As riquezas do Evangelho

Revendo uma realidade espiritual que a linguagem humana não pode descrever.

Álvaro Astete

"A mim, que sou o menor de todos os santos, foi-me dada essa graça de anunciar entre os gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo" (Efésios 3:8).

A linguagem de Paulo

O significado desta mensagem é de uma envergadura tal que não conseguimos dimensioná-la. Quando o apóstolo Paulo escreve esta carta, usa várias expressões superlativas, que falam de uma grandeza superior, algo que a linguagem humana não consegue expressar. Uma palavra não é suficiente para resumir todo o significado dessa realidade espiritual.

Em muitas ocasiões, o apóstolo reúne dois conceitos para se referir a esta grandeza indescritível. Isto é de uma grande ajuda para nós. Por exemplo, esta frase, «as inescrutáveis riquezas de Cristo», é um superlativo que Paulo usa para descrever as riquezas do evangelho.

Outra expressão que ele também usa na carta aos Efésios é «as abundantes riquezas de sua graça». É a mesma ideia. Não é suficiente dizer «as riquezas de sua graça», ou «a abundância de sua graça». Porque realmente o evangelho no qual cremos não é algo de menor valor.

Paulo e seu ministério

Antes de nos aprofundarmos nesta ideia das inescrutáveis riquezas de Cristo, vamos rever o que Paulo diz de si mesmo sobre este ministério que lhe foi dado. Por exemplo, em Efésios 1:1, ele se identifica como «Paulo, apóstolo de Jesus Cristo». Mais adiante, ele se define assim: «Eu Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus por vós os gentios» (Ef. 3:1). Não somente um apóstolo, mas também um prisioneiro de Cristo.

Notem o interessante dessa expressão. Ele escreve esta carta em uma prisão. Mas olhem como Paulo se vê naquelas circunstâncias adversas. Sobre tudo o que está vivendo, há uma realidade espiritual muito maior: ele não é prisioneiro de Roma, mas prisioneiro de Cristo Jesus.

Que este sentimento também esteja em todos nós. Não somos prisioneiros nem da realidade nem dos problemas que hoje temos. Muitos dos conflitos que hoje vivemos são dados pela providência de Deus para nos ensinar, para nos estimular, para nos disciplinar ou nos corrigir. Além das circunstâncias, vivemos em uma realidade espiritual que é muito maior.

Paulo se define também como «ministro» do evangelho (V. 7). A palavra ministro aqui, é diácono. Um diácono é alguém que está a serviço de outros. Ele não cuida de si mesmo, mas dos interesses de outros. Paulo deixa muito claro que ele é um diácono a serviço do evangelho de Jesus Cristo.

E em Efésios 6:19-20, Paulo declara: «…a fim de que me seja dada, no abrir de minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do Evangelho,pelo qual sou embaixador em cadeias». «Paulo, apóstolo de Jesus Cristo… prisioneiro de Cristo… ministro… embaixador em cadeias». Que forma de se definir! Infelizmente hoje, em alguns ambientes cristãos, são usados estes nomes, como apóstolo ou ministro, com o caráter de títulos de nobreza. Que distorção!

Quando Paulo falava disso, não era para se colocar num lugar alto, mas para lembrar a si mesmo quem ele era em relação a este glorioso evangelho. O que lhe foi confiado não é algo pequeno. Não é uma simples filosofia nem um conjunto de crenças sobre algo ou sobre alguém. O que nos foi encarregado é o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo.

O evangelho é o próprio Cristo. Ele é as riquezas de Deus. Portanto, convém que vejamos bem nossa posição diante deste evangelho; primeiramente, na função daqueles que o pregam, mas também para todos nós, porque todos fomos chamados a anunciar este evangelho glorioso.

Damos graças ao Senhor, porque ele, em sua sabedoria, quis confiar a nós –homens e mulheres frágeis, cheios de imperfeições– as riquezas de seu evangelho.

Só de pensar, isto deveria comover o nosso coração. Quem somos, para que o Senhor nos tenha feito depositários destas riquezas incalculáveis? Humilhemo-nos diante da sua presença, porque não há nenhuma lógica humana em que você e eu tenhamos sido escolhidos para isto, mas Deus o quis assim.

O perfil de um servo

Ser apóstolo, ser ministro, ser prisioneiro de Cristo, ser embaixador em cadeias, são quatro expressões que têm um significado comum. Esta é a palavra servo. Um servo é um escravo, e esta condição exige cumprir só um requisito: a obediência. Um servo deve ser obediente.

Se um servo tomar decisões segundo o seu próprio parecer, deixa de ser um servo. Jesus, nos dias de sua carne, teve a possibilidade de tomar uma via paralela ao que o Pai o tinha indicado. Lembremos no monte da Transfiguração, falando com Moisés e com Elias a respeito de «sua partida» (Luc. 9:31). Nessa hora, ele poderia ter subido aos céus. Ou quando disse: «Pai, se for possível, passe de mim este cálice; mas não seja como eu quero, mas como tu queres» (Mat. 26:39).

Se Jesus tivesse tomado um caminho paralelo, decidindo por si mesmo, teria deixado de ser o Servo de Deus. Mas ele não tomou nenhuma decisão por conta própria, e ele poderia ter feito. Em vez disso, ele fez tudo o que o Pai lhe demandou. Este é o sinal de um servo.

Nós somos servos de Deus. Portanto, a característica que deveria sobressair em nós é: a obediência – a obediência ao Senhor e a seu glorioso evangelho. Que o Senhor nos socorra nisto, para que possamos anunciar o evangelho glorioso nesta qualidade de seus servos.

Em Romanos 15:15-16, Paulo explica o que ele concebe como este ministério que lhe foi dado: «Mas vos escrevi, irmãos, em parte mais com atrevimento, como para reavivar vossa memória, pela graça que por Deus me foi dada,para ser ministro de Jesus Cristo entre os gentios, ministrando o evangelho de Deus para que os gentios lhe sejam uma oferta agradável, santificada pelo Espírito Santo».

Quero lhes deixar uma ideia que pode ser de muita ajuda para entendermos a visão deste ministério. O irmão Raymond Calkins, ao falar de Romanos 15:15-16, diz que, com certeza, o que Paulo tinha em mente ali era a figura do sacerdote oficializando o sacrifício, com a adaga na mão, dando os cortes precisos para que aquela oferta fosse agradável a Deus.

Nós, como ministros da palavra, não podemos pegar este assunto de forma ligeira. Cada vez que pregamos este evangelho glorioso, no fundo, também este é um sacrifício que deve ser agradável a Deus. E para isso, temos que saber usar bem a palavra da verdade.

Riquezas inescrutáveis

Quando Paulo fala das inescrutáveis riquezas de Cristo, de alguma forma, ele está dizendo com toda clareza no que consiste o evangelho. A temática é «as inescrutáveis riquezas de Cristo». Isto pode parecer óbvio. Mas, por que o dizemos assim? Porque não podemos misturar o evangelho com outros temas, porque se assim o fizermos estaremos dizendo que o evangelho não é suficiente.

A palavra «inescrutáveis» fala de um evangelho que não conseguimos compreendê-lo na sua totalidade. É um depósito profundo que não tem limite. Que o Senhor nos ajude a entendê-lo. Isto deveria também nos dar confiança plena no Senhor porque, se o evangelho fala de riquezas inescrutáveis, então, sem dúvida, nele encontraremos tudo do que necessitamos.

O evangelho é suficiente. Todas as respostas a todas as interrogações do homem estão no evangelho – no próprio Cristo. Portanto, aprofundar neste tema e procurar nessas profundezas, é algo que deveria estar sempre em nosso coração. Ler as Escrituras, perguntar nelas, investigar o que o Senhor nos quer dizer, é algo que têm que fazer não apenas quem prega a palavra, mas todos nós, porque ali estão as riquezas inescrutáveis do Senhor.

A sabedoria divina

Ao falar destas riquezas, podemos dizer: Por onde começar? Há um versículo que nos ajudará a entender de maneira geral no que consistem estas riquezas inescrutáveis. «Mas, por obra Sua, estais vós em Cristo Jesus, o qual Se tornou da parte de Deus sabedoria, justificação, santificação e redenção» (1 Cor. 1:30). Esta passagem é uma resposta, e também uma ajuda.

Não conseguiremos tratar destes quatro pontos; apenas veremos o primeiro deles. Uma das riquezas do evangelho é a sabedoria, e não qualquer tipo dela, mas a sabedoria de Deus. Nos versículos 18 ao 29, o apóstolo expõe claramente a oposição entre a sabedoria do mundo e a sabedoria divina. E conclui dizendo no versículo 30 que Deus tem feito de Cristo a nossa sabedoria.

É interessante isto. Paulo diz que antes éramos néscios, tolos. Mas hoje podemos agir como sábios; sábios, não em nossa própria opinião, mas na sabedoria que Deus nos deu em Cristo Jesus.

Procurando o sentido da palavra sabedoria, um de seus significados diz que sabedoria é seriedade e prudência adequada na relação que estabelecemos com as pessoas que não são crentes; é habilidade e discrição em transmitir a verdade. Cristo, nossa sabedoria, nos faz sermos pessoas sérias e prudentes em nossa relação com os não convertidos, para anunciar com discrição o evangelho.

O mundo no qual estamos vivendo é diferente ao de antes; portanto, precisamos ser sábios na hora de poder entregar a preciosa verdade do evangelho. E esta sabedoria só a encontraremos na vida de Cristo. Cristo fazendo as coisas em nós e por nós; ele é a sabedoria de Deus.

No propósito de entregar o evangelho das inesgotáveis riquezas de Cristo, Paulo diz que, para os gregos, a sabedoria de Deus é loucura. Quando lhes pregava o evangelho, eles não podiam conceber, em sua lógica, como alguém podia ser o Salvador do mundo, se tinha morrido de maneira tão ignominiosa, como um maldito. Isso não se encaixa na lógica humana. Para os gregos, para os gentios e para os intelectuais de hoje, é uma loucura; mas para nós é sabedoria e poder de Deus.

Esta sabedoria divina se expressa de uma forma ilógica para o mundo, mas nós somos chamados a usar esta sabedoria de Deus na pregação do evangelho.

Por exemplo, quando o Senhor falou de levar uma carga não apenas uma milha, mas duas, que sentido tinha isso? Por lei, qualquer romano podia obrigar a qualquer pessoa que não possuísse esta cidadania a levar a sua carga uma milha. Mas Jesus diz aos seus discípulos que eles não só devem cumprir essa lei, mas levar a carga uma milha a mais. Por quê? Porque nessa segunda milha está a possibilidade para mostrar realmente a Cristo a aquele homem. Uma milha era o estabelecido; mas a outra era algo inesperado, a possibilidade de ouvir do evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo.

Um testemunho dramático

Dias atrás li um testemunho muito impactante em relação ao que estamos dizendo. Evangelina Booth, filha do fundador do Exército de Salvação, ia passando pelas portas de um tribunal, quando viu vir uma mulher, aparentemente muito perigosa, algemada e custodiada por seis policiais.

A jovem se perguntou o que poderia fazer por ela. Podia orar? Não havia tempo. Cantar? Seria absurdo. Dar-lhe dinheiro? Menos. E então, quando a prisioneira passava ao seu lado, ela a beijou no rosto. A mulher, assombrada, exclamou: «meu Deus, quem me beijou?».

Mais tarde, Evangelina foi a prisão e falou com a carcereira. Esta lhe disse: «Cremos que perdeu a razão. Não faz nada mais além de caminhar em sua cela, me perguntando cada vez que entro em sua cela se sei quem a beijou». «Me deixaria entrar e falar com ela?», perguntou a irmã. «Eu sou sua única e melhor amiga».

Ao vê-la, a prisioneira disse: «Você sabe quem me beijou?». E então lhe contou a sua história. «Quando eu era uma menina de sete anos, minha mãe viúva morreu, muito pobre. Antes de morrer, ela segurou meu rosto em suas mãos, beijou-me e me disse: Minha pobre filhinha, minha filhinha desamparada! Oh Deus, tenha piedade de minha filhinha; e quando eu não estiver mais, protege-a e cuide dela! Desde esse dia ninguém jamais me deu um beijo no rosto até recentemente». Então tornou a perguntar: «Você sabe quem me beijou?». Evangelina disse: «Fui eu; mas não quero falar de mim, mas sim de Alguém que te beijou em meu lugar».

Aquela mulher se converteu a Cristo nesse dia. E depois, na prisão, ela foi o meio de salvação para muitas outras que tinham descido tão baixo quanto ela. Como se iniciou aquilo? Foi uma grande pregação que ela ouviu? O que lhe tocou o coração foi aquele beijo no rosto.

Onde está escrito tudo o que devemos fazer? Há alguma norma que nos diga que temos que fazer isto ou aquilo? Há alguma lei que descreva a forma de entregar o evangelho? Não. Aquilo foi a expressão pura da vida de Cristo em uma crente. Ao passar junto à prisioneira, essa vida de Cristo irrompeu com poder, com graça e com sabedoria. Isso é sabedoria de Deus!

Deus é sábio, ele sabe fazer tudo de maneira perfeita. Se tão somente nos abandonarmos nos braços do Senhor, para que a sua vida flua, quantos casos como este teríamos como testemunho entre nós! O Senhor nos socorra a deixar de lado os nossos preconceitos e permitir que aflore a vida de Cristo.

O desejo permanente de Paulo

«E certamente também estimo todas as coisas como perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por amor do qual perdi todas as coisas e as considero imundície, para ganhar a Cristo,e ser achado Nele, não tendo minha própria justiça que é a base da lei, senão a que é por meio da fé de Cristo, a justiça que procede de Deus sobre a base da fé;a fim de conhecê-lo, e o poder de sua ressurreição e a participação de seus sofrimentos, chegando a ser semelhante a Ele em sua morte» (Flp. 3:8-10).

Esta riqueza do Senhor que é a sua sabedoria a podemos obter em Cristo, mas tendo isto em consideração, que era um desejo permanente no coração de Paulo, e que nunca abandonou em toda a sua vida. Qual é este desejo? «Para ganhar em Cristo… e ser achado nele… a fim de conhecê-lo».

Para entendermos bem, devemos considerar também que ele escreve esta carta quase no final de sua vida. E, qual é o desejo que permanece em seu coração? Ganhar a Cristo, ser achado nele, e o conhecer. Parece paradoxal como, o apóstolo dos gentios, a quem Deus lhe revelou coisas inefáveis que nenhum olho humano pôde ver, no final de seus dias, tem o mesmo desejo que no princípio.

Alguém poderia pensar que Paulo já conhecia o suficiente, já sabia muito, tinha em seu coração e em sua mente tanta revelação. Ele poderia ter dada graças a Deus pela revelação recebida, e ficar até ali. Mas não foi isso o que ele disse; ele continua com o mesmo desejo que teve no início.

É interessante o que Paulo diz aqui. «Certamente, até estimo todas as coisas como perda». Ele não diz: «estimava», mas «ainda estimo». Que percepção do mundo ele tinha? Era um mundo no qual não queria participar, era lixo. E no final de seus dias, ainda pensava o mesmo.

Nossa realidade hoje

Às vezes penso que, conforme passa o tempo em nossa caminhada, nossa percepção do mundo foi mudando. Quando nos convertemos ao Senhor, fizemos uma separação absoluta. Não queríamos nada do mundo; só a Cristo. Por ele, podíamos fazer qualquer sacrifício, porque o amávamos de coração. Ele ocupava o lugar principal em nossa vida.

Podemos dizer hoje como Paulo: «Ainda estimo tudo como perda, para ganhar a Cristo»? Esse é o desejo do nosso coração hoje? Temos o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo; o Senhor nos deu esta grande responsabilidade. Precisamos nos preparar, nos nutrir da Palavra, para irmos ao mundo e falar dele. Não temos outro tema – só Cristo. Portanto, Cristo deve ocupar hoje, em nosso coração, o lugar que ele tinha quando recém o recebemos.

Estamos dispostos a perder as riquezas do mundo com o propósito de ter este único objetivo em nossa vida? Porque conhecer a Cristo, ser achado nele e ganhar a Ele, é conhecer o evangelho das riquezas insondáveis de Cristo. Não é apenas teologia ou doutrina – o evangelho é vida. O evangelho é o próprio Cristo; ele é a nossa sabedoria. O Senhor nos socorra nisto, e continue nos falando ao coração com firmeza, para que possamos ser fiéis ministros do Senhor e do seu evangelho glorioso.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em El Trebol (Chile), em janeiro de 2019.

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