O Escudo

Não existe sombra de proteção se não for debaixo das Suas asas protetoras.

Henry Law (1707-1884)

“Não temas, Abraão; eu sou o teu escudo...” (Gên. 15:1).

Abraão já tinha ouvido o estrondo terrível da guerra, e tinha se visto nos perigos da batalha. Por isso sabia bem que, sem o amparo de um escudo, o guerreiro se precipita para a derrota e à morte.

Deus que rodeia

Logo que embainhou a espada, quando o Senhor, em sua misericórdia, visita o seu fiel servo. As suas palavras de consolo chegam a tempo: «Não temas, Abraão; eu sou o teu escudo». Deus rodeava o patriarca completamente, e sua segurança consistia em saber que todo inimigo não era mais que palha.

Cada soldado de Jesus pode ver-se refletido nesse Abraão lutando e escutando. O serviço do Senhor, embora esteja suavizado com a paz do céu, é uma tormenta de embates terrenos e infernais. O repouso da fé não elimina a batalha da fé. O descanso na confusão não significa descanso sem confusões.

Necessariamente temos de enfrentar adversários neste território hostil. Satanás ainda tem poder e está cheio de ira. A carne ainda é carne e combate contra o Espírito. O mundo é ainda o mundo, e, embora esteja desgastado por séculos de pecado, ainda tem vigor para odiar, aptidão para ferir e poder para acorrentar. Por isso, estão liberando batalhas sem cessar. Mas tudo é em vão, porque Jesus vive e ama sempre, e segue animando a cada crente lhe dizendo: «Não temas, eu sou o teu escudo».

Coberta protetora

Mas, o que é um escudo? É simplesmente uma arma desenhada para a defesa, que o combatente leva no braço para deter os ataques do inimigo. Seja qual for o ataque, o escudo se interpõe, e tudo o que estiver por trás fica a salvo. Do mesmo modo, no cruento campo de batalha da fé, Jesus é uma coberta protetora, e os dardos do inimigo perdem toda eficácia.

Isto é um exemplo santo. Oxalá te ensine lições santas para a alma! O fará se, pela graça vivificante do Espírito, a fé vá para Jesus mais claramente, e o coração lhe amar mais. Tomemos, pois, o nosso posto de oração no terreno da verdade, e nos previnamos dos perigos que nos ameaçam e do modo em que Jesus os afasta.

O "eu" é o pecado

Quão poucos avaliam devidamente os enormes perigos a que conduz aquele pecado! Mas, se desprezaria a este monstro caso conhecêssemos realmente a sua natureza e suas consequências? Viveriam os homens em seu abraço fatal se soubessem que é aquele pecado o que lhes faz inimigos de Deus?

Deus se reveste de ira justa, e os raios de sua fúria ardem contra aquele pecado. O braço do desgosto onipotente sempre está elevado para destrui-lo.

Diante desta terrível realidade, como poderão resistir o pó e as cinzas diante da magnitude de Sua vingança? É impossível fugir, pois Deus está em qualquer lugar; é inútil resistir, porque ele é todo-poderoso. Confiar em nós mesmos será a ruína, pois o eu é o pecado, e o pecado é a única causa da ira divina.

Jesus ferido

Cristo Jesus está entre a majestade ofendida de Deus e o ofensor condenado, apresentando-se para receber cada golpe. Estes caem e tornam a cair, porque a verdade e a santidade assim o requerem. A descarga da indignação de Deus lhe açoita horrivelmente. «Agradou ao Pai feri-lo». As armas de Deus caem sem nos causar dano, porque todas foram descarregadas sobre o Filho. Assim é como o crente se encontra com a ira de Deus, e continua vivendo.

Leitor tens achado refúgio em Jesus? Só mereces calamidades, e terá que vir. Orgulhar-se de nossa indefesa natureza é a perdição segura. Não existe sombra de proteção a não ser debaixo das Suas asas protetoras. Te refugiastes, por fé, neste abrigo? Só a fé dá acesso a este forte impenetrável. «Justificados, pois, pela fé, temos paz para com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo».

Um inimigo implacável

Mas o aborrecimento que Deus tem ao pecado não é nosso único adversário. Está esse ser maligno, tingido com o sangue de milhares de nossos semelhantes, cujo coração é o próprio ódio. Ele não tem compaixão, mas pelo contrário, alegra-se da miséria do homem. Desde os primeiros dias da nossa peregrinação, Satanás está tramando a sua guerra desumana. Prepara uma emboscada em cada revolta, uma chuva de dardos, uma descarga incessante ou uma flecha que chega na escuridão. E caímos em um instante, antes que suspeitemos o perigo.

Este inimigo nunca dorme nem está cansado. Nunca se aplaca nem perde a esperança. Seus golpes são dirigidos tanto à fraqueza infantil como à inexperiência da juventude; à fortaleza juvenil ou a vacilante velhice. As sombras da noite não lhe afastam. Encontra-se em todas as partes, e em todo momento, por meio de suas legiões. Entra em palácios, cabanas e fortalezas. Atarefa-se com o atarefado; vai de um lado para outro com a atividade; senta-se junto ao leito do doente e sussurra aos ouvidos do moribundo. Nesse momento em que o espírito abandona a sua morada de barro, o maligno entesa o seu arco com raiva desumana.

Intercessor poderoso

Tal é nossa luta permanente e aterradora. Como é, então, que não recebemos uma ferida mortal a cada momento? Seríamos derrubados se não tivéssemos em torno de nós um escudo mais resistente que os nossos próprios esforços ou propósitos. E, quem senão Jesus pode nos dar tal proteção?

Cristo interpõe aquele poder de sua intercessão: «Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos joeirar como o trigo; mas eu roguei por ti, que tua fé não falte». Suas orações são a nossa vitória, porque obtêm a ajuda divina e nos sustentam com aquele poder do céu. Deste modo resistimos o diabo, e este foge de nós.

Jesus nos protege, também, nos dando o escudo da fé. Ele é o autor e consumador deste dom. Os dardos incendiários do maligno não têm poder contra ele. Assim que o tocam, apagam-se. Seu sangue derramado é outra proteção inviolável. Satanás treme ao vê-la. É uma cerca que ele não pode transpassar. A experiência da igreja dos redimidos é que, apesar de estarem gravemente oprimidos, são mais que vencedores, porque triunfam pelo sangue do Cordeiro. Por isso, esse ser maligno não pode tocar aos que Jesus defende.

A carne

Mas há outros inimigos espreitando no campo de batalha. Temos de lutar com a nossa própria personalidade, que nos rodeia com o seu abraço destrutivo. A carne, com as suas terríveis concupiscências, não dá trégua. Davi enfrentou-a sem o seu Escudo, e morreu levando as cicatrizes daquela hora.

Também José foi atacado e, embora o plano do inimigo fosse engenhoso, amplo e forte, o Senhor protegeu o seu coração e a tentação não triunfou. «Como, pois, digo, faria eu este grande mal, e pecaria contra Deus?». O assalto fracassou e José ficou a salvo.

Também os prazeres, os luxos e as grandes honras derrubam um número incontável de vítimas. Ninguém pode resistir estas coisas com a escassa fortaleza humana. Mas nenhum que tenha o Senhor por escudo pode ser derrotado. Moisés foi tentado com sedutoras possibilidades. Podia haver-se sentado junto a Faraó com categoria real. Mas «se susteve como vendo o Invisível». E, até depois de morto, ensina-nos como podemos fazer retroceder a esse ardiloso exército de fascinações.

Refúgio e amparo

O temor ao homem e a ameaça da perseguição produzem, também, feridas mortais. Esta angústia assaltou a Daniel e a seus jovens amigos no cativeiro. A ira do tirano, o forno ardente e o fosso de rugientes feras se levantavam ameaçadoras; mas eles se refugiaram no Senhor, e ele foi o Escudo que lhes protegeu.

E, além disso, a vereda que conduz a Sião enfrenta as bocas dos canhões que servem legiões de preocupações e ansiedades para lançar os seus projéteis mortais. Com que rapidez reúne seus esforços para nos atormentar! Hoje estamos bem, por graça; mas, o que trará o amanhã? Os amigos podem nos abandonar; a enfermidade e a fraqueza podem arruinar o nosso corpo. E estes pensamentos nos acossam com afinco.

Só o Senhor pode nos proteger, dispensando diante dos nossos olhos o seu amor eterno, a sua presença constante, o seu cuidado providencial, as suas promessas sempre vivas. Não há temores que possam matar ou apagar a vida da alma quando a voz de Jesus sussurra: «Não temas, porque eu estou contigo». «Tudo é vosso». «Porque este Deus é nosso Deus eternamente e para sempre; ele nos guiará até além da morte». Certamente, a alma está rodeada de paz quando se encontra nos braços de Jesus.

Torre forte

És um verdadeiro discípulo deste Senhor? Se for assim, me diga qual é a sua tentação, o seu inimigo, o seu perigo, a sua necessidade, e mostrarei a esse Jesus todo-poderoso, imutável e cuidadoso que te guardará de todo mal. «Torre forte é o nome de Jehová; a ele correrá o justo e será levantado».

Estou, possivelmente, conversando sobre estas páginas com alguém que se encontra afastado de Cristo? Poderia te falar da segurança, Oh! Pobre filho de homem? Sim, devo te avisar que estás entre ruínas e indefeso por todos os lados. Com que te protegerás da ira de Deus? E com que a fúria de Satanás, de suas próprias feridas, e desse mundo que assassina a alma? Não tem nada. Oh! Pense!

Ainda não é tarde demais, ainda vives, e embora as suas feridas sejam muitas, podem ser curadas; seus numerosos inimigos desaparecerão diante de ti como fumaça que se desvanece. Estas palavras que segues com os olhos, dirigem-lhe ao único refúgio. Vá para Jesus! Sempre o tens por perto, e sempre é suficiente para ser o seu Escudo contra tudo.

Ajuda e escudo

Crente, vais duvidar em te aderires a esta verdade? É que não achaste nele uma ajuda poderosa? Acaso não pode dizer como Davi: «Muitos são os que dizem de mim: Não há para ele salvação em Deus. Mas Tu, Jehová, és escudo ao redor de mim»?

Clame tu também: «Bem-aventurado tu, Oh Israel, quem como tu, povo salvo por Jehová, escudo do teu socorro, e espada do teu triunfo?». Diga com alegria: «Oh Israel, confia em Jehová; ele é tua ajuda e teu escudo. Casa de Arão, confiem em Jehová; ele é tua ajuda e teu escudo. Os que temem a Jehová, confiem em Jehová; ele é tua ajuda e teu escudo».

Que consolo tão especial acha aqui o fiel ministro do Cristo! Que baluarte tão potente para os humildes obreiros do evangelho! Parece que não fazem mais que semear com tremor a semente de umas poucas palavras cheias de fraqueza. Mas esta semente lança raízes, dando vida a uma graciosa planta que exala a fragrância de um novo Éden, e produzindo frutos para o celeiro do Rei de reis.

Esta semente prospera apesar de estar em um clima adverso, queimada por um sol ardente e golpeada pela tempestade. O javali dos bosques não a pode danificar, nem as bestas podem devorá-la. E por que é assim? Porque tudo o que é glorioso tem uma defesa. Porque não há arma dirigida contra ela que possa triunfar. A palavra do Senhor é verdade: «Eu sou o teu escudo».

Por conseguinte, servos do Deus vivo, bendigamos o seu santo nome. Ele faz que sempre triunfemos em Cristo. Avancemos com o escudo da fé, e sob a proteção do Senhor. O conflito terminará logo, e no reino da salvação cantaremos as glórias do Escudo que nos salvou.

Do Evangelho em Gênesis.

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