Vivendo nos dias últimos

A responsabilidade dos crentes em tempos de agitação social.

Rodrigo Abarca

“Deves saber isto: Que nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, intemperantes, cruéis, aborrecedores do bem, traidores, impetuosos, arrogantes, mais amantes dos deleites do que de Deus, que têm aparência de piedade, mas negarão a eficácia dela. Afasta-te desses também” (2 Tim. 3:1-5).

Os eventos ocorridos nesses dias em nosso país geram muitas perguntas; as paixões e os ânimos estão agitados. Agora, como nós os filhos de Deus podemos corresponder nessas situações? É obvio, a luz para os crentes está sempre na palavra do Senhor.

As palavras de Paulo a Timóteo representam o que o apóstolo entendia da parte de Deus com respeito a como a sociedade viveria nos últimos dias. O Senhor dizia também aos seus discípulos: «Eis que, eu vos envio como a ovelhas no meio de lobos» (Mat. 10:16). Ou «guardai-vos dos homens» (Mat. 10:17).

Sem dúvida, o testemunho constante na Escritura é que, na medida que nos aproximamos da vinda do Senhor, os tempos se tornarão cada vez mais perigosos. O Senhor Jesus mesmo diz que, no final dos tempos, «por haver-se multiplicado a maldade, o amor de muitos se esfriará» (Mat. 24:12).

Ele descreveu os dias finais como um tempo de confusão, de conflito, de tumulto, de agitação nas nações. Cremos que estamos chegando a esses dias e que a vinda do Senhor está muito próxima. Isto está acontecendo em nosso país e em muitos outros lugares do mundo, por diversas razões.

Deus governa a história

Precisamos compreender o mundo no qual vivemos. Estamos convencidos de que Deus governa a história, e até por trás do aparente caos, o propósito divino está controlando tudo. Não é que Deus seja causador dos sofrimentos das nações, mas a Sua vontade sempre prevalecerá. Esta é uma convicção que todo crente deve ter. O Senhor reina! Deus não perdeu o controle da história.

Apocalipse 6 mostra o momento em que o Cordeiro abre os selos do livro onde está contida a vontade de Deus para a história. Ao abrir os selos, a descrição bíblica da história humana não é benevolente. Os quatro cavaleiros do Apocalipse, no princípio, destroem a quarta parte dos habitantes da terra. Mas isso é só o princípio das dores, o começo das tribulações para o mundo.

Em seguida vem as sete trombetas que intensificam os sofrimentos da humanidade. É destruída a terceira parte da vida humana, e finalmente, as sete pragas, que são as taças da ira. A Bíblia não prometeu paz para as nações. Não há nenhuma promessa de paz e tranquilidade para o mundo.

«Mas os ímpios são como o mar em tempestade, o qual não fica quieto e suas águas lançam lama e lodo. Não há paz, disse meu Deus, para os malvados» (Is. 57:20-21). Esta afirmação é definitiva, é um juízo, uma sentença. Enquanto o coração do homem permanecer em rebelião contra Deus, não haverá paz.

Devemos ser realistas em relação à situação do mundo. Em um mundo caído nunca haverá paz ou justiça definitiva; porque o coração do homem é como um mar tempestuoso, fragmentado, partido por tensões interiores. E essa falta de paz no coração é ausência de paz para o mundo.

A influência da fé cristã no Ocidente

O que a palavra do Senhor nos fala acerca do que ocorre no mundo? Durante os últimos 1.500 anos, o mundo ocidental foi governado por uma visão teísta da vida, desde que o cristianismo se tornou a religião dominante no Ocidente, a partir da ascensão do imperador Constantino ao poder no ano 300 D.C. no Império Romano.

A fé cristã exerceu uma enorme influência na sociedade e na cultura do Ocidente. E embora tal influência esteja minimizada hoje, continua sendo um fato que o Ocidente é, de longe, fruto das ideias teístas do mundo judaico-cristão. É obvio, outros conceitos também cooperaram nisto, como a filosofia grega e o direito romano; mas o cristianismo teve um papel essencial como elemento aglutinador.

As sociedades humanas funcionam em torno de certas narrativas essenciais ou maneiras de entender o mundo que são compartilhadas pelas pessoas dentro de uma sociedade. Elas determinam a maneira em que os homens agem, o que eles consideram correto ou incorreto.

Esses conceitos essenciais, não necessariamente explícitos, mostram ser feitos de maneira inconsciente. Então quanto mais homogênea é uma sociedade em torno dessas narrativas essenciais, mais integrada será essa sociedade. Portanto, do ponto de vista da lei e do governo, requer-se menos exercício do poder e menos leis para governar tal sociedade, porque todos compartilham, de maneira implícita, os mesmos valores e normas da vida em geral. Isso é a cultura.

Deus substituído

No entanto, no mundo ocidental, tal visão aglutinadora começou a fragmentar-se a partir do século XVII com o início da Iluminismo. Este é o princípio do que os pensadores chamam de a modernidade. Nós a usamos no sentido do que é atual. Mas, no sentido histórico, é um período específico, no qual uma visão do mundo começou a ser substituída por outra antagônica, especialmente no meio das elites intelectuais, e dali passou às cúpulas políticas.

Na visão cristã do mundo, tudo é explicado como criação de Deus. Deus governa tudo. A vida só tem sentido a partir da vontade divina, e esta autoridade é suprema para a vida humana. No entanto, nesta nova visão, Deus foi substituído pela razão humana. Isso é uma grande mudança.

Para entendermos o mundo moderno precisamos saber que na atualidade, no Ocidente (Europa e os povos que foram colonizados pelos europeus), produto desta fragmentação que ocorreu a partir do século XVII, há três grandes cosmovisões que competem entre si.

Precisamos entender o conflito a fundo. O choque entre os seres humanos começa no nível das ideias. As ideias criam sentimentos e os sentimentos geram paixões e ações, de modo que o que as pessoas pensam define o que elas sentem e o que estão dispostas a fazer ou não fazer.

Choque de cosmovisões

Na atualidade, o Ocidente está vivendo um verdadeiro conflito, como um choque de placas tectônicas. É um choque de cosmovisões antagônicas e excludentes. Começa ao nível das ideias, e isto, em algum momento, chega a todas as pessoas, e então começa o conflito.

James Davison Hunter, um importante sociólogo cristão, na década de 90, escreveu um livro chamado Guerras Culturais, que se tornou na linguagem comum para descrever o que ocorre na sociedade contemporânea. As guerras culturais, no fundo, são o choque entre diferentes cosmovisões, em todos os âmbitos: político, jurídico, acadêmico, de comunicação. E em algum momento, esse conflito se desloca para as ruas e para a sociedade inteira.

Quais são essas cosmovisões? A primeira foi o antigo Teísmo cristão, que homogeneizou a cultura ocidental. Esta visão foi radicalmente questionada. E então em oposição a ela se levanta outra cosmovisão, o Naturalismo, muito difundido e enraizado no Ocidente, em particular nas elites intelectuais, naquelas que controlam os meios de comunicação, e na política.

O Naturalismo

O que é o naturalismo? A ideia de que tudo o que existe é a natureza ou o mundo físico material. Toda a realidade pode ser explicada em termos de fenômenos físicos. As leis da física, a química, a biologia, são tudo o que existe, o que existiu e o que existirá, e não há nada mais.

Se isso fosse verdade, não há espaço para a existência de Deus. E se não houver Deus, tampouco há valores nem princípios morais objetivos absolutos aos quais todos devam se submeter; estes não seriam mais que fenômenos sociais, históricos, culturais, mutáveis e subjetivos. Em outras palavras, cada ser humano cria os seus próprios valores a seu gosto, sejam preferências subjetivas ou convenções sociais.

Isto muda radicalmente a maneira de entender a vida e o mundo. Os cristãos creem que Deus existe, e que existe uma lei moral que liga todos os seres humanos ao cumprimento dela, e que define o bem e o mal para todos. Ela foi dada por Deus e, portanto, é objetiva, quer dizer, não depende do gosto, da intenção, da situação, nem mesmo da compreensão que se tenha dela, e é eterna.

Na visão naturalista não há espaço para uma lei moral. Inclusive os naturalistas mais extremos negam a existência de qualquer lei moral desse tipo. Agora, esse conflito que começou nas elites pensantes foi sendo espalhado de maneira paulatina, e hoje permeia todas as esferas da vida humana.

O problema fundamental é um conflito de cosmovisões. E na grande discussão dos valores morais, o contexto é o mesmo. Se Deus for o autor da vida humana, então ele tem o direito de definir o que o homem é, e o que é bom e mau para o homem, e ninguém mais. Mas se a vida é produto do acaso, da evolução, sem propósito e sem o destino, então os valores humanos são meras invenções e cada qual pode, teoricamente, estabelecer o seu próprio sistema de valores.

A cosmovisão naturalista, que define a vida humana como meramente material, ainda afirma que a ciência é a única forma de conhecimento válido; portanto, são os únicos que podem falar com autoridade, com respeito à vida humana são os cientistas. Podemos observar isto diariamente na televisão. Quando há algum assunto de interesse, chama-se os «peritos», normalmente os cientistas. Inclusive, se tem que tratar de um tema religioso, não chamam um pastor ou a um sacerdote, mas a um sociólogo em religião, um perito em religião. Isto é grave, porque uma das grandes limitações da ciência é sua falta de autoridade para falar sobre valores morais.

O discernimento do bem e do mal não faz parte do conhecimento científico. Então os valores morais se tornam subjetivos e caem na esfera da discussão do poder. Assim, todos os valores morais se tornam causas políticas, que são votadas a favor ou contra. E isto nos leva a um terceiro competidor nesta guerra de cosmovisões: o Pós-modernismo.

O Pós-modernismo

O que é o pós-modernismo? Originalmente havia duas grandes cosmovisões em conflito no Ocidente: o teísmo cristão e o naturalismo.

O naturalismo tem como autoridade suprema a razão humana, capaz de conhecer e de dominar o mundo através da tecnologia. Este contém a promessa de que através do conhecimento científico e da tecnologia desenvolvida a partir disso, o homem será capaz de submeter a natureza e produzir a paz, a felicidade e o bem-estar da sociedade.

Basta ler os pensadores do mundo da tecnologia para notar que essa promessa continua vigente. Recentemente um desses pensadores escreveu um livro chamado Homo Deus, onde expõe que através da ciência e da tecnologia o homem se tornará um deus e finalmente conseguirá superar todas as suas limitações, complexos e sofrimentos.

No entanto, no século XX, a confiança cega nas capacidades da razão humana de libertar o homem da dor que está submetido, levou a um dos experimentos políticos mais horrorosos da história, encarnados na ideologia do nazismo, apoiada na ideia de que a razão pode ordenar totalmente a vida humana.

Os nazistas estavam convencidos de que o homem era produto da evolução, e que ela produz homens ou raças superiores a outras. E como a teoria da evolução sugere a sobrevivência do mais forte, então a raça superior estava destinada a eliminar as raças inferiores. E com essa justificativa terminaram com a vida de milhões de pessoas.

Passado o horror da II Guerra Mundial, alguns pensadores começaram a questionar a supremacia da razão, e a pensar que, ao dar tal poder à razão humana emancipada de todo valor moral, ela poderia fazer o que quisesse, até terminar naqueles horrores destrutivos. A autoridade da razão humana foi radicalmente contestada, dando origem a uma nova corrente: o Pós-modernismo.

O pós-modernismo se caracteriza por uma desconfiança total para com a razão humana. Já dissemos que as sociedades humanas se organizam em torno de atos narrativos ou explicações da realidade. O pós-modernismo diz que todas as metanarrativas são falsas; o que há no fundo são verdades particulares de grupos que estão em conflito entre si. Cada qual tem a sua própria verdade particular. Ninguém pode explicar a vida humana. E isso inclui o naturalismo, mas também o cristianismo.

Nesta corrente há pessoas que não confiam na razão, na tradição ou em nenhuma forma de autoridade externa. Eles receiam de todas as formas de autoridade, incluindo a autoridade de Deus, da Bíblia, da igreja, mas também da autoridade da razão, da ciência e de toda outra forma; porque suspeitam que todas elas são opressivas e levam a destruição da vida humana.

Do "eu creio" ao "eu sinto"

O pós-modernismo põe em primeiro lugar os sentimentos. Os sentimentos e os desejos são a verdade absoluta e que ninguém tem direito de discutir os pontos de vista pessoais. Vemos isto na maneira de falar das pessoas. Anos atrás, quando alguém queria expressar uma ideia, dizia: «Eu creio». Em seguida, disse: «Eu penso». Mas hoje em dia, como as pessoas em geral falam? «Eu sinto».

O que eu sinto é a verdade absoluta. Ninguém pode julgar os meus sentimentos e as minhas opiniões. Aquele que o faz, está questionando a minha própria dignidade humana. Nesta nova cosmovisão, qualquer questionamento é uma ofensa, uma opressão; e sua reação espontânea é a ira, a indignação.

Por isso podemos ver que neste mundo pós-moderno as pessoas não conseguem sequer conversar entre si. Tudo se torna um diálogo de surdos, em que cada um brada a sua opinião sem ouvir o outro, porque por definição a opinião do outro já é opressiva para as minhas ideias e os meus sentimentos.

Por exemplo, a premissa máxima que ouvimos constantemente no cinema e na TV, a verdade final em uma situação, definindo o que é verdadeiro e o que não é, diz: «Siga o teu coração». O correto é fazer livremente o que cada um sente. Muito disto vemos hoje, sobretudo na chamada geração dos millennials, ou geração do milênio.

No século passado, prevalecia uma cosmovisão racionalista bastante moderna; mas a maioria dos jovens hoje assumem uma visão pós-moderna, onde os sentimentos são a verdade final e absoluta a respeito da vida humana. As pessoas sentem que já não há valores, não há sentido para a vida. Então só se procura viver, satisfazer os impulsos e os desejos, como se isso fosse tudo.

Essas são as três cosmovisões que estão em conflito no mundo moderno e que estão, por assim dizer, gerando grande parte do caos, porque obviamente são visões irreconciliáveis entre si.

Se olharmos a discussão que há neste momento em nosso país, os jovens falam dos sentimentos, de suas emoções, e os adultos procuram falar da razão moderna. Mas não há diálogo, não há pontos convergentes, porque são duas maneiras radicalmente distintas de ver o mundo.

Procurando a paz

Agora, como nós podemos nos inserir nesta sociedade, e cooperar com o que acontece, do ponto de vista do Senhor? Eu gostaria de revisar uma passagem em Jeremias 29, que me parece de suma importância para avançar um pouco neste tema. O contexto é uma carta que Jeremias envia aos judeus cativos, oprimidos sob o domínio babilônico.

«Assim diz o Senhor dos Exércitos, Deus de Israel, a todos os cativos que deportei de Jerusalém à Babilônia:Edificai casas, e habitai-as; e plantai jardins, e comei do fruto deles.Casai-vos e gerai filhos e filhas; dai mulheres a vossos filhos, e dai maridos a vossas filhas, para que tenham filhos e filhas; e multiplicai-vos ali, e não vos diminuais.E procurai a paz da cidade a qual vos deportei, e rogai por ela ao Senhor; porque em sua paz vós tereis paz» (v. 4-7).

No final do século IV, diante do colapso do império romano e da sociedade do seu tempo, Santo Agostinho escreve o seu livro «A Cidade de Deus», onde descreve duas grandes cidades que coexistem na história, mas que na realidade são totalmente opostas: a cidade de Deus e a cidade dos homens; a primeira, constituída pelos que amam a Deus e o servem, e a outra, pelos que não amam a Deus.

Em Apocalipse temos duas cidades: a nova Jerusalém, que desce do céu da parte de Deus, e a Babilônia, a cidade inimiga de Deus, figura do sistema do mundo. A primeira vai avançando até a consumação final, e será a Nova Jerusalém. E a outra é a Babilônia, o berço da idolatria, a qual será destruída.

O povo de Israel cativo na Babilônia representa, de alguma forma, a posição da igreja no mundo. Ela está no mundo, mas não é do mundo. Nós vivemos e crescemos na cidade dos homens. Temos filhos, construímos casas, exercemos nossas profissões, mas em um lugar que não é a cidade de Deus, mas uma cidade rebelde a Deus.

Mas a palavra do Senhor para Jeremias é: «E procurai a paz da cidade a qual vos deportei, e rogai por ela ao SENHOR; porque em sua paz vós tereis paz». Uma opção para os judeus ali era simplesmente rebelar-se contra a opressão que estavam vivendo; mas a mensagem do Senhor para eles é para que eles sejam de bênção e de paz para essa cidade.

Se transportarmos para o mundo moderno –e a palavra do Senhor sempre é para a igreja–, nós devemos ser fonte de bênção para os homens; nunca de conflito, mas sempre de paz. Como ser bênção para uma sociedade que não está redimida? Paulo diz: «Se for possível, quanto depender de vós, estejam em paz com todos os homens» (Rom. 12:18).

Quer dizer, somos agentes da paz divina no mundo. A palavra original é Shalom, mais ampla que a paz entendida como ausência de conflitos; significa a harmonia essencial da vida humana, e inclui a ideia de justiça.

O governo estabelecido por Deus

Com isto em mente, vejamos alguns textos para entender como os cristãos podem ser de paz no meio de um tempo de agitação. Um assunto fundamental para considerar é a autoridade ou governo humano. É um tema conflitante, que agita as paixões. O que a Escritura nos diz sobre o poder e sobre a política? Em primeiro lugar, a Bíblia declara de maneira enfática que todo tipo de governo humano não é uma mera invenção do homem, mas uma instituição estabelecida por Deus.

Precisamos compreender isto para nos alinharmos com o reino de Deus nas situações humanas. O governo é uma instituição dada para representar a autoridade de Deus. Vejamos algumas passagens:

«…Submetei todas as pessoas às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram estabelecidas por Deus.De modo que quem se opõe à autoridade resiste ao estabelecido por Deus; e os que resistem trarão a condenação sobre si mesmos.Porque os magistrados não são para infundir temor nos que fazem o bem, mas para o mal. Quereis, pois, não temer a autoridade? Fazei o bem e tereis louvor dela;porque ela é um servidor de Deus para vosso bem. Mas, se fizerdes o mal, temei, porque não levai a espada em vão; pois sois servidores de Deus, vingadores para castigar o que faz o mal.Portanto, é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente em razão do castigo, mas também pela consciência» (Rom. 13:1-5).

«Recorda-lhes que se sujeitem aos governantes e às autoridades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda boa obra» (Tit. 3:1).

«Por causa do Senhor, submetei-vos a toda instituição humana, quer seja ao rei, como a superior,quer aos governadores, como enviados por Ele para castigo dos malfeitores e louvor dos que fazem o bem.Porque esta é a vontade de Deus: Que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos» (1 Ped. 2:13-15).

Estas passagens mostram claramente que a instituição do governo humano vem de Deus, com um propósito específico. A palavra autoridade, no grego, significa a intervenção humana para impor decisões. Agora, de onde vem a instituição divina do governo humano?

«Viu o SENHOR que a maldade dos homens era grande na terra, e que todo desígnio dos pensamentos do coração deles era mau continuamente.Então, arrependeu-Se o SENHOR de haver feito o homem na terra, e pesou-lhe em Seu coraçãoA terra estava corrompida diante de Deus e cheia de violência.Viu Deus a terra e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido seu caminho sobre a terra» (Gên. 6:5-6; 11-12).

A primeira consequência da queda do homem foi que Caim se levantou contra o seu irmão e o matou. Na terra não havia governo, não havia juízes nem havia leis. Na história posterior já não é só Caim matando a seu irmão por inveja, mas seus filhos multiplicando a maldade e a violência ao ponto que um deles dizer: «Se Caim for vingado sete vezes, eu serei vingado setenta vezes sete»; quer dizer, responde-se à violência com uma violência multiplicada.

Isto gerou uma espiral que levou o mundo antigo ao colapso e à destruição. Isso é o que se descreve em Gênesis no tempo do dilúvio. Pensamos que aquele era um tempo de corrupção moral, mas a Bíblia o descreve melhor como uma época de grande violência entre os homens.

Deus decidiu destruir a terra com um dilúvio e começar de novo com uma família: Noé e seus filhos. No entanto, embora tenha destruído uma geração maligna, o mal persistiu no coração do homem, pois o pecado está enraizado no homem caído.

A função do Estado

Ao terminar o dilúvio, Noé saiu da arca. Gênesis 9:6 registra o pacto de Deus com Noé. «Quem derramar o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado; porque Deus fez ao homem segundo a sua imagem». Nessas palavras, Deus instituiu o governo do homem sobre o homem, para limitar a violência e a maldade do coração humano, para pôr um limite à maldade.

O mundo anterior ao dilúvio estagnou porque não havia governo. É necessário que haja uma autoridade que julgue e castigue a maldade. Por quê? «Porque Deus fez ao homem segundo a sua imagem»; quer dizer, porque a vida humana tem um valor intrínseco, inviolável, e deve ser protegida. O Estado exerce esta função dada por Deus. Se os homens são deixados sem governo, matar-se-ão uns aos outros.

Temos observado isto nesses dias. Quando as pessoas percebem que não há autoridade, tornam-se como animais, selvagens e agressivos, e violam as leis. Os crentes devem saber isto; não devemos ser ingênuos. Deus vê o coração humano; ele sabe a maldade da qual o homem é capaz. Quando não há risco de ser castigada por seus atos, as pessoas se desenfreiam. Por isso Deus estabeleceu o governo.

O conceito do Estado moderno, a separação dos três poderes, o império da lei, o contrato social, que nos parecem ideias eternas, surgiu no século XVII. Os teólogos cristãos descobriram na Bíblia tais conceitos, as quais depois se secularizaram. Uma desses conceitos é que o homem natural é violento, e que o governo restringe essa violência permitindo que os homens possam viver sem destruir-se uns aos outros.

Os pensadores da Revolução Francesa, em uma visão naturalista, proclamavam o contrário. Por exemplo, Rousseau sustentava que o homem nascia bom e a sociedade o corrompia. Essa é a ideia humanista; mas o homem não é bom por natureza. Embora possa fazer coisas boas, o pecado continua presente. Os homens não são bons por natureza; por isso precisam ser redimidos.

O Estado tem a função de castigar os maus e impedir que a violência natural machuque outros homens, promovendo o bem-estar e protegendo a vida humana. Mas isso tem enormes limitações. Um dos grandes mitos seculares é que o Estado é capaz de produzir a justiça, a felicidade, a paz e o bem-estar. O governo humano requer o uso da força para coagir às pessoas a cumprir a lei e a viver de maneira pacífica e harmoniosa. O Estado pode coagir para que façam o correto; mas não conseguem fazer que estejam dispostas a realizá-lo de maneira voluntária.

O único que pode produzir um homem novo é Cristo. Jesus rejeitou sistemática e deliberadamente toda forma de relacionamento com o poder político. Naquele tempo havia agitação política. Ele viveu em uma nação submetida ao abuso e a injustiça de um império opressor. No entanto, recusou envolver-se em uma ação política, porque sabia que a justiça não é produto de nenhum poder humano.

A justiça vem como fruto do reino de Deus no coração humano. Os cristãos creem na justiça, e vemos que este mundo é injusto e abusivo. Estaríamos cegos se não o reconhecêssemos; mas a palavra de Deus diz que a resposta não está no poder político, mas no poder do evangelho.

A justiça de Deus, por meio da igreja, pode impactar à sociedade, não pelo poder político, mas com a força do Evangelho. Este poder produziu mais justiça que qualquer sistema político na história. E isso, os cristãos precisam saber, crer e defender.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em Temuco (Chile), em novembro de 2019.

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