Marcas essenciais do Evangelho

Revisando alguns aspectos significativos sobre o anúncio do evangelho.

Rodrigo Abarca

Leitura: João 1:35-47

No evangelho de João capítulo 1 aparecem em cena os primeiros discípulos de Jesus. É o começo do último evangelho. O próprio João aparece no relato do capítulo 1, embora não mencione o seu nome. Mais adiante, identifica-se como «aquele discípulo a quem Jesus amava», ou algo similar. Aqui, aparece só como um discípulo que estava junto a João Batista, quando o profeta reconheceu a Jesus como o Cordeiro de Deus, e então, ele seguiu a Jesus.

Consequentemente, João, o evangelista, foi um dos primeiros discípulos do Senhor, junto com Andrés, irmão de Pedro. A história diz que, depois da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., João se estabeleceu na cidade de Éfeso, onde o apóstolo Paulo já tinha pregado o evangelho e fundou uma igreja. João viveu ali até o final de sua longa vida e escreveu o seu evangelho.

Em sua narração dos eventos mais notáveis da vida do Senhor, há detalhes que não se acham nos outros relatos. Outros evangelhos têm várias passagens em comum. Entretanto, João tem uma visão diferente, que complementa os outros. Este evangelho oferece, diremos assim, um ponto de vista muito particular de um discípulo que foi o mais íntimo do Senhor.

João se descreve, por exemplo, como aquele que recostava a sua cabeça no peito de Jesus, na noite em que este foi entregue. Foi o único discípulo que esteve ao pé da cruz quando Jesus morreu. Viu a crucificação, os sofrimentos e a morte do Senhor. Ele foi uma testemunha direta, mais do que qualquer outro, das palavras e dos fatos essenciais da vida de Jesus.

Falando com os gentios

Sendo já ancião, João escreveu o seu evangelho para as igrejas gentílicas da região de Éfeso, aquelas mencionadas no livro de Apocalipse. Ali exerceu o seu ministério nos seus últimos dias, em um ambiente cultural muito diferente daquele de onde veio. João era um judeu galileu, mas agora o seu evangelho é dirigido a ouvintes de um contexto grego e gentio.

Por isso, faz um grande esforço para comunicar a sua mensagem de uma maneira muito clara. Por exemplo, no versículo 1:41, ele diz: «Este achou primeiro seu irmão Simão, e disse-lhe: Achamos o Messias (que, traduzido é, o Cristo)». Messias era o nome que os judeus davam ao libertador que viria, anunciado pelos profetas. João explica: «que traduzido é, o Cristo». Seu público não sabia nada do Messias, por isso o traduz como Cristo, que em grego significa Ungido. Depois, o relato continua: «Jesus disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer, Pedro)». Em aramaico, Cefas é pedra. Então João traduz o nome para o grego como Pedro.

Nosso maior desafio em um esforço missionário, é comunicar o evangelho a uma cultura diferente, sem que ele perca a sua essência. Um exemplo disto se encontra no primeiro versículo de João 1. «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus».

Este breve versículo é vital para entender como o apóstolo tenta comunicar a grandeza do evangelho a um público não judeu. Aqui, João usa o termo Logos, um conceito grego, traduzido em nossa Bíblia como Verbo ou Palavra. O Logos era um conceito fundamental para o pensamento grego, pois era visto como a mente, a inteligência, a ordem por detrás do universo, que sustentava e dava significado a todas as coisas.

O interessante é que o apóstolo João toma esse conceito e o aplica ao Senhor Jesus Cristo, fazendo uma conexão entre a cultura grega e o evangelho. Para os gregos, o Logos era algo extremamente elevado, incompreensível e inalcançável para qualquer ser humano. Ninguém podia conhecer aquele Logos divino, eterno e impessoal.

João, então, faz esta conexão para que o evangelho tenha sentido para eles, afirmando: «E o Verbo foi feito carne» (João 1:14). Aquele Logos, que sustenta tudo o que existe, foi feito carne, se fez homem. Isto foi um impacto violento para o pensamento grego.

Para os gregos, a matéria, o corpo físico humano, era uma coisa vil, desprezível. Eles pensavam que a alma humana era, de alguma forma, prisioneira do corpo, e que a salvação do homem era a libertação da alma desse cárcere físico. Como poderia o Logos eterno ter-se feito carne?

Então, ali começa a ter sentido a mensagem do evangelho: «E o Verbo foi feito carne, e habitou entre nós». Ele se tornou próximo, fez-se compreensível, tangível, audível. «…e vimos a sua glória». Nós falamos com ele, o tocamos, e vimos a glória do Verbo eterno de Deus. Esta é a mensagem que impactou tanto o coração da cultura grega; e que, finalmente, fez que essa cultura inteira se voltasse para o Verbo encarnado. Tal é o poder do evangelho.

A palavra «evangelho» quase não é usada por João; só aparece duas vezes no livro de Apocalipse. Ele prefere a expressão, «o testemunho de Jesus Cristo». A palavra «evangelho» significa «boa notícia». O próprio Senhor usou essa palavra; mas João não, embora esteja implícita em seu evangelho.

Isto, porque nós fomos chamados para sermos testemunhas de Cristo, quando anunciamos o evangelho bendito que nos foi encarregado como igreja. Neste sentido, começando o seu relato, João coloca algumas marcas fundamentais a respeito de como deve ser anunciado o evangelho.

O testemunho de João o Batista

 «No dia seguinte, João estava outra vez ali, assim como dois de seus discípulos;e, vendo Jesus que passava por ali, disse: Eis aqui o Cordeiro de Deus.Os dois discípulos ouviram-no dizer isso, e seguiram a Jesus.E voltando-Se Jesus e vendo que eles O seguiam, disse-lhes: Que buscais? Eles disseram: Rabi (que, traduzido, quer dizer Mestre), onde moras?Ele lhes disse: Vinde e vede. Foram, viram onde morava, e ficaram com Ele aquele dia, porque eram quase duas da tarde» (35-39).

O evangelho de João começa contando que o precursor, João o Batista, tinha vindo do deserto para pregar arrependimento. Durante quatrocentos anos, depois de Malaquias, houve um silêncio profético na história de Israel. Não houve profeta da parte de Deus. João apareceu cheio de um fogo santo, como Elias. Muitas pessoas saíam das cidades para ouvi-lo. Entre eles estavam os primeiros discípulos do Senhor: Andrés e João, o evangelista posterior.

As multidões vinham para receber o batismo de arrependimento. Os escribas e fariseus foram perguntar-lhe: «És tu o profeta?», referindo-se ao Messias que estavam esperando. Ele responde: «Eu não sou o Cristo. Depois de mim vem um varão, o qual é antes de mim; porque era primeiro do que eu». Assim fala aquele de quem Jesus disse: «Digo-vos que entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta que João o Batista» (Luc. 7:28), maior inclusive que os profetas antigos.

João o Batista declara: «Este é o que vem depois de mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia do calçado» (João 1:27). Esse era um trabalho de escravo. «Eu não sou digno até de ser seu escravo». João era apenas uma voz, anunciando a Aquele que vinha atrás dele. E acrescenta: «Eu na verdade vos batizo em água para arrependimento; mas o que vem atrás de mim, cujo calçado eu não sou digno de levar, é mais poderoso do que eu; ele vos batizará no Espírito Santo e fogo» (Mat. 3:11). Só Aquele que vinha poderia transformar totalmente a vida daqueles que vieram a ele.

«Então Jesus veio da Galiléia para João ao Jordão, para ser batizado por ele. Mas João se lhe opunha, dizendo: Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Mas Jesus lhe respondeu: Deixa agora, porque assim convém que cumpramos toda justiça. Então o deixou» (Mat. 3:13-15). Jesus se uniu a aquela fila porque se identificou com os pecadores, tomando nosso lugar para nos salvar. Esta era a justiça de Deus que tinha que ser cumprida.

O evangelho de João não menciona este fato, mas relata que quando João o Batista viu Jesus, disse: «Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (João 1:29). Esta declaração é o próprio coração do evangelho. Toda a profecia na história de Israel apontava para o Cordeiro. Lá, no princípio, Isaque perguntou a seu pai Abraão: «Onde está o cordeiro para o holocausto?» (Gên. 22:7). Houve um cordeiro que tomou o lugar de Isaque, para salvar a sua vida. Esta é a ideia fundamental do evangelho: a substituição.

Recordemos a morte dos primogênitos no Egito. O anjo do Senhor passaria aquela noite e mataria a todos os primogênitos daquela terra. Todos estavam condenados à morte. Mas aquela noite um cordeiro foi sacrificado em cada lar israelita, e seu sangue foi posto nos umbrais das portas, para que, quando passasse o exterminador, perdoasse os primogênitos que estavam sob o sangue do cordeiro. Que maravilhoso!

Por isso, Hebreus diz que nós somos a congregação dos primogênitos que estão inscritos nos céus, porque todos fomos resgatados da morte pelo sangue do Cordeiro. «Eis aqui o Cordeiro de Deus», o verdadeiro, que realmente tem o poder de tirar o pecado do mundo para sempre por meio de sua morte, e salvar eternamente a aqueles que vêm a ele.

«Eis aqui o Cordeiro de Deus». É a maior notícia da história da humanidade. Eis aqui o Salvador. Quando Andrés e João ouviram essas palavras, imediatamente esqueceram o seu primeiro mestre e foram atrás de Jesus, porque ele era o verdadeiro Cordeiro de Deus. Ali começa a história.

1. Ver, ouvir, tocar

Agora veremos quatro pontos fundamentais do evangelho. O primeiro é este: «E voltando-Se Jesus e vendo que eles O seguiam, disse-lhes: Que buscais? Eles disseram: Rabi (que, traduzido, quer dizer Mestre), onde moras?Ele lhes disse: Vinde e vede. Foram, viram onde morava, e ficaram com Ele aquele dia, porque eram quase duas da tarde.» (João 1:38-39). «Mestre onde moras?». Essa pergunta é muito interessante, porque na cultura judaica, isso significava: «Queremos conhecer mais de ti; queremos saber quem você é». Não era apenas conhecer a sua moradia. Então Jesus lhes responde: «Vinde e vede».

Esse é o primeiro ponto: Vir e ver. É preciso saber que o evangelho é, basicamente, o testemunho de pessoas que viram, ouviram e tocaram ao Senhor. Vejamos alguns versículos para confirmar isto.

«E o Verbo foi feito carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória» (1:14). Esta é a ênfase. Em seguida, diz: «Também deu João testemunho, dizendo: Vi o Espírito que descia do céu como pomba, e permaneceu sobre ele» (V. 32). «E eu o vi, e dei testemunho de que este é o Filho de Deus» (34). «Disse-lhes: Vinde e vede» (V. 39). «Natanael lhe disse: De Nazaré pode sair algo de bom? Disse-lhe Felipe: Vem e » (V. 46).

O evangelho é, antes que nada, um testemunho de pessoas que viram o Senhor. Isto faz uma grande diferença em comparação as religiões do mundo. Todas elas: budismo, islamismo, etc., apoiam-se em experiências místicas de certas pessoas, as quais ninguém mais pode acreditar na sua veracidade. Mas, os relatos de João e dos outros evangelhos se apoiam em fatos históricos objetivos a respeito da pessoa e as palavras do Senhor, confirmados por muitas testemunhas oculares.

As testemunhas de Cristo

Vejamos alguns versículos que nos ajudarão. Por exemplo, 1 João 1:1: «O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam referente ao Verbo de vida». São fatos objetivos, que qualquer um pode verificar.

O evangelho não é meramente um dogma que deve ser crido a todo custo; não é um credo que deve ser aceito cegamente. Os crentes devem ser muito cuidadosos neste ponto. O Senhor não disse aos seus discípulos: «Aqui está o Credo que vocês devem aceitar para me seguir». Não, ele lhes disse: «Vinde e vede». Eles deviam vir e obter conclusões certas por si mesmos. Jesus não lhes impôs uma «verdade dogmática». Lhes disse: «Vinde e vede», para que eles chegassem por si mesmos à conclusão de que ele era o Messias, o Filho de Deus.

Ao estudar como era pregado o evangelho no princípio, pode-se perceber que João não é o único que enfatiza esse ponto. Vejamos alguns versículos no livro de Atos.

Provas infalíveis

«…a quem também, depois de ter padecido, apresentou-se vivo com muitas provas infalíveis» (Atos. 1:3). Evidências que qualquer um poderia examinar e concluir como certas. «Porque não podemos deixar de dizer o que temos visto e ouvido» (4:20). O evangelho não é o produto da especulação de um grande filósofo ou das visões de um grande místico. Está apoiado em fatos reais, que podem ser verificados.

Outro exemplo: «Vós sabeis o que se divulgou por toda Judéia, começando desde a Galileia, depois do batismo que João pregou» (Atos 10:37). «Vós sabeis». Isto implica que eram coisas conhecidas publicamente por todos.

A fé cristã se apoia em fatos e evidências que todos podem indagar. Isto é muito interessante. Você pode desafiar a qualquer um que vá e averigue se for verdade e se a história confirma o que dizemos. Muitas pessoas que fizeram essa busca honestamente, alguns grandes ateus e céticos, chegaram à conclusão de que era verdade e se converteram a Cristo.

O evangelho de Lucas começa declarando: «Posto que muitos empreenderam realizar um relato ordenado das coisas que entre nós foram cumpridas,tal como nos transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra,pareceu bem a mim, depois de investigar tudo com diligência desde sua origem, escrever-te ordenadamente, excelentíssimo Teófilo,para conheceres bem a solidez dos ensinamentos em que foste instruído.» (Luc. 1:1-4).

Lucas investigou tudo desde a sua origem e não ficou simplesmente com aquilo que outros falaram. Ele verificou os fatos por si mesmo e teve a certeza de que estas coisas eram reais.

Então, quando nós pregamos a um mundo cético, não devemos pensar que o evangelho é uma mera questão de fé cega, que é necessário aceitar apenas porque a Bíblia o afirma. Não. Nós temos que dizer: «Estas coisas são verdades, e qualquer que fizer uma investigação honesta e razoável, apoiado nas evidências disponíveis, pode chegar à mesma conclusão que a nossa: Jesus realmente é o Cristo, o Messias, que ressuscitou dentre os mortos».

Este é um aspecto principal do evangelho. Por isso diz: «E nós somos testemunhas de todas as coisas que Jesus fez na terra da Judéia e em Jerusalém; a quem mataram pendurando-o em um madeiro» (Atos. 10:39). «A este levantou Deus ao terceiro dia, e fez que se manifestasse; não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus tinha ordenado de antemão, a nós que comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos» (Atos. 10:40-41).

O que nos diz Pedro? Que eles viram Jesus ressuscitado, e comeram e beberam com ele. Alguém poderia dizer que tinha sido uma ilusão, uma alucinação ou um fantasma. Mas não se pode comer e beber com um fantasma ou uma alucinação. Eles o tinham visto e comprovado com seus próprios olhos.

O testemunho de Deus

Bom, isso aconteceu a dois mil anos atrás. Mas como poderíamos hoje dar testemunho de fatos ocorridos a tanto tempo? 1 João 5:6 diz: «Este é Jesus Cristo, que veio mediante água e sangue; não somente mediante água, mas mediante água e sangue. E o Espírito é Aquele que dá testemunho; porque o Espírito é a verdade». Versículos 9-10: «Se recebemos o testemunho dos homens, maior é o testemunho de Deus; porque este é o testemunho de Deus que testifica acerca de Seu Filho.Aquele que crê no Filho de Deus tem o testemunho em si mesmo; aquele que não crê em Deus O faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca de Seu Filho».

Na Escritura temos o testemunho dos apóstolos: Eles testemunham que viram Jesus ressuscitado, e comeram e beberam com ele. Eles dão testemunho de todos os fatos da vida de Cristo, nos evangelhos. Temos uma só alternativa: crer ou não crer neles. Mas, se você crer no testemunho deles, saberá por si mesmo que isto é a verdade, porque o Espírito Santo o confirmará com o seu testemunho no teu coração. O Espírito revelará a Cristo em seu interior e você conhecerá a verdade de primeira mão, pois terá o testemunho em você mesmo.

Desta maneira, depois, quando você falar, não irá falar de segunda mão, repetindo só o que outros disseram, mas daquilo que você mesmo viu e ouviu, por causa do Espírito Santo. Porque a maior das testemunhas não é um homem, mas o Espírito Santo.

Quando pregamos o evangelho, o Espírito Santo também dá testemunho, e revela a verdade a respeito de Jesus. E, quando as pessoas creem, ele traz o conhecimento de Cristo ao coração daqueles que aceitam o testemunho dos apóstolos. Desta maneira, você também se converte em uma testemunha de Cristo. «Porque Deus, que mandou que das trevas resplandecesse a luz, é o que resplandeceu em nossos corações, para a luz do conhecimento da Glória de Deus na face de Jesus Cristo» (2 Cor. 4:6). Este é o primeiro ponto – o evangelho é um testemunho.

2. Um encontro pessoal

Vejamos o segundo aspecto do evangelho. João e Andrés passaram a noite com Jesus. Bastou uma só noite para que eles ficassem totalmente convencidos de que Jesus era o Messias, pois tal era a força da personalidade do Senhor.

Qualquer pessoa que faça um esforço honesto de aproximar-se e conhecê-lo, ficará impactada por ele, porque não há em toda a história da humanidade outro homem semelhante a Jesus.

«André, irmão de Simão Pedro, era um dos que ouviram aquilo de João, e O seguiram.Este achou primeiro seu irmão Simão, e disse-lhe: Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)» (João 1:40-41). Foram necessárias apenas umas poucas horas para chegarem à verdade, e começar a pregar a boa nova. Imediatamente se tornaram testemunhas e pregadores do evangelho.

Andrés foi procurar a seu irmão Simão e o trouxe para o Senhor. «E levou-o a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).». O segundo ponto é que o evangelho sempre é pessoal. João relata muitos encontros pessoais de Jesus com diferentes pessoas.

O conteúdo do evangelho nunca muda, mas a maneira como é anunciado é diferente para cada um. O Senhor se aproximava de cada pessoa de maneira diferente, em sintonia com a realidade de cada uma. Ele falou de uma maneira à mulher samaritana e de outra a Nicodemos. A mensagem é a mesma; todos acabam encontrando-se com Jesus. Mas ele sempre chega de uma maneira diferente e pessoal.

Este ponto é vital para o anúncio do evangelho. Jesus tinha a delicadeza de amar e entender às pessoas a quem se aproximava. Ele dialogou com a mulher samaritana e descobriu o seu coração. A pregação do evangelho requer a mesma atitude do Senhor. Não deve ser um simples anúncio frio e mecânico. É importante agir como o Senhor fazia.

O Senhor falava com cada um em sua situação particular. «Simão, tu serás chamado Cefas». Isto mostra um profundo conhecimento de quem era Pedro, e do que o Senhor faria por ele.

Cada um é tocado de maneira pessoal. Entretanto, o Senhor não se aproximou dele de uma maneira meramente individual, mas o fez em um contexto coletivo.

O evangelho não é somente relacionamento individual com Cristo. Sempre há outros que também procuram o Senhor. Uns levam para outros, formando assim uma comunidade de testemunhas. Cada um com a sua história pessoal, mas todos juntos, conhecendo o Senhor, porque ele não veio chamar meros indivíduos, mas para formar a sua igreja.

3. Ofensa e escândalo do evangelho

«No dia seguinte, quis Jesus ir à Galileia, e achou Filipe, e disse-lhe: Segue-Me.Filipe era de Betsaida, a cidade de André e de Pedro.Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Achamos Aquele de quem Moisés escreveu na Lei, assim como os profetas: Jesus, o filho de José, o de Nazaré.Disse-lhe Natanael: De Nazaré pode sair algo bom? Disse-lhe Filipe: Vem e vê» (João 1:43-46). Tudo ia muito bem, até que foi mencionado Nazaré. «De Nazaré pode sair algo bom?».

O terceiro ponto importante é que o evangelho é sempre uma ofensa e um escândalo para a mente humana natural e mundana. Nós gostaríamos de modificá-lo ou acomodá-lo para que não fosse um escândalo ou uma ofensa, mas isto é impossível. Sempre, de alguma maneira, o evangelho ofenderá à mente humana caída. Se tirarmos o escândalo do evangelho, perderemos totalmente a sua mensagem.

Isto ocorreu com o liberalismo teológico. Eles pensavam que a mensagem do evangelho tinha muitos elementos escandalosos para a mente «científica» moderna: os milagres, o nascimento virginal de Jesus, a ressurreição, etc. Tudo isso era vergonhoso e era melhor evitá-lo, acomodando o evangelho. Mas, o resultado foi que perderam totalmente a sua mensagem.

O evangelho sempre escandalizará o mundo. Natanael respondeu assim, porque Nazaré nem sequer era uma aldeia, mas um lugar tão insignificante, que até hoje os arqueólogos não puderam localizar onde se encontrava. Por muito tempo, acreditou-se que fosse uma invenção, até que, poucos anos atrás, foi descoberta uma vasilha com o nome de Nazaré gravado nela.

Era lógico que Natanael perguntasse: «De Nazaré pode sair algo bom?». Sairia dali o Salvador? A Escritura não diz que o Cristo virá de Belém de Judá? Os judeus desprezavam a Nazaré, da Galileia dos gentios». Os fariseus disseram a Nicodemos: «És tu também galileu? Examina e vê que da Galileia nunca se levantou um profeta» (João 7:52).

O escândalo da cruz

Paulo diz: «Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Em tal caso, foi abolido o escândalo da cruz» (Gál. 5:11). Quer dizer, se eu quisesse pregar um evangelho que fosse aceito por todos, que todos aplaudissem, então precisaria pregar o evangelho da circuncisão, como os falsos apóstolos. Mas, ao fazer isso, seria tirada a ofensa da cruz.

A cruz era ofensiva para a mente natural. Provavelmente hoje é mais difícil entender o que Paulo está dizendo. Vamos ver um pouco da história para entender o contexto do qual ele está falando.

A cruz era a forma de morte mais cruel no mundo antigo, inventada pelos romanos e reservada para os piores criminosos. Alguém que morria em uma cruz era uma pessoa desprezível, que merecia esse tipo de castigo horrível. Como era possível que um homem morto em uma cruz fosse o Salvador? Como podia um grego ou um romano aceitar isso? Era uma ofensa para todos.

Hoje a cruz é um símbolo positivo. Muitos usam uma cruz pendurada no pescoço. As pessoas veem nela um símbolo de amor. É desta forma porque a fé cristã triunfou no mundo ocidental. Entretanto, no começo, era como dizer que um justiçado na forca, na cadeira elétrica ou na câmara de gás, era o Salvador do mundo. Você creria numa coisa assim?

Para os judeus, isto também era uma ofensa. A lei dizia: «Maldito todo aquele que é pendurado em um madeiro» (Gál. 3:13). Jesus morreu como um maldito. Como ele poderia ser o Messias que salvaria a Israel? Este é o escândalo da cruz. Não podemos tirar a cruz, porque sem ela não existe o evangelho. Nós merecíamos morrer como pecadores; mas ele tomou o nosso lugar e desta forma salvou a todos.

4. Um encontro com o Deus vivo

E o último ponto. «Quando Jesus viu Natanael, que se aproximava, disse dele: Eis aqui um israelita de verdade, em quem não há engano.Disse-Lhe Natanael: De onde Tu me conheces? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, quando tu estavas debaixo da figueira, Eu te vi.Natanael respondeu, e disse-Lhe: Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel» (João 1:47-49).

Por que estas palavras impactaram tão fortemente a Natanael? Não sabemos. Mas, o Senhor revelou ali algo profundo do coração de Natanael que só este discípulo conhecia e ninguém mais. E quando o Senhor revelou o seu coração nessas palavras, Natanael, plenamente convencido, declarou: «Tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel».

«Jesus respondeu, e disse-lhe: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? Coisas maiores do que estas verás.E disse-lhe: Na verdade, na verdade, vos digo: Daqui em diante, vereis o céu aberto e os anjos de Deus que sobem e descem sobre o Filho do Homem» (João 1:50-51). O quarto ponto é este: O evangelho é sempre um encontro sobrenatural com o Deus vivo, que está além das capacidades, da inteligência e do poder humano.

É bom ter todos os argumentos e provas; é bom ser bastante convincentes e empáticos com as pessoas; e é bom não esquecer a ofensa do evangelho. Entretanto, tudo isso não serviria de nada se ao pregarmos o evangelho o Deus vivo não esteja presente, porque o único que salva é ele.

Ao ver o Senhor, Natanael entrou em contato com uma realidade espiritual e sobrenatural, superior à vida humana. Isso trouxe convicção total ao seu coração. «Coisas maiores que estas verás». O evangelho significa que o céu está aberto sobre a terra. O próprio Deus está operando na vida dos homens para salvar, para curar, para libertar e para dar vida. Dali em diante, os discípulos realmente viram o céu aberto; mas, sobretudo, viram o poder do Senhor para transformar a vida humana.

Este é o evangelho que ele nos encarregou. Primeiro, o evangelho é um testemunho de fatos ou experiências reais de primeira mão com o Senhor. Segundo, é um encontro pessoal com o Senhor. Terceiro, é uma ofensa para a mente humana natural. Quarto, é realmente um milagre, a manifestação do reino de Deus sobre a terra e um encontro sobrenatural com o Deus vivo.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em São Lorenzo (Brasil), em Setembro de 2018.

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