O anúncio aos gentios

O significado do evangelho na vida de Paulo.

Cristian Rojas

“A mim, que sou menos que o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios o evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo” (Ef. 3:8).

É impossível olhar o anúncio do evangelho das inescrutáveis riquezas de Cristo sem considerar quem era este que dizia ser «menos que o menor de todos os santos».

Já ouvimos que Paulo, na carta aos Efésios utiliza muitas expressões que, em nosso idioma, não alcançamos para descrever plenamente a glória do evangelho. A mesma coisa ocorreu com Pedro e João, que tinham estado diante da  própria pessoa do Senhor Jesus no monte da transfiguração. Eles o viram, e essa visão jamais pôde ser apagada dos seus olhos.

O anúncio do evangelho está diretamente relacionado com quem vimos. Pedro, João e outros discípulos tinham visto o Senhor, e esta visão os tinha capturado de tal maneira que eles não podiam deixar de dizer aquilo que tinham visto e ouvido.

Se o Senhor tem posto hoje este encargo no meio dos seus servos, é porque de alguma forma deixamos de anunciar este evangelho. É porque possivelmente aquilo que é pregado hoje, como o próprio Paulo dizia, é «outro evangelho». Paulo exortava aos gálatas lhes dizendo que outro evangelho e até outro Cristo estava sendo pregado.

Tempos perigosos

Hoje vivemos tempos perigosos, embora às vezes o ignoramos. Para nós, estar em Cristo é nosso repouso e nossa paz, e isto é verdade. Mas a Escritura relata que, quando o povo de Israel estava restaurando os muros, com uma mão edificavam e na outra tinham uma espada. Havia uma obra de edificação, mas eles também estavam atentos ao que acontecia ao seu redor.

Parece que hoje só temos considerado aquilo que está dentro da igreja, como os serviços ou os ministérios, esquecendo a necessidade daqueles que morrem sem conhecer a Cristo. O Senhor nos chama a atenção através desta palavra. Há uma necessidade lá fora, e Deus espera que nós sejamos a resposta para este tempo.

Toda obra de Deus vem do céu. Nada de sua obra pode ser levada a cabo se não tivermos os céus abertos. Atos capítulo 2 nos relata como Deus enviou a promessa do Espírito Santo no dia de Pentecostes, dando início à história da igreja. Entretanto, em pouco tempo, a igreja enfrentou tempos angustiosos, porque os crentes foram perseguidos; mas o propósito de Deus não foi detido.

Saulo, perseguidor da igreja

Em Atos capítulo 8, tinham passado quatro ou cinco anos, e parece que o evangelho já não estava mais sendo anunciado. Então aparece Saulo em cena. Ele cresceu em Tarso, uma cidade grega. Aos quatorze anos de idade foi enviado para ser instruído aos pés de Gamaliel. E em seguida, em Jerusalém, Saulo tinha alcançado tal notoriedade, que podia dar seu veredito em relação a aqueles que eram perseguidos.

Estevão morre apedrejado. «E Saulo consentia em sua morte. Naquele dia houve uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram espalhados pelas terras da Judéia e de Samaria, salvo os apóstolos… E Saulo assolava a igreja, e entrando casa por casa, arrastava a homens e a mulheres, e os entregavam na prisão» (Atos 8:1-3).

«Houve uma grande perseguição contra a igreja», mas a perseguição foi como um grande vento que serve para espalhar a semente. A igreja era assolada por causa do evangelho. Saulo perseguia os discípulos, entrava nas casas e os levava para a prisão. No entanto, vemos a resposta da igreja no versículo 4… «Mas os que foram espalhados foram por toda parte anunciando o evangelho».

Se não vermos as dificuldades com os olhos de Deus, poderemos errar. Os irmãos podem ter crido que Deus já não estava com eles; mas eles tinham um só coração, e as aflições e a perseguição foram apenas um instrumento divino para que a igreja recobrasse mais forças para pregar o evangelho.

Considerar as dificuldades com os nossos próprios olhos traz desânimo e divisão. Que Deus nos leve a olhar como ele, para entender os seus propósitos, que são mais altos que os nossos. O inimigo queria destruir à igreja, mas o Deus todo-poderoso era por ela.

«Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, veio ao sumo sacerdote, e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que se achasse alguns homens ou mulheres deste Caminho, e os trouxessem presos a Jerusalém» (Atos. 9:1-2).

A conversão de Saulo

«Mas indo pelo caminho, aconteceu que ao chegar próximo de Damasco, repentinamente lhe rodeou um resplendor de luz do céu; e caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele disse: Quem és tu, Senhor? E lhe disse: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; dura coisa te é dar coices contra o aguilhão. Ele, tremendo e temeroso, disse: Senhor, o que queres que eu faça? E o Senhor lhe disse: Levanta-te e entra na cidade, e te dirá o que deves fazer» (Atos 9:3-6).

Que história impressionante! Por um lado, Saulo vai ao sumo sacerdote terreno para pedir aquelas cartas, de outro lado, o verdadeiro e único Sumo Sacerdote celestial lhe aparece no caminho para Damasco.

Saulo era uma fera descontrolada. Ele respirava ameaças e morte; mas o Senhor se manifestou a ele. Vemos este mesmo relato em Atos 22 e em Atos 26. Que tremenda experiência! Nós não tivemos essa vivência tão traumática. Mas a verdade é que, ao longo deste caminho, desde que cremos no Senhor até hoje, muitas vezes ele teve que sair ao nosso encontro.

Saulo caiu em terra. O evangelho nos humilha; o instrumento que Deus usa nisso é a graça, que nos derruba e nos mostra o que realmente somos. É por isso que, em um momento, Paulo, apesar de ter um histórico tão grande, podia descrever a si mesmo como «menos que o menor de todos os santos». O que levou a Saulo a falar assim, senão essa luz que o cegou?

«…e caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?» (Atos 9:4). O irmão Christian Chen menciona a sete pessoas às quais Deus fez um duplo chamado, repetindo os seus nomes: Abraão, Jacó, Moisés, Samuel, Marta, Simão e Saulo. Todos esses personagens foram um ponto de inflexão na sua época. Em um momento da história, Deus encarrega certas pessoas para mudar um rumo. Assim foi com Abraão, com Samuel, e especialmente com Saulo.

Saulo dá início a uma nova era. Por isso a Escritura registra esta história com tantos detalhes, que também nos servem de ilustração para entender, não só como Paulo anunciava o evangelho, mas como Deus preparou este vaso. Assim também nos preparou ao longo desses anos. Um dia, os servos deixarão de pregar, e só veremos a Cristo e sua igreja gloriosa. Sim, Deus segue trabalhando dia após dia em cada uma das nossas vidas.

«Ele disse: Quem é, Senhor? E lhe disse: Eu sou Jesus, a quem tu persegues» (v. 5). Nosso anúncio é diretamente proporcional a aquilo que vimos. Isto faz que nos perguntemos: Acaso a escassez de nossa proclamação e de nosso anúncio é proporcional a Aquele a quem vimos?

Quando Jesus se manifestou à mulher samaritana, disse-lhe: «Aquele que beber da água que eu lhe der, jamais terá sede» (João 4:14). Por que frequentemente os cristãos têm sede? Por que procuramos outras fontes de satisfação? Pode ser que alguns de nós vemos o próprio «serviço ao Senhor», como um meio de autossatisfação. O serviço ao Senhor não é um fim em si mesmo. O risco de cairmos no ativismo religioso é um mal do nosso tempo.

Que jamais percamos o próprio Cristo de vista como nossa fonte inesgotável!

Separados para o evangelho

O apóstolo escreve: «Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus» (Rom. 1:1). E em Romanos, no final, diz: «E ao que pode lhes confirmar segundo o meu evangelho» (16:25). Com respeito ao seu testemunho, diz que ele foi afastado para o evangelho. E no final da epístola, ele fala do evangelho como algo próprio. Não diz que é o evangelho de Deus, mas sim é «seu» evangelho.

«Porque o amor de Cristo nos constrange, pensando isto: que se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem, já não vivam para si, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2 Cor. 5:14-15). Para Paulo, o evangelho era mais que uma mensagem: era a sua vida, eram seus afetos, o seu pensamento. Antes, a sua respiração eram ameaças e morte; mas logo que Deus saiu ao seu encontro, todo o seu ser foi transformado, assim como foi conosco.

Paulo tinha sido cativado pelo evangelho; esta era a sua devoção. Cristo se tornou tão precioso para ele que não podia contê-lo em seu coração e tinha que anunciá-lo. Vemos que imediatamente ele sai de Damasco e começa a pregar a Cristo. Não precisou ir a uma escola por anos, nem precisou aprender um discurso, pois Cristo era a sua vida.

Padecendo pelo evangelho

Paulo não foi afastado apenas para crescer no meio de um grupo de irmãos. De alguma forma, nós temos um conceito da edificação do Corpo, e tudo isso é verdade; mas revisando a história da igreja desde o seu início, vemos que ela esteve marcada por sofrimentos e perseguições.

Uns irmãos na China diziam que, em vez de orar por eles mesmos, eles estavam orando por nós, seus irmãos do ocidente. Por causa das perseguições, eles continuaram pregando o evangelho. Ao contrário, aqui no ocidente, há igrejas acomodadas, preocupadas com os seus locais, com seus equipamentos musicais e com as suas obras pessoais. E o que acontece lá fora? O que acontece com os nossos vizinhos? O conde Zinzendorf dizia: «A terra que tiver mais necessidade do evangelho, essa é a minha terra».

Olhando para os céus

Paulo jamais esqueceu do seu encontro com o Senhor. Tampouco Pedro e João. Para eles, isso não só foi o ponto de partida, mas uma relação viva a cada dia. E nós também podemos ter essa realidade, olhando para os céus e não para as coisas aqui da terra.

Quanta riqueza o Senhor revelou à igreja em Éfeso através de Paulo. No entanto, umas décadas mais tarde, vemos João em Patmos, chorando pelas igrejas. E nesse contexto aparece o Senhor e lhe diz: «Não temas», como dizendo: «João, as igrejas estão em minhas mãos».

Todas as igrejas estão nas mãos do Senhor. Ele não nos abandona. As aflições, as provações, são apenas um meio que Deus usa para nos formar, porque assim como Paulo, somos como uma fera, e se o Senhor não nos moldar com dor, a única coisa que fazemos é trazer calamidades para a igreja.

Foi-nos falado nesses dias a respeito de quão triste é «quando nós aparecemos e não o Senhor». Paulo tinha claro isto; ele tinha sido transpassado por esta visão, e ele derramou esta revelação à igreja em Éfeso. Entretanto, em Apocalipse encontramos uma reclamação do Senhor. «Mas tenho contra ti, que deixaste o teu primeiro amor» (Apoc. 2:4), esse amor que fala da primazia do Senhor Jesus.

O evangelho é mais do que viver uma vida cristã. Podemos cantar, falar e dar testemunho; mas muito disto não são além de coisas rotineiras, sem vida. Isso ocorreu em Éfeso: depois de ter recebido tal revelação, o Senhor volta a exortá-los. Eles tinham deixado o mais essencial: o próprio Cristo.

Nossa missão hoje

Qual é a nossa verdadeira missão hoje? Sem dúvida, «não podemos anunciar o que não vimos, ou o que não ouvimos». O Senhor não nos chama para repetir uma mensagem aprendida, mas para anunciar o que realmente cativou o nosso coração.

«Por último, manifestou-Se aos onze, estando eles assentados à mesa, e lançou-lhes em rosto sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o viram depois de haver ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado» (Mar. 16:14-15). Apesar da fraqueza e da fragilidade deles, o Senhor lhes deixou uma incumbência.

Quando Jesus curou a um cego de nascimento, o homem disse: «Uma coisa sei, que havendo eu sido cego, agora vejo» (João 9:25). Ser cego era uma miséria que ele jamais podia esquecer; mas hoje via. Será que a nossa falta de pregação é porque esquecemos quem fomos antes? O chamado do Senhor hoje é para não o esquecer; mas ao mesmo tempo anunciar o que hoje somos em Cristo.

Que o Senhor encha a terra deste glorioso evangelho, «porque é poder de Deus» (Rom. 1:16). Não é que ele tem poder, mas é poder. Por isso, Paulo não se envergonha do evangelho, porque ele tinha sido cativado não por uma doutrina, mas pelo próprio Cristo. Assim também nós, enquanto o Senhor não voltar, temos a responsabilidade de sermos a resposta de Deus para o tempo presente. O Senhor nos socorra.

A Escritura diz em Atos que Paulo foi até os anciões e lhes anunciou todo o conselho de Deus, e lhes disse: «Não fui rebelde à visão celestial» (Atos 26:19). Também lhes disse: «Porque eu sei que depois de minha partida entrarão no meio de vós lobos vorazes, que não pouparão o rebanho» (Atos 20:29). E esse anúncio se cumpriu. A igreja em Éfeso entrou em severa decadência.

Mencionamos isto pela importância que os irmãos que estão à frente das igrejas tem, porque de alguma forma o propósito de Deus poderia inclusive ver-se truncado, se eles não interpretarem o encargo de Deus para o tempo presente. Mas a responsabilidade não está apenas nos anciões, mas em todos os santos, porque todos fomos incumbidos deste ministério da reconciliação.

Um dia o Senhor nos pedirá contas. Que tenhamos hoje urgência por agradar o seu coração. Do que nos serve nos conformar com o pouco que colhemos, se lá fora há tantos que morrem sem conhecer o Senhor? Do que nos serviria nos encher de elogios?

Um irmão na antiguidade dizia que o fracasso da igreja não veio por causa da perseguição, mas por causa dos aplausos. O Senhor envia aflições e ele nos trata, só para que possamos vir a seus pés como aquela mulher em Betânia, para que em seguida possamos crescer nele e anunciar o seu evangelho.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em Rucacura (Chile), em janeiro de 2019.

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