O poder do evangelho

Como Deus opera em consonância com a pregação de sua igreja.

Marcelo Díaz

"Como a água fria para a alma sedenta, assim são as boas novas de longínquas terras” (Prov. 25:25).

Abrimos o nosso coração em gratidão ao Senhor pela salvação que nos trouxe através do evangelho. «Novas de grande alegria», é o anúncio de Lucas 2:10, porque o evangelho é libertação; é uma boa nova que veio do céu, uma notícia formidável que satisfaz a alma sedenta e necessitada.

Esta é a notícia da nossa libertação. Por meio do evangelho, somos livres. Não só de nossos pecados, mas livres de nossas angústias e frustrações. O evangelho é salvação integral para o homem. Não é um conhecimento nem uma informação, mas uma Pessoa: Cristo, nosso Libertador.

Poder que liberta

O evangelho nos permite sair do centro da nossa atenção, dos nossos conflitos, da nossa história, e nos dá liberdade para julgar as situações da mente de Cristo. Por isso o Senhor diz: «Conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres» (João 8:32). Esta realidade nos fará livres, inclusive para julgarmos a nós mesmos, reconhecendo quão pobres, insignificantes e ruins somos.

Paulo diz: «Eu sou o menor dos apóstolos» (1 Cor. 15:9). Mas a ele, «como a um abortivo», o Senhor lhe incumbiu de levar as boas novas e de revelar o mistério da salvação: «Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro» (1 Tim. 1:15).

O evangelho nos liberta e nos dá a capacidade de sermos pessoas equilibradas e julgar as coisas conforme às verdades eternas de Deus. Podemos ver que somos produto de uma cultura errada, sem Deus; podemos julgar nossos equívocos, porque somos homens livres.

O evangelho nos liberta das nossas torturas internas, das nossas frustrações, das histórias amargas que perturbam a alma. Que boa notícia! Somos livres da culpa, livres da vergonha e do temor.

Nossas frustrações começaram na Gênesis, com uma ação equivocada. «E viu a mulher que a árvore era boa para comer, e que era agradável aos olhos, e árvore cobiçável para alcançar a sabedoria; e tomou do seu fruto, e comeu; e deu também ao seu marido, o qual comeu assim como ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; então costuraram folhas de figueira, e fizeram aventais para si» (Gên. 3:6-7).

Antes, em Gênesis 2:25 lemos: «E ambos estavam nus, Adão e sua mulher, e não se envergonhavam». Ou seja, em seguida entrou a vergonha, e a tortura psicológica que provoca a vergonha que é incrível.

Como um sentimento de vergonha pode deformar a personalidade humana! E quem pode terminar com isso? Anos de terapia, de assistência e de aconselhamento? Não. Só o evangelho. Basta lembrar das nossas próprias vergonhas, nesse quarto escuro que nos atormenta e nos deprime, do qual Satanás anota e nos acusa. Mas o evangelho é liberdade!

«E ouviram a voz de Jehová Deus que passeava no jardim, ao ar do dia; e o homem e sua mulher se esconderam da presença de Jehová Deus entre as árvores do jardim. Mas Jehová Deus chamou o homem, e lhe disse: Onde tu estás? E ele respondeu: Ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e me escondi» (Gên. 3:8-10).

O temor paralisa e obstaculiza o desenvolvimento pessoal. O medo traz depressão e angústia, e então idealizamos defesas e fazemos coisas para construir algo próprio, a fim de que outros nos aceitem. Mas o evangelho termina com tudo aquilo, porque ele é poder de Deus.

Muitos jovens de hoje vivem cheios de timidez; não se atrevem a falar, sofrem temores interiores. Quem colocou isso em seus corações? É difícil para eles expressar uma ideia, por causa do sentimento de ridículo, de vergonha e de medo. Jovem, tenha consciência disso: pelo evangelho, és livre, para expressar a Cristo.

«E Deus lhe disse: Quem te ensinou que estavas nu? Comeste da árvore de que eu te mandei que não comesse? E o homem respondeu: A mulher que me deste por companheira me deu da árvore, e eu comi» (Gên. 3:11-12). A culpa traz esta atitude de evitar as responsabilidades.

A culpa é uma tortura de todos os dias. Há pessoas que constroem a sua personalidade a partir dela, e por tudo se sentem culpados; e por isso são agressivas, em sua ânsia por defender-se. Lembre-se, o Senhor nos libertou da culpa, pelo evangelho. São novas de grande alegria. O evangelho é nossa libertação.

Paulo se sentia prisioneiro disto, porque ele tinha açoitado à igreja e não se sentia digno de ser chamado apóstolo. Mas o Senhor o comissionou a falar, e ele se sentia comprometido, e fez desta mensagem a sua vida, ao ponto que a mensagem e o mensageiro chegaram a ser uma só coisa.

Deus respalda a sua Palavra

Toda vez que se proclama o evangelho, o Senhor se compromete com a mensagem, porque ele é a própria Palavra, o Logos, o anúncio. Deus mesmo respalda essas palavras, e torna presente a glória de seu Filho. Não é meramente falar a respeito de Cristo, dos seus ensinos e dos seus valores. Ele é o evangelho.

Notem como Paulo escreve aos irmãos em Éfeso, muito tempo depois da manifestação do Senhor. Eles não tiveram a oportunidade de ver e conhecer Jesus face a face. Mas, através do evangelho, conheceram que Jesus é uma realidade.

«Mas vós não aprendestes assim a Cristo…» (Ef. 4:20). Não diz «de Cristo», como se fosse uma história, mas «a Cristo», a uma pessoa. «…se na verdade o tendes ouvido, e fostes por ele ensinados» (V. 21). É o próprio Cristo que se faz presente pelo evangelho.

«E todos os dias, no templo e pelas casas, não cessavam de ensinar e pregar a Jesus Cristo» (Atos. 4:42). Não diz «de Jesus Cristo», ou a respeito de Jesus Cristo. Isto é algo sobrenatural. Que loucura! Diz Paulo: «Agradou a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação» (1 Cor. 1:21). Quer dizer, no anúncio do evangelho, Cristo se faz presente, porque ele é um com a mensagem. Que maravilha!

«Oh insensatos gálatas! Quem vos fascinou para não obedecer à verdade, a vós ante cujos olhos Jesus Cristo foi já apresentado claramente entre vós como crucificado?» (Gál. 3:1). Como foi apresentado? Quem o apresentou? O evangelho. Paulo levou o evangelho, apresentou a Jesus Cristo, e Cristo se fez presente como crucificado. O evangelho é morte e é também ressurreição.

«Além disso vos declaro, irmãos, o evangelho que vos preguei, o qual também recebestes, no qual também perseverais; pelo qual do mesmo modo, se retiverdes a palavra que vos preguei, sois salvos, se não crestes em vão» (1 Cor. 15:1-2). Atentemos as três palavras: «o qual recebestes» (o Senhor Jesus Cristo é recebido); «no qual perseverais» (no evangelho se persevera); «se retiverdes a palavra» (o evangelho se retém). Não é apenas um anúncio; é necessário receber, perseverar, guardar e reter o depósito.

Morte e ressurreição

«Porque primeiro vos ensinei o que também recebi: Que Cristo morreu por nossos pecados, conforme às Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, conforme às Escrituras» (1 Cor. 15:3-4). Isto é o evangelho: morte (cruz) e ressurreição; uma bendita realidade.

A conversão é muito mais que uma segunda oportunidade que alguém dá a si mesmo para mudar a sua vida; é que Outro começa a viver em alguém, e chega a curar a alma e até o corpo. O evangelho leva uma semente de vida, de morte e de ressurreição. E vivemos sempre nessa constante. O evangelho é uma vida contínua que flui permanentemente a ressurreição de vida, até que Cristo apareça nos céus. Que boa notícia! Graças a Deus, porque o evangelho é a pessoa do Senhor depositada em nós. Ele se faz presente e vive em nós.

A dádiva de Deus

O evangelho também é graça; é um presente imerecido, uma dádiva. Quando alguém recebe um presente, alegra-se. Deus deu de presente a seu Filho. Por graça, ele pôs a vida de seu Filho em nós. Nós alcançamos essa graça por meio da fé. «Porque pela graça sois salvos por meio da fé; e isto não vem de vós, pois é dom de Deus … para que Cristo habite pela fé em vossos corações» (Ef. 2:8; 3:17).

Alguém pode pensar que a sua fé é muito pequena. «Se tiveres fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passe daqui para lá, e se passará; e nada vos será impossível» (Mat. 17:20). Um pouco de fé é suficiente para que a realidade celestial se deposite em você. Mas se alguém não tem fé, também há uma solução para isso: «Assim que a fé é pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Deus» (Rom. 10:17). O anúncio é tão potente que, mesmo que não haja fé e mesmo que a mensagem seja resistida, ele produz fé em nosso interior. E essa fé nos conecta com a graça que se transborda através do evangelho.

Evangelho e autoridade

O evangelho é graça; mas também é autoridade. «Arrependei-vos, porque o reino dos céus é chegado» (Mat. 3:2). O reino dos céus é o governo de Deus. «Quão formosos são sobre os montes os pés do que traz alegres novas, de que anuncia a paz, de que traz novas do bem, daquele que publica salvação, daquele que diz a Sião: Teu Deus reina!» (Is. 52:7).

O evangelho é o governo de Deus que deve solucionar um problema crucial, porque todos nós nascemos com a semente da rebelião. Em Gênesis capítulo 3 vemos como fomos danificados na essência da nossa natureza. Somos rebeldes por natureza. Nos desenvolvemos de alguma forma em um mundo perverso, nos opondo uns aos outros, procurando meios agressivos para nos acalmar.

No entanto, o anúncio do evangelho de Deus resolve o conflito desta rebelião interior, porque o evangelho é também autoridade. Deus reina. Não é o homem com suas emoções, sua vontade ou seus pensamentos. O Senhor reina. E nessa verdade, o evangelho vai transformando.

Na igreja, para perseverarmos no evangelho, necessitamos de referências de autoridade. É saudável e equilibrado; ninguém que chega ao evangelho é livre de tal referência. Se não tiver, preocupe-se e busque. É necessário, porque você, por definição, é rebelde.

O evangelho guia os homens ao arrependimento. Tal foi a mensagem de Paulo em Atenas, no centro da sabedoria do mundo. «Deus, tendo passado por cima dos tempos desta ignorância, agora manda a todos os homens em todo lugar, que se arrependam» (Atos. 17:30), porque isto é o reino de Deus.

A autoridade e a sujeição a ela são conceitos chaves para perseverarmos no evangelho. A Escritura está cheia dessas instruções. «Submetei-vos uns aos outros no temor de Deus» (Ef. 5:21). Todos nos regulamos, nos equilibramos uns com os outros. As esposas, os maridos, os filhos, os irmãos. Na igreja e na família está provida a autoridade espiritual viva, equilibrada e saudável.

Na atual realidade, há quem prega pura autoridade. São legalistas, e maltratam os irmãos, os filhos e às famílias. É uma equivalência equivocada, incorreta. A autoridade segundo Deus é de vida, de serviço, de amor e de colaboração. Não é autoritarismo; não é abuso de autoridade. Isso não é o reino de Deus. O evangelho é vida, e faz de nós pessoas equilibradas.

Evangelho e poder

O evangelho também é poder. Isto é maravilhoso. Mas «não depende de quem quer, nem de quem corre, mas de Deus que tem misericórdia» (Rom. 9:16). A única coisa que fazemos é proclamá-lo; então o Senhor se faz presente e o poder de Deus começa a operar.

«Recebereis poder, quando tiver vindo sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas» (Atos. 1:8). «E estes sinais seguirão aos que creem» (Mar. 16:17). O que é o poder? «Eu não posso, mas Deus pode». É o poder de Deus, o poder transformador.

«Porque Deus, que mandou que das trevas resplandecesse a luz, é o que resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo» (2 Cor. 4:6). Isto nos leva a Gênesis 1:2-3. «E a terra estava desordenada e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz».

«E disse Deus: Haja luz… Deus mandou que das trevas resplandecesse a luz». É o poder de Deus, que cria, que transforma, que do nada faz tudo. Esse Deus é o que «resplandeceu em nossos corações para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo» (2 Cor. 4:6).

Se anunciarmos o evangelho, o poder criador de Deus opera na mensagem, porque o próprio Cristo, que é a Palavra pela qual foram feitas todas as coisas, está operando. A única coisa que temos que fazer é anunciar, e então a autoridade de Deus opera fazendo novas todas as coisas.

O desejo dos anjos

«Os profetas que profetizaram da graça destinada a vós, inquiriram e diligentemente indagaram a respeito desta salvação... A estes foi revelado que não para si mesmos, mas para nós, ministravam as coisas que agora vos são anunciadas pelos que vos pregaram o evangelho pelo Espírito Santo enviado do céu; coisas nas quais desejam os anjos atentar» (1 Ped. 1:10, 12).

A palavra grega traduzida aqui como «atentar» é: «observar com o pescoço estendido». Os anjos, sendo maiores em poder e autoridade, desconhecem essas coisas que nos foram encarregadas. Eles queriam ver os mistérios da salvação. E então, diante do trono de Deus, eles levantam o pescoço para olhar as glórias que virão através da igreja.

As hostes angélicas desejam ver as maravilhas e milagres que Deus fará toda vez que preguemos o evangelho. «Digo-vos que assim haverá mais gozo no céu por um pecador que se arrepende, que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento» (Luc. 15:7).

Há festa no céu; os anjos celebram e louvam a Deus mais e mais quando veem o mistério da salvação, quando a igreja anuncia o evangelho e Deus entra em ação.

Paulo diz que nos tornamos espetáculo aos anjos. Então, quando você fala o evangelho a seus vizinhos ou aos seus parentes, e prega a Cristo, há uma espera celestial. E como o evangelho é poder de Deus, o próprio Deus se comprometerá com a presença de seu Filho e, em sua graça e em seu poder, fará um milagre naquelas pessoas. Bendito seja o Senhor!

O irmão Watchman Nee foi um homem que ultrapassou a muitos em conhecimento, em exemplo de serviço e de amor ao Senhor. Seus ensinos foram fonte de inspiração para a restauração da igreja em muitos lugares da terra. Quando ele morreu, com um conhecimento tão pleno do Senhor, em sua cela foi encontrado um papelzinho que dizia assim: «Jesus é o Filho de Deus que morreu por nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia. Esta é a verdade mais gloriosa do universo. Morro por minha fé em Cristo».

Assim ele resumiu tudo o que falou, tudo o que escreveu e ensinou. «Esta é a mensagem mais glorioso do universo». Irmãos, falemos do Senhor em qualquer lugar que ele nos leve. Amém.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em Rucacura (Chile), em janeiro de 2019.

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