O evangelho da glória de Deus

O encargo do anúncio que revela as suas riquezas insondáveis.

Rodrigo Abarca

“…segundo o glorioso evangelho do Deus bendito, que me foi confiado… Palavra fiel e digna de ser recebida por todos: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro… A mim, que sou o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo” (1 Tim. 1:11, 15; Ef. 3:8).

Nestes versículos vemos a profunda identificação do apóstolo Paulo com o evangelho. Não é algo alheio a ele, mas constitui parte da sua própria vida. Em Romanos 2:16 ele o chama de «meu evangelho».

«...o glorioso evangelho do Deus bendito que me foi confiado». Quando Paulo descreve o evangelho, usa muitas vezes este tipo de qualificativos, devido ao impacto tão grande que o evangelho teve em sua vida. Não é simplesmente «o evangelho», mas «o glorioso evangelho», ou «o evangelho da glória de Cristo» (2 Cor. 4:4).

Nenhuma expressão humana, por mais elevada que seja, faz real justiça à grandeza do evangelho, porque este é maior que tudo o que podemos expressar. Finalmente, Paulo o chama «o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo». Quer dizer, por mais que nos aprofundemos nele, nunca o esgotaremos.

Palavra fiel e digna

No final de seus dias, Paulo declara que o evangelho é uma palavra verídica, uma palavra que não mente. «Palavra fiel e digna de ser recebida por todos». Tão vital é este anúncio, que merece ser ouvido por todos.

Paulo tinha gastado longos anos percorrendo muitos lugares e falando com ricos e pobres, poderosos e débeis, sábios e ignorantes. E pôde comprovar muitas vezes que esta é uma palavra fiel. Deus sempre respalda o seu evangelho, toda vez que é anunciado.

«Porque não me envergonho do evangelho». Temos medo de falar do evangelho? Pensamos que o que temos de dizer não é suficientemente digno de ser ouvido por todos? Neste mundo não há nada que se iguale em glória ao evangelho de Jesus Cristo. Como envergonhar-se dele!

«Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro». Este é seu resumo do evangelho. Estas são as palavras testamentarias do apóstolo; é como se ele estivesse expressando a sua última vontade, nas cartas a Timóteo e a Tito, escritas na prisão romana enquanto esperava a sua sentença de morte. Ele põe com letras grandes esta afirmação: «Palavra fiel e digna de ser recebida por todos: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores».

Normalmente associamos ao apóstolo a grande revelação que recebeu em relação à vocação eterna da igreja em Cristo Jesus. Disso falamos por muito tempo. Mas ao olharmos com atenção, descobrimos que o que mais cativava o seu coração sobre todas as coisas era o evangelho.

Nada é maior que o evangelho de Jesus Cristo. Sem ele, a igreja não existiria sobre a terra. Sem o evangelho não haveria redimidos, não haveria um povo para Deus, não haveria uma noiva para Cristo; não haveria uma Casa onde Deus pudesse habitar por seu Espírito. O evangelho torna possível a existência da igreja.

Por isso, o testamento de Paulo, no final de sua vida, é este: «Este mandamento, filho Timóteo, te encarrego… que pregues a palavra... Faça a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério». Porque se nos esquecermos do evangelho corremos o risco de perder todo o resto.

O evangelho de Paulo

Vejamos algumas características fundamentais do evangelho, especificamente na visão do apóstolo Paulo. Efésios 3:8 diz: «A mim, que sou o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo».

A palavra que se traduz aqui como «anunciar» é evangelizar em grego. Evangelho significa «boa notícia». No mundo antigo havia arautos que percorriam as cidades divulgando as notícias importantes. A ideia básica de evangelizar é anunciar em público uma boa nova. Então, por contraste, o evangelho «não é» certas coisas. Por isso tentaremos especificar primeiro o que não é o evangelho, para em seguida entender o que ele é.

Um estilo de vida?

Em primeiro lugar, o evangelho não é um estilo de vida. Frequentemente é dito que ele é uma forma de vida; que ao vivermos um certo tipo de vida pregamos o evangelho. Mas estritamente falando, não é assim. O evangelho pode, e deve, produzir vidas transformadas. Mas isto em si não é o evangelho, porque este não se refere ao que nós devemos fazer para Deus, mas o que ele fez por nós em Cristo.

Segundo a Bíblia, devemos dar exemplo de uma vida santa diante dos incrédulos; mas o que nos salva é a palavra do evangelho e não o nosso exemplo de vida. Se não falarmos de Cristo, ninguém será salvo. Está escrito: «Agradou a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação» (1 Cor. 1:21). Deus salva os homens de uma só maneira: pela pregação do evangelho. Não podemos nos desculpar dizendo: «Eu prego o evangelho com o meu exemplo». Tal argumento não é mais que uma maneira de disfarçar a nossa vergonha de proclamar o evangelho.

É claro que a nossa vida tem que respaldar o evangelho. Na verdade, o exemplo da igreja tornou o evangelho plausível; isto quer dizer que quando as pessoas veem o efeito do evangelho em nossa vida, estarão muito mais dispostas a crer nele. Mas não podemos substituir o evangelho por nossa vida. Portanto, pregamos a Jesus Cristo como o Salvador, e os homens são salvos quando creem nele.

Um código moral?

Em segundo lugar, o evangelho não é um código moral ou ético. Alguns acreditam que falar do evangelho é dizer às pessoas o que é correto e incorreto fazer. E nos convertemos em moralistas. Mas ao fazermos isto não estamos pregando o evangelho, porque este não é um código moral. Para isso existe a lei.

O evangelho não é a lei; não é uma demanda que Deus coloca sobre o homem a respeito do que ele deve fazer ou não fazer. O Senhor não mandou sermos moralistas, censurando a outros o que está bem ou mal neles. O evangelho não é isso. É uma mensagem de graça, que nos diz que somos tão pecadores que jamais poderíamos ganhar o favor de Deus através das nossas obras. E nos diz que Deus nos ama e nos aceita por graça em Cristo, muito mais do que jamais nos atreveríamos imaginar.

Uma religião?

Em terceiro lugar, o evangelho não é uma religião. Uma religião é basicamente um método humano para obter o favor de Deus. No mundo há muitas religiões que reúnem milhões de pessoas. Mas elas têm uma diferença radical com o evangelho de Cristo. Todas ensinam que o homem deve esforçar-se e trabalhar fazendo muitas coisas para ganhar o favor divino, a redenção ou algo parecido.

No tempo de Paulo, todo mundo era religioso. Hoje, as pessoas se tornaram mais irreligiosas. Todo mundo estava preso em algum sistema religioso de salvação, esforçando-se para ser salvo. Mas o evangelho não nos diz que nós temos que fazer algo para ganhar o favor de Deus, mas Deus é que faz tudo por nós. Portanto, o evangelho não é uma religião.

Uma filosofia?

O evangelho não é uma filosofia ou uma doutrina. É obvio, dele se derivam doutrinas (a justificação, o novo nascimento, etc...), mas o próprio evangelho não é um sistema de verdades. Deus não nos deu uma filosofia para que fossemos salvos. Como poderia ser um assunto de filosofia dado por Deus aos homens? Ninguém poderia entender, porque a mente divina é muito superior à nossa. Então, quem poderia ser salvo? Ninguém! Mas Deus não nos salva por um sistema de verdades teóricas e inalcançáveis.

O evangelho é uma Pessoa

O que é então o Evangelho? É uma pessoa acessível para todos: Jesus Cristo. Os sábios encontram salvação nele, e os humildes também encontram salvação nele. Essa é a resposta de Deus à condição desesperada dos homens; isto é o que Deus dá aos homens: uma Pessoa.

Em um curso de apologética, um professor dizia que Deus não nos deu um argumento irrefutável. (A apologética busca argumentos para defender a fé). Claro, Deus pode fazer isso, mas talvez muito poucas mentes poderiam entender. Mas, Deus não nos deu um argumento irrefutável; nos deu algo muito melhor: uma Pessoa irrefutável. A sabedoria divina supera imensamente a sabedoria dos homens. Assim, a filosofia de Deus, por assim dizer, não é um assunto de filosofia, mas uma Pessoa: Jesus Cristo.

«Os gregos buscam sabedoria» (1 Cor. 1:22). Esta era a força motriz da cultura grega. Eles procuravam «redimir-se» mediante a sabedoria. Por isso desenvolveram a filosofia (gr. «amor à sabedoria»).

Paulo diz aos Coríntios, que eram gregos, que essa sabedoria humana nunca poderá salvar a ninguém. Mas que há uma sabedoria divina: «Mas para os chamados, tanto judeus como gregos, Cristo poder de Deus, e sabedoria de Deus» (1 Cor. 1:24). Cristo é a divina Sabedoria pela qual Deus salva os homens. Isto é o evangelho, que supera à sabedoria humana, assim como o céu supera a terra.

Este é o conteúdo do evangelho. Anunciamos a uma Pessoa. Por isso que é dito em Atos que os apóstolos, no começo da história da igreja, todos os dias, no templo e pelas casas não cessavam de pregar e ensinar, não um código moral, não uma ética, não um sistema de vida, não uma religião, não uma filosofia, mas a Jesus Cristo. Ele é a sabedoria e o poder de Deus; porque nele está a plenitude de Deus.

O evangelho é uma verdade absoluta que responde a todas as necessidades da vida humana. Não é uma religião, mas nos une com o verdadeiro Deus. Não é uma filosofia, mas responde a todas as perguntas que o homem se tem feito através da história com respeito ao significado da vida humana.

Deus nos deu uma Pessoa perfeita. Romanos começa dizendo: «Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus que ele tinha prometido antes por seus profetas nas santas Escrituras…». E em seguida descreve o conteúdo do evangelho: «…a respeito de seu Filho». Cristo, o Filho de Deus, é o evangelho. Ao anunciá-lo, ao falar de sua vida e obra, e ao descrevermos a sua glória, estaremos pregando o evangelho. Porque ele é o evangelho.

Um anúncio universal

Temos dito que em primeiro lugar o evangelho é um anúncio, uma boa notícia, que nos fala do que Deus tem feito por nós em Cristo. Em segundo lugar, dissemos que o evangelho é uma pessoa: Jesus Cristo o Filho de Deus. Em terceiro lugar, Paulo diz: «…me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo» (Ef. 3:8).

A expressão «anunciar entre os gentios», é, no grego, anunciar às etnias, ou às gentes, ou seja, a todas as nações. 1 Timóteo 1:15 diz depois: «Palavra fiel e digna de ser recebida por todos». Uma característica do evangelho é ser universal. No final da história, em Apocalipse 7:10, vemos uma grande multidão de todas nações e tribos e povos e línguas, que clamam em grande voz: «A salvação pertence ao nosso Deus que está assentado no trono, e ao Cordeiro». Eles foram redimidos pelo evangelho. O evangelho não é só para nós, é para os que estão além de nós, para os que nunca ouviram.

A ousadia de Paulo

Paulo era um homem a quem Deus usou, como a nenhum antes ou depois na história, para levar a palavra do evangelho. Muitas igrejas surgiram ao longo de toda a região da Grécia até a Itália como resultado do seu ministério. Era um homem incansável. «trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus comigo» (1 Cor. 15:10).

Não poderia ele, já ancião, no final dos seus dias, haver dito: «Bom, já andei muito; padeci demais, fui preso e exposto a tantos perigos. Não seria melhor parar»? Nós não pensamos assim? Por que não recolher agora o fruto do seu trabalho, sentar-se em um lugar, descansar e ficar ali edificando os irmãos? Não estaria certo se ele tivesse feito isso?

No entanto, vemos que Paulo, já ancião, escreve uma carta aos romanos. Ele quer ir a eles, para levar a eles a Palavra. E como ainda não podia ir, escreve-lhes expondo em sua carta (aos Romanos) o que ele chama «meu evangelho», aquilo que o Senhor lhe revelou e encarregou. Mas avisa que ele também quer ir a eles, não só para regozijar-se, lhes edificar, mas «para também ter entre vós algum fruto» (Rom. 1:13), para que outros também cressem.

E não só isso, mas no final da carta, diz-lhes que ficará pouco tempo. Estará com eles, mas seguiria rumo à Espanha. «Como está escrito: Aqueles a quem nunca foi anunciado a respeito dele, verão, e os que nunca ouviram sobre ele, entenderão» (Rom. 15:21). Tal é o coração do apóstolo.

Ninguém tinha mais direito que ele de recolher no celeiro o fruto da sua obra, e beber aquele vinho de sua vinha, mas nunca o fez. A tradição diz que, depois de sair da prisão, no final de Atos, foi a Espanha para pregar, até que finalmente o império romano o considerou uma pessoa perigosa e o condenou à morte.

No final dos seus dias, Paulo sabia que a sua carreira tinha acabado, mas insiste com Timóteo a continuar pregando. Que o Senhor nos dê um coração como o deste homem cativado pelo evangelho de Jesus Cristo! Não pensemos que já fizemos o suficiente. Na realidade, não temos feito nada ainda.

O evangelho é uma palavra para todos; também para a igreja. É claro que ela precisa ouvir sempre o evangelho e ser renovada por ele. Quando o evangelho não está no centro da vida da igreja, ela escorrega para o legalismo ou para a impiedade. Estas são as duas tentações mortais que espreitam à igreja. Vemos isto nas sete igrejas da Ásia em Apocalipse. Martyn Lloyd-Jones, em um dos seus livros, diz que todo avivamento começou quando a igreja redescobriu o evangelho.

No entanto, o evangelho não é em primeiro lugar para nós, mas para aqueles que nunca ouviram. Nos regozijamos ouvindo-o; mas se ele não for anunciado lá fora, para que serve? Deus nos encarregou o glorioso evangelho de Cristo, para que sejamos testemunhas em todas as nações. Portanto, quando ele nos dá o evangelho, é para que o levemos para outros que nunca ouviram sobre ele.

As inescrutáveis riquezas de Cristo

«…foi dada esta graça de anunciar o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo» (Ef. 3:8). «Inescrutáveis». Maravilhosa palavra! Não creio que haja outra palavra para descrever aquilo que o torna único, que não se parece com nada neste mundo: «as inescrutáveis riquezas de Cristo».

A palavra «inescrutável» indica algo tão profundo, que por mais que adentremos nisso, nunca chegaremos ao fundo. Também significa «insondável». Não se pode medir a sua profundidade. Cremos que conhecemos o evangelho, mas sabemos muito pouco dele; ainda estamos parados na margem. A palavra inescrutável é também «inesgotável». O evangelho é um tesouro inesgotável de riquezas que estão a nossa disposição.

As riquezas de sua graça

Efésios é a carta onde Paulo expõe com maior amplitude a revelação que recebeu de Cristo e a igreja, a visão celestial. Mas ele avança alguns versículos e retoma o evangelho. Em Efésios 1:7 diz: «…em quem temos a redenção por seu sangue, o perdão dos pecados, segundo as riquezas de sua graça». E aqui está o tesouro, o cofre inesgotável do evangelho.

Mais adiante nos fala das riquezas da misericórdia de Deus. Em seguida trata das riquezas da glória de Deus, e em Romanos 11:33 diz que além disso o evangelho contém «as riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus», riquezas insondáveis e inesgotáveis.

«Graça» é uma palavra explicada como o favor imerecido de Deus. A fonte de sua graça é o seu amor. Ele nos ama incondicionalmente, e por isso, capacita-nos e nos abençoa, não por nossos méritos.

Vivemos em uma sociedade que exalta os méritos humanos. O mundo avalia no trabalho o nosso desempenho. Se alguém for bom nisso, irá crescer. Mas a graça de Deus não é dada em virtude de nosso bom desempenho. Deus nos dá porque nos ama. E nos amou dando o seu próprio Filho para nos fazer dignos de viver em sua presença. Não por nossa justiça, mas pelos méritos e a justiça de Cristo.

Portanto, não viva mais dependendo dos seus méritos, da sua obediência ou seu desempenho para com Deus. Não pense que por sua obediência de hoje, Deus te ama mais, ou, porque não obedeceu tanto, Deus te ama menos. Não é assim; de outra maneira, já não seria graça.

Deus tem riquezas inesgotáveis de graça para nós. Crês que já gastou muito dessa graça? Já recorreu muito ao sangue de Cristo? O seu sangue sempre está vigente, porque a sua graça nunca se esgota. Bendito seja o Senhor! O amor de Deus não se esgota; é insondável, infinito e inesgotável.

As riquezas de sua glória

«…para que vos dê, conforme às riquezas de sua glória, o serem fortalecidos com poder no homem interior por seu Espírito» (Ef. 1:18; 3:16). No evangelho temos as riquezas da graça de Deus e também as riquezas de sua glória. A glória é outra palavra difícil de definir; mas tentemos descrevê-la.

O evangelho nos dá acesso às riquezas da glória de Deus. Em grego, a palavra glória é doxa, que significa resplendor. 1 Coríntios 15 afirma que uma estrela é diferente de outra em glória, quer dizer, em luminosidade ou brilho. A glória tem a ver com o que algo ou alguém projeta. A glória de Deus é a projeção de quem ele é. Quando se dá a conhecer a si mesmo, ele revela a sua glória. Ao vermos o Senhor, contemplamos a sua glória. Tal é o sentido da palavra grega.

Mas a palavra hebraica, kabod, é ainda mais interessante. Seu significado é «peso» ou gravidade. Às vezes nós dizemos: «Esta pessoa tem pouco peso; é leviana», se referindo a alguém superficial ou com pouca sabedoria, ou falto de caráter. Esta ideia nos aproxima um pouco ao conceito hebreu.

O peso é o impacto que um objeto exerce em seu entorno. Na física, o peso é um valor relativo que tem a ver com a massa de um corpo e a força de atração que exerce sobre outros. Por exemplo, o sol exerce tal força de atração que obriga que os planetas girem em torno dele. Quanto maior é um corpo, mais força de gravidade terá, e, portanto, mais influência sobre os objetos que o rodeiam.

Imaginem um objeto cuja massa é infinita, de um peso incalculável. Se este entrasse na dimensão humana, faria que tudo se inclinasse forçosa e irresistivelmente para ele. Assim é a glória de Deus.

Nós, por causa do pecado, vivemos presos em «nosso eu» como centro de gravidade. Este tem tal «peso», que obriga que todo o resto gire em torno dele. Nossas ideias, nossas decisões, nossos desejos e sentimentos, tudo o que é nosso, é mais importante que todo o resto. Não é assim?

A terrível força de gravidade do eu faz que todo o universo gire em torno de nós, ou ao menos gostaríamos que fosse. Esse é o efeito do pecado. Mas quando a glória de Deus se mostra, algo imensamente maior entra em cena, pois a palavra glória em hebreu não só significa peso, mas relevância.

Isaías 6. «No ano que morreu o rei Uzias eu vi ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as orlas do seu manto enchiam o templo. Por cima dele havia serafins... E um falava ao outro, dizendo: Santo, santo, santo, Jehová dos exércitos; toda a terra está cheia de sua glória». A terra está cheia do seu peso, de sua grandeza inimaginável. Tão imensa é essa glória, que quando a glória do Deus todo-poderoso se faz presente, o resto perde o seu valor.

Isaías, um homem pecador como nós, pensando que seu eu é o mais importante do universo, diante da visão da glória de Deus, fica reduzido a nada e exclama: «Ai de mim, que sou morto!».

Nada nem ninguém no universo pode evitar o poder e o peso dessa glória. Até os serafins, os mais poderosos dos seres criados, cobrem os seus rostos, e caem rendidos aos seus pés. «Santo, santo, santo, Jehová dos exércitos; toda a terra está cheia da sua glória». E o evangelho nos comunica essa glória.

«Porque Deus, que mandou que das trevas resplandecesse a luz, é o que resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo» (2 Cor. 4:6). Quando a Sua glória se manifesta, até os mais orgulhosos são reduzidos ao pó. Paulo, o orgulhoso fariseu que perseguia à igreja para levá-la a morte, caiu como morto quando a glória do Senhor resplandeceu sobre ele.

O evangelho nos revela as riquezas insondáveis da glória de Deus. Por isso os serafins cantam: «Santo, santo, santo». Eles estão cheios de olhos por dentro e por fora, só para contemplar a plenitude da glória divina, e vendo-a, declarar sua infinita distinção com respeito a todo o resto: «Santo, santo, santo».

As riquezas de sua misericórdia

«Mas Deus, que é rico em misericórdia, por seu grande amor com que nos amou, mesmo estando nós mortos em pecados, deu-nos vida junto com Cristo» (Ef. 2:4-5).

A graça é o amor de Deus quando é derramada sobre aqueles que não o merecem. Mas a misericórdia é a compaixão por aqueles que estão em extrema fraqueza, angústia ou necessidade, e são impotentes para fazerem nada por si mesmos. Deus estende o seu amor aos que não podem fazer nada. E a Escritura diz que o evangelho tem riquezas inesgotáveis de misericórdia.

Deus é rico em misericórdia, em compaixão. Isto é o evangelho. Paulo fala de «conhecer o amor de Cristo, que excede a todo conhecimento» (Ef. 3:19). Ao conhecer esse amor, somos transformados por ele.

 «Porque o amor de Cristo nos constrange pensando isto: que se um morreu por todos, logo todos morreram» (2 Cor. 5:14). Isto constrange nossas entranhas, e não nos deixa dormir. É o amor que leva os homens a gastarem a sua vida por Cristo; não é um sentido de obrigação, nem o temor nem a ameaça, mas o amor de Cristo que fez com que Paulo gastasse a sua vida até a morte pregando o evangelho. Se não o fizermos, se não houver paixão pelos perdidos, é porque desconhecemos o amor de Cristo.

O grande missionário Hudson Taylor levou o evangelho ao interior da China em um tempo em que ninguém se atrevia a entrar lá. Quando o Senhor o estava preparando para essa obra, foi explorar primeiro a região e em seguida voltou para a Inglaterra. E relata em sua autobiografia:

«Um dia fui convidado para uma reunião da igreja onde eu me reunia. A presença do Senhor se manifestou e os irmãos se alegravam ouvindo a Palavra. Mas meu coração se partia por dentro e não o suportei mais. Saí dali e fui caminhar pela praia, pensando nos milhões de chineses que hora após hora partiam deste mundo para a perdição eterna. E nesse lugar fiz minha decisão; consagrei-me para a obra de minha vida. E disse: Senhor, aconteça o que acontecer, custe o que custar, venha o que vier, eu irei a China para pregar o teu evangelho». E assim fez. A terra da China se abriu para o evangelho de Jesus Cristo.

Que o Senhor nos leve a pregar onde nunca nos atreveríamos a ir, só porque o amor de Cristo nos constrangeu e nos enviou.

Síntese de uma mensagem ministrada em Rucacura (Chile), em janeiro de 2019.

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