelecida descobrirá a mesma coisa

que Estevão, uma inveja resultante da cegueira ao amplo propósito de Deus. De alguma forma será apedrejado pelo ostracismo, a exclusão, as portas fechadas, a desconfiança e a incompreensão, evidentes no caso de Paulo.

Temos dito o suficiente a respeito de Estevão, para justificar e estabelecer nossa declaração de que ele foi –por assim dizer– Paulo adiantado? Estevão mesmo é um exemplo do mover de Deus apesar do inferno e dos homens, assim como Paulo foi em plenitude quando os homens mataram a Estevão. Olhemos para trás, a nossa declaração inicial que uma maior evidencia do ministério específico para o qual Paulo foi eleito é a veemência do antagonismo satânico.

Tudo o que temos dito, e muito mais, é obvio, será abordado em uma posterior consideração do ministério do próprio Paulo, mas estou seguro que estamos começando a perceber algo do seu significado. Ainda antes de nossa contemplação do coroado e consumado ministério do apóstolo Paulo, há vários assuntos de considerável valor que podem constituir um breve capítulo por si só.

Traduzido do Witness and Testimony Publishers, 1966.

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