Participando do evangelho

A experiência plena do evangelho na vida de Paulo.

Cristian Cerda

"A mim, que sou o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo" (Ef. 3:8).

Uma linguagem superlativa

A carta aos Efésios expressa as realidades gloriosas e eternas do evangelho com uma linguagem superlativa, uma linguagem que vai enchendo o coração dessa grandeza. É como quando contemplamos as maravilhas da natureza e ficamos impactados e nos sentimos tão pequenos.

Ela nos ensina que fomos predestinados para a adoção de filhos de Deus, Paulo diz: «para louvor da glória de sua graça» (Ef. 1:6). Poderia ter dito: «para a sua glória», «para louvor da sua graça», ou «para glória da sua graça», e ficaria claro. Mas ele o expressa dessa maneira superlativa.

«…iluminando os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança a que ele vos chamou, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos» (Ef. 1:18). Se apenas dissesse: «e qual é a sua herança nos santos», com isso entenderíamos ao que está se referindo. Mas é uma linguagem grandiosa que trata de expressar uma realidade para a qual não basta apenas um qualificativo.

«…e qual a sobre-excelente grandeza do seu poder…» (Ef. 1:19). O termo «grandeza» vem de mega. Daí vem a expressão «megamercado», que é algo maior que um supermercado ou um hipermercado. Paulo quer que seja iluminado o nosso entendimento não para compreender algo pequeno, mas algo muito grande.

E em seguida usa a palavra dynamis, «poder», que já é algo grande, como quando em Atos 1:8 diz: «Recebereis poder». Já é uma palavra ampla, mas Paulo está colocando as coisas em uma medida superlativa, não para aumentar algo que não seja, mas para nos mostrar algo que tem tal grandeza que ultrapassa totalmente e não existem palavras capazes de expressá-la.

Isto é como quando as crianças estão aprendendo o conceito de quantidade. Havia em meu colégio uma garotinha que estava como esperando por algo, e lhe perguntei: «O que quer, filhinha?». Respondeu: «É que me falta uma moeda». Então quis ver se ela sabia quantificar. Eu tinha uma moeda de 500 pesos e três de 100 pesos, que eram maiores, e lhe dei para escolher. Ela pegou a de 500 pesos. Então disse-lhe: «Olhe, vou te dar de presente essas outras três moedas». Ela me disse: «Não». «E por que não?». «Porque com esta compro mais que com essas três».

Outro exemplo. Ao estudarmos as potências de 10, se dissermos 10 elevado a 3 por 10 elevado a 3, o número começa a ampliar-se até um ponto que, matematicamente, não conseguimos compreender. Têm grande quantidade de zeros. Já no sexto zero, no milhão, perdemos a consciência daquilo, porque excedeu, ultrapassou a nossa capacidade.

Agora, Paulo está falando de algo extremamente grande. É grande, maior que o mais grande. É algo tão grande e majestoso que não sabe como expressá-lo e pô-lo no coração de todos. Os primeiros capítulos de Efésios têm esta linguagem superlativa. O termo «riqueza» aparece em cinco ocasiões. Tudo é riqueza, tudo é glória.

Riquezas inesgotáveis

Quando o apóstolo fala do evangelho, usa a palavra «inescrutáveis», que aparece duas vezes no Novo Testamento: em Efésios 3:8 e em Romanos 11:33. É a ideia de algo que não se pode esgotar nem se pode conhecer em sua profundidade. Fica sempre algo para conhecer. Surpreso de como Deus opera, Paulo exclama: «Oh! Profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os teus juízos, e inescrutáveis os teus caminhos!».

Quando os homens mais ricos do mundo são catalogados, é mencionado uma enorme quantidade de milhões de dólares, sendo exposto de uma maneira compreensível, dizendo: «Com isto se pode fazer tal quantidade de coisas». Pode-se quantificar, pode-se dizer: «Chega até aqui», ou «Não é mais que isto». Agora, imaginemos alguém que tem tanto, que ao dimensioná-lo, tem mais e mais, e não se esgota, porque é muito vasto. Excede-nos, não há como representar a magnitude do que possui.

Por que o buscador de Internet se chama Google? Há um número tão grande que se expressa com 10100. Esse número se chama googol. Nenhuma quantidade na natureza chega a tal magnitude. O buscador foi chamado de Google porque chegaria a ter essa quantidade de informação. É um número gigantesco, mas tem um limite. No entanto, ao falarmos do evangelho, Paulo indica que este não se esgota; é muito rico.

Às vezes, nós pensamos que o evangelho é apenas para os incrédulos. Mas Paulo diz para nós: «Mas se o nosso evangelho ainda está encoberto, entre os que se perdem está encoberto; nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus» (2 Cor. 4:3-4).

Quando nós cremos no Evangelho, quando o recebemos, quando somos iluminados, quando o confessamos e ele começa a inundar a nossa vida, isso não fica só ali, mas começa a abrir-se e a abrir-se sem fim. É imperioso falar do evangelho à igreja, porque ele contém as riquezas de Cristo.

Paradoxos do evangelho

Paulo escreveu esta carta na prisão. Isto é extraordinário. Por que como um homem privado de liberdade pôde falar dessa maneira? Paulo usa uma linguagem que, ao lermos, o que menos entendemos é como ele pôde fazê-lo em tais circunstâncias.

Há um Salmo que produz em nós a mesma surpresa. «Louvar-te-ei entre os povos, Oh! Senhor; cantarei de ti entre as nações. Porque grande é até os céus a tua misericórdia, e até as nuvens a tua verdade» (57:9-10). Ao escrevê-lo, Davi estava em uma caverna, perseguido por Saul e temendo por sua vida. E há uma expressão de glória que não coincide com aquilo, porque a riqueza do evangelho transforma a vida.

Quaisquer que sejam as circunstâncias, a riqueza do evangelho é poderosa para que honremos ao nosso Senhor Jesus Cristo. A título de exemplo, vejamos 2 Coríntios 8. «Do mesmo modo, irmãos, vos fazemos saber a graça de Deus dada às igrejas da Macedônia; que em grande prova de tribulação, a abundância do vosso gozo e vossa profunda pobreza abundaram em riquezas de sua generosidade» (V. 1-2).

Paulo se refere não só a um crente, mas a várias igrejas em uma região, em todas as quais há uma medida de graça. É interessante apreciar como ele conseguia ver essa graça. Notemos a linguagem que ele usa, e o paradoxo dele.

«…em grande prova de tribulação». Não é apenas uma prova, mas «prova de tribulação» e mais ainda: «grande prova de tribulação». O que menos vemos aqui é alegria. E nessa enorme prova, Paulo destaca: «a abundância do vosso gozo». Ou seja, onde há grande prova de tribulação, a graça provoca não só gozo, mas abundância de gozo.

«…e a sua profunda pobreza». Onde há necessidade e extrema pobreza, o que menos acharemos é generosidade. E Paulo acrescenta: «A graça de Deus que é dada às igrejas… em sua profunda pobreza abundaram em riquezas de sua generosidade». Como aqueles que estavam em dificuldades puderam ter abundância de gozo, e aqueles que estavam em profunda pobreza tiveram riquezas de generosidade?

A graça

A resposta está um pouco mais adiante. Não é uma virtude humana, porque quando alguém está em dificuldade, é óbvio que não sente alegria. O versículo 9 dá a resposta. «Porque já conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que por amor se fez pobre, sendo rico, para que vós com a sua pobreza fossem enriquecidos». Eles conheceram essa graça.

Agora, quem não sabe que Cristo se fez pobre por amor a nós? O mais provável é que todos saibamos. Então por que não opera em nós aquela graça que operou nos irmãos da Macedônia? Sim, sabemos; mas o problema é só uma palavra: «Já conheceis…».

O verdadeiro conhecimento

O que significa conhecer? No mundo ocidental, conhecer é ter informação a respeito de algo. Mas na Escritura, conhecer não é só isso. De fato, a palavra conhecer, no hebraico do Antigo Testamento, é usada, por exemplo em Gênesis 4:1. «Conheceu Adão a sua mulher Eva», e em Gênesis 4:17: «E conheceu Caim a sua mulher».

Conhecimento nas Escrituras não é limitado ao pensamento, mas vinculado a uma experiência com aquilo que se conhece. Após você ter essa experiência poderá dizer: «Conheço».

O povo de Israel conhecia e cumpria os ritos e os sacrifícios; mas quando o profeta tinha que lhes falar, repreendeu-os porque eles praticavam os ritos, mas não tinham uma experiência de intimidade com Deus. «Os sacerdotes não disseram: Onde está Jehová? e os que tinham a lei não me conheceram; e os pastores se rebelaram contra mim, e os profetas profetizaram em nome de Baal, e andaram atrás do que não se aproveita» (Jer. 2:8).

Mai um exemplo. Quando o anjo anuncia a Maria que dará à luz um menino, ela diz: «Como será isto? Já que não conheço varão» (Luc. 1:34). Não é que ela nunca tinha visto um homem, mas ela não conhecia em intimidade, a experiência de ser uma com um homem.

Experimentando a Cristo

Quando Jesus diz: «Conhecereis a verdade» (João 8:32), está dizendo exatamente o mesmo. Eles seriam um com a verdade, a experimentariam. Neste sentido, há um risco para nós, porque estamos em uma sociedade do conhecimento, mas não na perspectiva bíblica, mas como uma capacidade de reter informação, e quanto mais informação temos, podemos obter mais benefícios para nós.

O conhecimento, na Escritura, está vinculado à experiência; não é saber a verdade, é experimentar a verdade. Não é que eu saiba que, por amor, o Senhor se fez pobre; é que experimentei aquilo, vivi, tenho-me feito um com ele.

A experiência das igrejas na Macedônia neste sentido foi tão forte que eles começaram a dar e a dar, e Paulo teve que pará-los. Porque tinham experimentado a verdade, «dou testemunho de que espontaneamente deram conforme as suas forças, e até além das suas forças, nos pedindo com muitos rogos que vos concedêssemos o privilégio de participar deste serviço para os santos» (2 Cor. 8:3-4).

O conhecimento que o evangelho dá é transformador, porque nos faz experimentar a Cristo. Há alguém que possa experimentar a Cristo e ficar como estava antes? Mas é possível que fiquemos apenas com a experiência anterior, com tantos acampamentos por vários anos, e com as primeiras experiências que transformaram a nossa vida.

A descida à glória

Se não tivéssemos conhecido a Cristo nossa vida não teria sentido. O que nos falta agora experimentar? Eu creio que há uma resposta, e vou me aventurar, na graça do Senhor.

A carta aos Filipenses mostra uma tripla descida de Cristo à glória, como em uma escada. Primeiro, ele «não estimou o ser igual a Deus como coisa a que aferrar-se» (2:6). Sem deixar de ser Deus, ele assumiu por completo a nossa humanidade. Ele é Deus e é também homem; ele é homem, e é Deus conosco.

O segundo degrau é que, «estando na condição de homem (já desceu, já se despojou, já se aniquilou, fez-se nada), humilhou-se a si mesmo», optou também por humilhar-se. Ele não tomou as suas próprias decisões, não agiu independentemente de Deus. E o terceiro degrau foi a morte, «fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz» (v. 8).

A experiência de Paulo

1. O despojamento de si mesmo

Sigamos este esquema na vida de Paulo. Como ele assume esses três degraus? É obvio, nenhum de nós obtém uma compreensão cabal deste despojamento, mas pelo menos algo acontece em nós ao experimentarmos esta verdade. E vejamos o que aconteceu com Paulo.

«Embora eu tenho também do que confiar na carne. Se alguém pensa que tem do que confiar na carne, eu mais» (Flp. 3:4). E então dá uma lista daquilo que para um judeu era valioso: «circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível» (V. 5-6). Mas ele experimentou a verdade, experimentou algo das inescrutáveis riquezas de Cristo.

Quando você pergunta a um incrédulo: «O que você é?», te dirá: «Bem, eu sou professor, estudei em tal universidade, fiz tais pós-títulos, tenho  Mestrado». Isso define à pessoa. Um crente pode dizer: «Eu sou um escravo de Cristo». «Mas o que você faz?». «Sirvo a Cristo». «Sim, mas o que estudou?». «Ah, o que estudei não define o que sou. O que sou é o meu Senhor quem define». Viram a diferença?

2. Renunciando a tudo

Mas Paulo não fica ali e baixa para um segundo degrau. «E certamente, também estimo todas as coisas como perda por amor de Cristo…» (V. 8). Ele já tinha estimado o que concernia a sua linhagem como perda. A que está se referindo com «todas as coisas»?

Agora, se Paulo fosse nos descrever o seu serviço, deixaria todos nós muito pequenos. Ele sofreu penalidades, foi feito prisioneiro, enfrentou um naufrágio por causa de Cristo. Provavelmente diria: «Renunciei a tudo, mas o Senhor me deu recursos, permitiu-me viajar, deu-me possibilidades de escrever». Mas creio que aqui ele se refere ao segundo degrau: «…estimo todas as coisas como perda».

O Senhor pode ter feito muito através do seu serviço; mas a honra e glória é sempre para ele. Ele te usou, e você pode contar tantos fatos. Paulo diz aos Coríntios: «O que falo não o faço segundo o Senhor, mas como por loucura, nesta confiança de me gloriar. Visto que muitos se gloriam segundo a carne, também eu me gloriarei…» (2 Cor. 11:17-18). Ele não se gabava de tudo o que o Senhor fazia por meio dele, porque inclusive isso ele estimava como perda, «para ganhar em Cristo» (Flp. 3:8).

3. Gostando da morte

E o terceiro degrau é a morte. «…a fim de conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição, e a participação dos seus sofrimentos –quer dizer, experimentar a Sua morte, morrer como Ele morreu– chegando a ser semelhante a ele em sua morte, se de alguma maneira chegasse à ressurreição dentre os mortos» (Flp. 3:10-11).

Paulo acrescenta: «Não que já o tenha alcançado, nem que já seja perfeito; mas prossigo, para ver se consigo alcançar aquilo para o qual fui também alcançado por Cristo Jesus» (v. 12). Se Deus quiser, Paulo poderá alcançar aquilo para o qual foi alcançado por Cristo – para conhecer a Cristo até na morte.

Versículo 13: «Eu mesmo não julgo já tê-lo alcançado; mas uma coisa faço…». Aqui nos detemos, porque esta: «uma coisa» nos descuidamos. Qual é esta uma coisa? «…esquecendo certamente do que fica para trás». Não é desprezar o que fica para trás, mas considerar que aquilo que fica atrás só consolidou o caminho para o que está adiante.

O que fica atrás são essas experiências, esse conhecimento, essa verdade que experimentamos: mas isso tem que ficar para trás, porque as inescrutáveis riquezas do evangelho de Cristo são tão vastas e insondáveis, que não podemos pensar que já não há nada adiante para obter com respeito a Cristo.

«…e avançando para o que está adiante…». Para Paulo, isto era morrer. Talvez para nós, não. Mas o que está adiante de ti quanto às riquezas de Cristo? Filipenses foi escrita na época das cartas carcerárias. Paulo é libertado da prisão. O livro de Atos já ficou para trás. Precisamos olhar para aquilo que foi um desejo em Paulo, ao qual ele queria projetar-se.

Vemos o terceiro degrau. «Porque eu já estou para ser sacrificado…». Há várias palavras gregas para «sacrifício», mas aqui Paulo escolhe uma muito precisa, a mesma de Filipenses 2:17: «…e ainda que seja derramado em libação». «Porque eu já estou para ser sacrificado, e o tempo da minha partida está próximo. Batalhei a boa batalha, acabei a carreira, guardei a fé» (2 Tim. 4:6-7).

A história diz que o apóstolo morreu decapitado. Deus o tomou para algo, e Paulo viveu até o último dos seus dias para aquilo pelo qual o Senhor o tomou. Amém.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em El Trebol (Chile), em janeiro de 2019.

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