A Lei e o Evangelho

Uma aparente contradição e uma perfeita harmonia.

Roberto Sáez

Nas Escrituras encontramos muitos contrastes, paradoxos e aparentes contradições que, na realidade, não são coisas contraditórias, mas se complementam em uma maravilhosa harmonia. Por exemplo, há um contraste entre a lei e a graça. Também parece que a lei é oposta ao evangelho. Mas, como harmonizar a lei com o evangelho? É o mesmo que harmonizar a fé e as obras. A salvação não é por obras, mas por fé, e ao dizermos isto parece que somos contra às obras.

Na graça de Deus, tentaremos apresentar a harmonia que há no contraste entre a lei e o maravilhoso evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo. Ao pregarmos o evangelho não podemos desprezar nem prescindir da lei. Paulo em Gálatas 3:19 pergunta: «Para que serve a lei?». É muito importante compreender qual é o ministério da lei.

Jesus e a lei

Cristo é a lei encarnada, porque ele é Deus encarnado, e a lei é o caráter de Deus. O que Deus é e o que Deus faz, está expresso em mais de trezentos mandamentos descritos em frases negativas: «Não adulterarás, não roubarás, não cobiçarás», etc., e mais de duzentos afirmativas: «Amarás ao Senhor teu Deus… amarás ao teu próximo como a ti mesmo».

A lei abrange mais de seiscentos mandamentos relativos ao sistema do culto judeu, assuntos civis, alimentos, bebidas, e etc... A maioria são preceitos morais. Não podemos desprezar a lei, porque ela expressa a essência do caráter de Deus, e a lei é santa, justa e boa.

No sermão da montanha, Jesus disse: «Não penseis que vim para revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, mas para cumprir. Em verdade vos digo que até que passem o céu e a terra, nenhum j nenhum til passará da lei, até que tudo se cumpra» (Mat. 5:17-18).

«Não vim para revogar a lei ou os profetas». Ele não veio acabar com a lei, não veio para apagá-la, mas para cumpri-la. Isto é maravilhoso, e é parte do evangelho anunciar, crer e manifestar que toda a lei foi encarnada e cumprida em Cristo. Ele reflete o conteúdo da lei.

No Antigo Pacto, homens como Davi, que conheceram a lei, amavam e desfrutavam dela. Os Salmos, como o 19 ou o 119, têm expressões maravilhosas da lei, porque ao falar dela estão falando do próprio Deus e do seu caráter. O Salmo 119 tem muitos sinônimos da lei divina: as normas, os mandamentos, os regulamentos, os estatutos, os preceitos, os caminhos de Deus.

Não se pode separar Cristo da lei. Ao olharmos para o Antigo Pacto, a lei é uma ama-de-leite. «A lei tem sido o nosso aio, para nos levar a Cristo» (Gál. 3:24). Era a profecia anunciando que chegaria um dia em que a lei seria cumprida, e esse dia chegou quando Cristo veio à terra.

Cristo, a lei encarnada

Por isso, o que para os judeus era uma sombra, para os cristãos é uma realidade inscrita em nossa mente e em nosso coração; não do lado de fora, mas dentro de nós. Ao recebermos Aquele que é a lei encarnada, o repouso está dentro de nós. Cristo é o nosso sábado. A lei, as comidas, os rituais, tudo está completo nele. Agora ele é o nosso sustento, o nosso tudo. Bendito seja Deus! Não podemos separar a lei do evangelho, porque o evangelho é o que nos explica a lei, o que dá sentido à lei. «Não vim para revogar… mas para cumprir», para completar a lei.

«Ouviram que foi dito… mas eu vos digo». Aqui há outra dimensão do ministério do Senhor. A lei dada através de Moisés proibia o assassinato. «Ouviram que foi dito aos antigos: Não matarás; e qualquer que matar será culpado de juízo. Mas eu vos digo que qualquer que se encolerizar contra o seu irmão, será culpável de juízo» (Mat. 5:21-22). A lei só proibia o fato de matar, mas ele nos indica que o que causa o homicídio é o ódio.

«Ouviram que foi dito: Amarás a teu próximo, e aborrecerás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai aos vossos inimigos, bendizei aos que vos maldizem, façais bem aos que vos aborrecem, e orai pelos que vos ultrajam e vos perseguem» (Mat. 5:43-44). Mas esse aborrecer não era a lei que dizia, mas os intérpretes da lei, torcendo as Escrituras. Jesus aqui corrige a má interpretação deles.

Palavras em contexto

Quando o Senhor diz: «Não resistais ao perverso» (Mat. 5:39), alguns interpretaram erroneamente: «Não resistais o mal», o qual é falso. Porque se não tivermos que resistir o mal, então tampouco teremos que resistir ao diabo, porque o diabo é mau. Então, precisamos compreender a essência da lei, o contexto das palavras de Jesus no sermão da montanha.

Alguém tem dito que o sermão da montanha, em Mateus capítulos 5 aos 7, é a passagem da Escritura mais lido através da história. O que os cristãos mais têm lido, e até os de fora, o que mais se conhece de toda a Bíblia, é o sermão da montanha, as leis do Reino.

Ao direcionar o seu evangelho aos judeus, Mateus queria colocar um equilíbrio com respeito ao conceito da lei, ao qual eles têm um apego absoluto. Portanto, Mateus fala com muito cuidado em relação à lei, mostrando a atitude de nosso Senhor Jesus Cristo a este respeito.

Agora, sendo estes os estatutos divinos para os cidadãos do Reino, a lei celestial não é aplicável ao mundo, mas apenas a aqueles que têm «a lei do espírito de vida» colocados em si mesmos, quer dizer, aos renascidos, aos que ouviram o evangelho e se converteram a Cristo.

O Senhor Jesus diz: «Não julgueis para que não sejais julgados» (Mat. 7:1). O apóstolo Paulo, mais tarde, dirá também: «Não pagueis a ninguém mal por mal; procurai as coisas boas diante de todos os homens. Se for possível, no que depender de vós, estejam em paz com todos os homens. Não vos vingueis a vós mesmos, amados meus» (Rom. 12:17-19).

Sublinhemos a ênfase pessoal da aplicação desta Escritura, porque as palavras de Jesus também estão neste mesmo contexto. Não temos que fazer justiça com nossas próprias mãos para nos vingar do mal, mas dar lugar à ira de Deus, e respeitar às autoridades que foram colocadas por Deus, como também diz Paulo.

O Senhor Jesus, com respeito a isto mesmo, acrescenta: «Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança; eu pagarei, diz o Senhor. Portanto, se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, ao fazeres isso, amontoarás brasas de fogo sobre sua cabeça. Não deixeis vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Submetei todas as pessoas às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram estabelecidas por Deus» (Rom. 12:19-21 e 13:1).

Ao escrever isto, Paulo estava no meio do império romano. E ele diz que o império é uma autoridade colocada pelo próprio Deus. É difícil para nós compreendermos que haja diversos tipos de governo e que é Deus quem tira e põe reis. Deus outorgou ao homem a capacidade de se organizar em Estados, para que a justiça seja administrada por eles, e manda que nos submetemos às autoridades.

Entretanto, este mesmo império, que é uma autoridade estabelecida da parte de Deus, no final, em Apocalipse 17 e 18, é a grande Babilônia religiosa e política, o império de Satanás. Aqui há um contraste. Pois Deus não nos trata como marionetes. Cada um dos governantes e os políticos terá que prestar conta do que tem feito neste mundo, seja bom ou seja mal. De tal maneira que Deus não é culpado de que, algo que ele estabeleceu, se debandou para o lado de Satanás.

A opção de um crente

Isto nos faz refletir, porque nós os crentes enfrentamos diariamente o mal que os outros nos causam. Como respondemos quando alguém nos fere? Como reage uma esposa cristã diante de um marido que lhe foi infiel? Deve perdoar? Deve se vingar? O que pode fazer? Então o Senhor nos diz: «Não pagueis a ninguém mal por mal».

O cristão tem a opção de perdoar, mas também poderia ir à justiça. Alguém que esteja lhe roubando, você pode chamar à polícia, porque esta é a autoridade. Em tal caso ele não está fazendo justiça por suas próprias mãos, mas recorrendo a uma instância legítima. Mas um cristão deve ter claro esta palavra de não devolver mal por mal.

Se lhe fizerem um mal e você devolve com um bem esse mal, isso é algo divino. Se lhe fizerem um bem e devolve um bem, isso é humano, porque assim fazem os homens aos que lhes fazem bem. Por outro lado, se lhe fizerem um bem e você devolve esse bem com um mal, isso é algo diabólico.

O ministério da lei

Aqui começamos a entender qual é o sentido da lei. Para que serve a lei? Esta resposta Paulo também a dá em Romanos 3:19-20. «Tudo o que a lei diz, o diz aos que estão debaixo da lei, para que toda boca se feche e todo mundo fique debaixo do juízo de Deus; já que pelas obras da lei nenhum ser humano será justificado diante dele; porque por meio da lei é o conhecimento do pecado».

Mais adiante, Paulo diz que ele viveu um tempo sem a lei, mas quando ele conheceu a lei, então o que era bom –a lei que era para vida–, lhe resultou para morte. «Logo, o que é bom veio a ser morte para mim? De modo algum! Mas o pecado, para se mostrar pecado, produziu em mim a morte por meio do que é bom, a fim de que, pelo mandamento, o pecado chegasse ao extremo da pecaminosidade» (Rom. 7:13). Não é a lei que mata, mas o pecado.

O que é que nos causa a morte? O pecado. Mas como o pecado é sancionado pela lei, então este usa a lei para nos matar. Quem está por trás do pecado, de tudo que se opõe a Deus? O adversário de Deus, Satanás o diabo, e este usará a lei de Deus para nos acusar, para nos fazer sentir que estamos destituídos. E na realidade, Deus confirma isso, porque Deus mesmo o tem dito.

O Antigo Testamento registra um ditado popular entre os judeus, que aquele que vai a Deus cai morto diante dele. E isso acontece com toda pessoa diante da lei, porque a lei é o caráter de Deus. Diante da lei, todos caem como mortos, «porque pelas obras da lei ninguém será justificado» (Gál. 2:16). O problema não é a lei, porque ela é santa, justa e boa. O problema sou eu.

Então, para anunciar o evangelho, é muito importante que consideremos o testemunho de Paulo. Porque, como uma pessoa poderia valorizar o evangelho se não souber qual é a sua situação diante de Deus? O mundo está em trevas, o diabo os cegou para que não vejam a luz. E como tirar esse véu? O evangelho tem esse poder, de utilizar o que é o caráter de Deus para fazer com que o homem veja a sua condição, porque diante da lei de Deus estamos mortos, destituídos da glória de Deus.

Paulo diz: «Eu aprovo que a lei é boa… segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus» (Rom. 7:16, 21). Assim se deleitavam os homens do Antigo Testamento. «A lei de Jehová é perfeita, que converte a alma; o testemunho de Jehová é fiel, que faz sábio ao simples... Mais desejáveis são que o ouro, e mais que muito ouro refinado; e mais doces que o mel, e que o destilar dos favos» (Sal. 19:7, 10). Este era o conceito dos que se deleitavam na lei de Deus.

O Salmo 119 tem inúmeras referências ao efeito que a lei de Deus tem no coração daquele que ama a lei. A lei o levanta, anima-o, vivifica-o. Mas quando o homem se aproxima para cumprir a lei, descobre que são mais de seiscentos preceitos, mas ao infringir apenas um deles, a lei o condena e o mata, porque Deus é santo, perfeito, e não admite nenhumas trevas.

«Assim, querendo eu fazer o bem, acho esta lei: que o mal está em mim. Porque segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei nos meus membros, que se rebela contra a lei da minha mente, e que me leva cativo à lei do pecado que está nos meus membros» (Rom. 7:21-23).

Esperança para o pecador

Então, Paulo exclama: «Miserável homem que eu sou! Quem me livrará deste corpo de morte?» (V. 24). Nós chegamos a esta conclusão? Entendemos que temos algo que nos arrasta a fazer o mal? Sabemos o que é bom, mas temos um princípio maligno que nos leva a fazer o que não queremos; aprovando o que é bom, mas sem poder fazer o bem.

E aqui vem o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo. «Graças dou a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor» (V. 25). O evangelho nos salva dessa condição de maldade. Para ouvir o evangelho, sabes que Cristo é o teu Salvador, que ele tomou o teu lugar e morreu por ti e por mim. Ele pagou por nossos pecados. A lei podia te acusar e condenar, mas foi o próprio Cristo quem sofreu a condenação.

«Porque o pagamento do pecado é a morte, mas a dádiva de Deus é vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor» (Rom. 6:23). Cristo pagou. Sua obra redentora nos salva do ministério da lei, que é um ministério de morte. Mas quando ele chega ao teu coração, então tua vida é transformada. Nasceste de novo, e agora há um poder dentro de ti que te liberta da lei do pecado e da morte e te faz ser vitorioso. Já não estás mais debaixo do domínio do pecado.

Não podemos dizer que seja impossível que não peques, mas é impossível que aceites pecar de maneira deliberada. Isto é muito claro. Aquele que nasceu de novo não sente prazer no pecado. Há uma tristeza, uma amargura que te esmaga, e essa tristeza te conduz ao arrependimento.

«Arrependei-vos, porque o reino dos céus é chegado» (Mat. 3:2). Assim Jesus começa o seu ministério de justificação. Cristo é o que justifica. O arrependimento é uma mudança de mentalidade. Sim, o diabo te acusa, te esmaga, te arruína; ele quer te fazer sentir que estás condenado, que não és digno. Mas Cristo levanta a tua cabeça, te perdoa e te cura. Cristo te salva. Isto é o evangelho.

A lei e a graça

O ministério da lei é nos mostrar quão pecadores somos, moralmente insolventes e incapazes, e quanto precisamos que a graça de Deus nos acolha. A graça contrasta com a lei. A lei exige, obriga, demanda; a graça outorga, socorre, liberta, capacita. Bendita graça!

A graça de Deus harmoniza com a lei. Paulo diz: «Se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei» (Gál. 5:18). O que significa que os cristãos já não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça? A lei é contrária à graça? Não entendamos mal, porque a lei é o caráter de Deus.

Não estar debaixo da lei significa que já não estás debaixo de um regime que te escraviza, mas debaixo do regime do Espírito; não para ignorar a lei, mas para amá-la e obedecê-la, e não nas suas forças, mas no poder de uma nova vida, de outra lei, a lei do espírito de vida em Cristo Jesus que nos liberta da lei do pecado e da morte (Rom. 8:2).

Aqui está a harmonia entre lei e graça, entre lei e evangelho, entre carne e espírito. Em Gálatas 2:18 diz: «Porque se as coisas que destruí, as mesmas torno a edificar, me faço transgressor». O que são as coisas que Paulo destruiu? Ele era «fariseu de fariseus», cria que cumpria a lei fielmente. E quando fala com os gálatas, «as coisas que destruí», se refere ao sistema da lei e do culto judeu, porque agora já não há mais sacrifícios pelo pecado, «porque com uma só oferta fez perfeitos para sempre aos santificados» (Heb. 10:14).

Assim, se Cristo é a nossa páscoa, como vamos continuar celebrando a páscoa judaica? Que coisas eu destruí? Destruí as sombras, agora tenho a realidade. O que são as coisas que destruí? Que não tenho que comer certas coisas, que tenho que observar certas festas, etc...

Em seguida vêm os mestres judaizantes dizendo: «Vocês receberam a Cristo, tudo bem; mas falta algo: têm que cumprir os ritos da lei». Ou seja, Cristo não é suficiente? Os gálatas estão cometendo uma insensatez. Eles têm a Cristo, mas querem voltar para as sombras. Sim, aqueles foram nossos mestres para nos antecipar que um dia chegaria o cumprimento da lei.

«Porque eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus. Com Cristo estou juntamente crucificado, e já não vivo eu, mas Cristo vive em mim» (Gál. 2:19-20). Olhem como fala da carne agora: «E o que vivo agora na carne». A carne está extinta? Foi aniquilada por agora você ser um cristão? Não, continua sendo uma pessoa de carne, mas a sua carne está submetida ao Espírito.

«E o que vivo agora em minha carne, vivo na fé do Filho de Deus» (V. 20). Aqui há harmonia entre carne e Espírito. Uma carne debaixo do Espírito não é uma carne separada do Espírito, porque uma carne separada do Espírito não serve para nada. A natureza humana separada do Espírito não pode agradar a Deus; mas a natureza humana submetida ao Espírito Santo, pela graça de Deus, estará capacitada para viver para Deus.

O poder de uma vida nova

A maneira do apóstolo falar em relação à lei poderia nos confundir, mas ele é muito claro em explicar estes contrastes. Os cristãos não são para se separarem da lei, mas para amar a lei de Deus, mas já não estão submetidos mais ao regime que nos escraviza.

Agora tens dentro de ti o poder de uma nova vida. A lei do Espírito de vida tem feito brotar dentro de ti um sentimento de afeto para amar a lei de Deus, querer o que ele quer, aborrecer o que ele aborrece e estar de acordo com Deus.

Assim se cumpre isto: «Senhor, eu quero ser como tu és». Você foi criado para ser portador da imagem de Deus. Como poderíamos nos tornar semelhantes a ele desprezando a sua lei? Amar a lei de Deus não significa ficar debaixo da lei, nesse conceito de Paulo. O que ele enfatiza é estarmos debaixo daquele sistema da lei que te força a cumpri-la. E quando não a cumpre, sente-se mal. Por isso João diz que aquele que é nascido de Deus não peca, porque o Espírito Santo lhe indica o que está errado.

Quando isso acontece, o inimigo faz você se sentir indigno. Então você trata de se esforçar para cumprir a lei de Deus, porque crê que para estar bem com a sua consciência deve cumpri-la fielmente. Mas esse conceito pode levar você a pensar que a salvação é alcançada por obras.

Alguém dizia que o Senhor pagou o sinal da nossa salvação, mas nós temos que pagar o saldo dela; ou seja, que você tem que continuar comprando a sua salvação. Quando se prega esse evangelho misturado, está-se dizendo que a obra de Cristo não é completa, que ele fez uma parte e você tem que fazer a outra. Isso é um engano, e há uma grande porcentagem de crentes que estão nesse engano. Isso é estar debaixo da lei.

Graça que capacita

O que significa estar debaixo da graça? A graça é capacitadora. Ela me habilita para que não seja mais eu, mas Cristo em mim. Isto é o evangelho. Esta é a riqueza do evangelho: que aquilo que era impossível para a minha carne, agora, pela graça de Deus, é possível. Bendito seja o Senhor!

O evangelho despertou em nós o amor por Cristo. Não me sinto obrigado a segui-lo. Sinto uma paixão por ser como Cristo é, e sinto uma grande dor quando ele não manifesta em mim a sua vida diariamente. Então o diabo me diz que sou indigno e inútil. Entretanto, o sentirmos bem não depende «se fazemos o bem ou o mal», mas do que Deus em Cristo tem feito por ti e por mim.

Para termos paz com Deus, não pense que você tem que ser tão bom. Não há nenhum homem bom. Jesus disse: «Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um: Deus» (Mat. 19:17), porque ele, nos representando, afirmava que entre os homens não há ninguém bom.

Para estarmos bem com Deus, não temos que pensar que somos bom, porque se formos por esse caminho seremos uma pessoa cheia de justiça própria. E se há algo que Deus aborrece é alguém que crê que tem justiça própria. Se não tivermos a justiça que Deus outorga, não podemos adquiri-la de outra forma senão por graça. Porque se for por obras, já não é por graça. Glória ao Senhor!

«Miserável de mim». Que tremendo contraste! Sim, em mim mesmo não sou nada; sou um pecador, e lamento não ser exatamente como meu Senhor. Mas estes quebrantamentos da alma, essas tristezas por não sermos como ele é, não nos abatem. Porque continuamos crendo que, apesar de tudo, ele continua nos amando. Este é o evangelho. Vivemos em uma permanente contradição, mas ao mesmo tempo em uma maravilhosa harmonia.

Síntese de uma mensagem oral ministrada no Rucacura (Chile), em janeiro de 2019.

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