Bem-aventurados os que choram

As bem-aventuranças, expressão do caráter perfeito de Cristo.

César Albino

"Vendo a multidão, subiu ao monte; e sentando-se, vieram a ele os seus discípulos. E abrindo a sua boca lhes ensinava, dizendo: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque eles receberão consolação" (Mateus 5:1-4).

As bem-aventuranças são uma das primeiras mensagens no princípio do ministério do Senhor Jesus; portanto, é uma palavra vital para seguir nossa carreira à partir do dia em que cremos.

Elas não são dirigidas aos incrédulos, porque todas convergem para o caráter de Cristo, e ao aprofundarmos no tema notamos que eles nunca poderão vivê-las. São dirigidas aos crentes. O Senhor nos convida a sermos participantes delas, a praticar estas coisas. E, como eles denotam o caráter de Cristo, é complexo vivê-las até para aqueles que contam com a graça de Deus.

Há sete bem-aventuranças que se refere diretamente ao caráter de Cristo. Estão ordenadas no sentido ascendente, e cada uma dá um passo para a outra, como uma escada.

Vendo a multidão

«Vendo a multidão». Jesus sempre teve compaixão das pessoas. Aqui, a multidão representa aqueles que ainda não são de Cristo. Jesus vinha pregando o evangelho do reino nos povos e aldeias, e muitas pessoas da Galileia, da Judéia e do outro lado do Jordão o seguiam.

«Vendo a multidão». O Senhor contempla à multidão doente, carregada de tristezas e necessidades, mortos em delitos e pecados. Em seguida, sobe ao monte e começa a ensinar os seus discípulos, sabendo que, se eles forem cheios de Sua própria vida e do Seu caráter, poderão abençoar a outros.

Bem-aventurados os pobres de espírito

«Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus». Que paradoxal é esta declaração. A palavra bem-aventurados é sinônimo de ditosos, felizes, contentes. Porque, os pobres são felizes? Nós sempre associamos a pobreza com fraqueza ou carência. Parece contraditório o que Jesus diz. Mas o Senhor coloca ênfase aqui na pobreza espiritual.

Nós estamos acostumados a dizer: «Somos ricos em Cristo; temos tudo nele». Essa é uma revelação preciosa. Mas aqui o Senhor está falando outra coisa. Para que a multidão seja abençoada, necessitam-se de servos que sejam pobres de espírito. Se não nos tornarmos pobres de espírito, não seremos uma bênção para uma sociedade faminta e sedenta que necessita de Cristo.

Esvaziar-se de si mesmo

Pobres de espírito é aquele que está aprendendo a esvaziar-se de si mesmo, que tudo pode em Cristo, mas em si mesmo não tem nada. Entre todos os homens que pisaram na terra, Cristo é a referência mais preciosa do homem pobre de espírito; porque possuindo tudo, ele se empobreceu, abandonou a sua glória e se esvaziou de si mesmo para viver a vida de Outro.

Em João 5:19 vemos uma característica desta pobreza espiritual. «Respondeu então Jesus, e lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: Não pode o Filho fazer nada por si mesmo, mas o que vê fazer o Pai; porque tudo o que o Pai faz, também o Filho o faz igualmente». Versículo 30: «Eu não posso fazer nada por mim mesmo; conforme ouço, assim julgo; e o meu julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou, a do Pai».

«As palavras que eu vos falo, não as falo por mim mesmo, mas o Pai que habita em mim, ele faz as obras» (João 14:10). O Senhor Jesus viveu esta bem-aventurança de forma perfeita e maravilhosa. Ele nunca atribuiu a si nada como sendo dele mesmo. Quando alguém quis lisonjeá-lo lhe dizendo «Bom Mestre», ele replicou: «Por que me chamas bom? Não há ninguém bom a não ser um: Deus» (Mat. 18:17). Quando o louvavam pelos milagres, ele atribuía tudo ao Pai.

À luz desta palavra, podemos apontar quatro características distintas dos homens pobres de espírito: Não são nada em si mesmos, não têm nada por si mesmos, não sabem nada por si mesmos e não podem nada por si mesmos. Se formos algo, é pela graça de Deus, porque Cristo vive em nós. Todo o potencial que temos é Cristo em nós. As capacidades humanas não servem para nada.

Bem-aventurados os que choram

«Bem-aventurados os que choram, porque eles receberão consolação». Se não nos esvaziarmos de nós mesmos, a segunda bem-aventurança estará mais distante de poder ser vivida. Se formos egocêntricos, nunca seremos sensíveis nem choraremos por outros. Não poderemos chorar pela obra de Deus. Mas bendita seja a vida de Cristo em nós, porque por ele temos esperança. Um homem centrado em si mesmo não poderá ser bênção para aqueles que jazem mortos em delitos e pecados.

O homem pobre de espírito por excelência, dependente de Outro, vivendo a vida de Outro, foi Cristo. Ele também foi o único que chorou desde as suas entranhas; foi o homem mais manso que pisou na terra; ele teve fome e sede de justiça; ele é o misericordioso; ele é de coração limpo e só ele é o pacificador.

Nós somos convidados a vivermos este caráter. Este é o grande propósito divino de nosso chamado. Sermos «feitos conforme à imagem de seu Filho» (Rom. 8:29). Como viver isto de maneira real? O Senhor nos chama a aprender e a praticar estas coisas.

Isto não tem nada a ver com um conhecimento elevado das Escrituras. O pobre de espírito pode ser inclusive uma pessoa que nem sequer sabe ler, e mesmo assim abençoar a muitos. Um homem pobre de espírito, que realmente vive a vida de Cristo, será sensível ao ver uma multidão necessitada.

Por que choramos hoje?

«Bem-aventurados os que choram, porque eles receberão consolação». É obvio, este pranto não tem nada que ver com uma emoção. Às vezes somos muito emocionais, e choramos por uma boa notícia ou por um problema familiar. Mas aqui o pranto tem a ver com o caráter de Cristo.

Jesus chorou. Isto pode nos ajudar muito para seguirmos as suas pisadas. Qual é a motivação do nosso pranto? Por que choramos hoje? Choramos por nossos pecados? É verdade, também somos bem-aventurados quando nos arrependemos das nossas maldades.

Um homem que chora e é bem-aventurado é aquele que percebe a sua miserável condição espiritual. Há pessoas que já tem muitos anos na carreira cristã, mas que diante de uma pequena exortação se levantam e resistem o conselho.

Precisamos desejar ser pobres de espírito, sermos sensíveis e chorar esse pranto bem-aventurado, pelo Reino, pela condição da igreja, pelos obreiros, os anciões e encarregados das igrejas.

Devemos reconhecer que, pelo fato de não sermos pobres de espírito, temos dificuldades de chorar pela obra de Deus. O círculo do nosso quebrantamento e nossa oração é tão estreito, que se reduz a minha família, e às vezes nem sequer isso. Temos dificuldade de chorar pelos filhos que estão longe do Senhor, temos dificuldade de chorar pela condição da igreja na qual estamos congregando, temos dificuldade de chorar por nossa própria condição e temos dificuldade de chorar pelo que o pecado está fazendo hoje em toda a sociedade.

A intenção do Senhor é rodear-se de um grupo de pessoas que sejam capazes de esvaziar-se de si mesmos e abençoar a muitos, sendo sensíveis à dor dos outros. Que a palavra opere transformando o nosso coração, para levantarmos um clamor de quebramento pelos que estão próximos e pelos que estão longe. Se isto for obtido, daremos glórias ao Senhor, porque teremos passado o primeiro degrau desta escada e vamos viver ali, gostando de sermos pobres de espírito e tendo aquele pranto bem-aventurado.

O pranto por Jerusalém

«E quando chegou perto da cidade, ao vê-la, chorou sobre ela, dizendo: Oh, se também tu conhecesses, ao menos neste seu dia, o que é para a tua paz! Mas agora está encoberto aos teus olhos. Porque virão dias sobre ti, quando teus inimigos te rodearão com trincheiras, e te sitiarão, e por toda parte lhe apertarão, e derrubarão a terra, e a teus filhos dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porquanto não conheceste o tempo da tua visitação» (Lucas 19:41-44).

Comove-nos ver o nosso Senhor, tão perfeito e equilibrado em suas emoções, vertendo lágrimas por um motivo alto e sublime. Recordemos que Jerusalém é a cidade escolhida por Deus. «Porque Jehová escolheu a Sião; e a quis para si para habitação» (Sal. 132:13). Seus olhos estavam postos em Jerusalém. Antes de entrar na cidade, Jesus se detém, comove-se em suas entranhas, e chora.

Por que ele chora pela cidade? O que vê nela? O que ele discerne em sua sabedoria, por trás dos rostos dos seus habitantes, em especial das suas autoridades políticas e religiosas? A cidade está indiferente, fria, longe de Deus, entretida em rituais religiosos. E mesmo ele estando ali, não discernem que a glória de Deus está no meio deles. Estão cegos, sem coração para reconhecer quem lhes visitava por amor.

O pranto pela igreja atual

Jesus se entristece e chora. Eles não teriam paz, a cidade seria totalmente destruída. Mas a Jerusalém terrena é uma figura da igreja em termos universais. Como está a igreja hoje? Há motivos para chorar sobre ela? Como estamos vivendo a vida cristã?

Muitos estão entretidos em shows religiosos, indiferentes, ignorando a Cristo. Têm a Cristo do lado de fora. Sem discernir o que é do Espírito, poluem-se e pecam facilmente, não lhes importando que o nome do Senhor tem sido blasfemado entre os incrédulos. Tal é a condição geral da igreja hoje.

Estamos tão cheios de nós mesmos, e não temos tempo para chorar, empenhados em excesso em nossos interesses, ocupados em adquirir bens, em passar bem, em ganhar dinheiro e procurar um bom futuro para os nossos filhos, em nos estabelecer e lançar raízes na terra.

Nós não choramos. Por que não choramos? Porque a primeira bem-aventurança ainda não é uma viva realidade em nós. Somos tão egocêntricos, ainda vivemos para nós. Ou estamos atarefados em aprendizagens bíblicas, nos enchendo de conhecimento, mas cada vez mais ególatras e insensíveis. Esta não é uma motivação para chorar? Mas bendito seja Deus que, em sua misericórdia, exorta-nos com amor, para nos salvar de nossa deficiente condição espiritual.

Tal como o Senhor profetizou, Jerusalém foi destruída no ano 70. Ele chorou por uma cidade que não o amava. Nós talvez possamos chorar por alguém que amamos e que nos quer bem; mas não temos amor para abençoar a quem não nos simpatizamos. Jesus chorou por essa cidade que o rejeitava. Só se formos pobres de espírito podemos ser sensíveis e orar e chorar até por nossos inimigos. Que esta mensagem nos sirva de inspiração para orar, para nos quebrantar e obter o agrado do Senhor.

Jesus chorou pela condição nefasta de uma cidade. Nós choraremos por uma igreja indiferente, talvez até mesmo onde você está congregando. Talvez para muitos ali não lhes interessa a centralidade de Cristo, mas outras coisas, e vivem no mesmo entretenimento que este mundo provê, com seu coração distante da pessoa e obra do seu Senhor.

O pranto por Lázaro

Jesus também chorou diante do tumulo de Lázaro. Às vezes pensamos que ele chorou porque Lázaro era o amigo que o recebia muito bem em sua casa em Betânia. Poderia ser, mas não é o motivo principal. Jesus não chorou pela morte de Lázaro, porque ao lermos com cuidado o capítulo 11 de João vemos que o Senhor sabia que ele ia ressuscitar, e o reitera três vezes. «Esta enfermidade não é para morte… Lázaro dorme; mas vou despertá-lo… Teu irmão ressuscitará» (João 11:4, 11, 22).

Jesus disse a Marta: «Eu sou a ressurreição e a vida; que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá». Então, se ele sabia que, ouvindo a sua voz, Lázaro voltaria para a vida, o pranto não teria sentido. Jesus chorou ao ver a condição na qual estava o homem por causa do pecado. Podre da cabeça aos pés, Lázaro fedia: o pecado tinha destruído a criação feita a imagem de Deus.

«Portanto, como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram» (Rom. 5:12). Que cada vez que tenhamos um pensamento pecaminoso possamos sentir náuseas daquilo, e rejeitá-lo no nome do Senhor, porque o pecado é a coisa mais terrível que pode nos acontecer.

Perguntamo-nos por que tantos homens e mulheres tem ficado pelo caminho, e ainda há famílias inteiras corrompendo-se, tendo crido e tendo tido a vida de Cristo. Também devemos chorar por aqueles que ficaram para trás e, em vez de criticar a sua atitude, tenhamos um gemer diante do Senhor, porque se há algo em que Deus se deleita é em perdoar e em usar de misericórdia.

Nós temos o céu aberto; não brinquemos nem negociemos com o pecado que destrói à humanidade. E nós seremos amigos do pecado? Hoje mais do que nunca, devemos rejeitar até o menor deles. Nós temos acesso ao Lugar Santíssimo, e ali devemos permanecer.

Que o Senhor nos socorra hoje, para amarmos a justiça e amarmos a verdade. Sermos homens e mulheres cheios de Seu Espírito, despojados de nós mesmos, lembrando sempre estas quatro características daqueles que estão aprendendo a esvaziar-se: nada sou, nada sei, nada tenho e nada posso por mim mesmo.

O pranto de um apóstolo

Em algumas passagens bíblicas vemos Paulo chorar. Paulo anuncia uma visita aos Coríntios, dizendo: «Pois temo que quando chegar, não vos ache tais como quero… que quando voltar, Deus me humilhe entre vós, e possivelmente tenha que chorar por muitos dos que antes pecaram, e não se arrependeram da imundície e fornicação e lascívia que cometeram» (2 Cor. 12:20-21). Por isso, também devemos chorar por aqueles que estão pecando e que não se arrependem.

Em Filipenses 3:18 Paulo tem uma expressão comovedora: «Porque por aí andam muitos, dos quais vos disse muitas vezes, e até agora o digo chorando, que são inimigos da cruz de Cristo». Conhece alguém que é inimigo da cruz de Cristo? Eu conheço um: eu mesmo.

Há alguns que conhecem a palavra da cruz desde o início da sua carreira cristã; mas quando devem ficar em silêncio, ou abençoar e amar fraternalmente, não têm essa capacidade. São altivos, soberbos; estão cheios de si mesmos. Quão necessário é ter fome de ser pobres de espírito. Este é o princípio. Aqui é o começo para subir até chegar ao caráter máximo de Cristo: «Bem-aventurados os pacificadores».

Necessitamos imperiosamente de aprender a esvaziar-nos de nós mesmos, para nos encher de Cristo e para viver a sua vida, para nos render a ele e para não fazer a nossa vontade, mas a sua. Que possamos viver o caráter maravilhoso de Cristo aqui, em nosso lar, em nosso trabalho e com os irmãos, sendo pobres de espírito, vivendo a vida de Outro e sendo sensíveis à dor dos outros. Amém.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em Rucacura (Chile), em janeiro de 2019.

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