Sobriedade, sofrimento e evangelho

Assumindo a nossa posição em Cristo, em dias tumultuados.

Alexis Vera

"Mas tu, sê sóbrio em tudo, suporta as aflições, faz a obra de um evangelista, cumpra o teu ministério” (2 Tim. 4:5).

Ninguém ficou indiferente à contingência social do nosso país (Chile), produto deste surto em desconformidade com a injustiça social e com o próprio sistema. E nos perguntamos: O que Deus diz a respeito? Ou, que resposta temos que dar da parte do Senhor?

Particularmente, a segunda epístola de Paulo a Timóteo contém uma situação contextual muito pertinente ao que vivemos hoje. Em primeiro lugar, foi escrita em um momento complexo tanto na atmosfera espiritual como na própria condição interior do jovem discípulo.

Tempos perigosos

«Deves saber isto, que nos últimos dias virão tempos perigosos» (3:1). A palavra «perigoso» aparece também no relato dos endemoninhados gadarenos. Refere-se a uma fúria, uma opressão ou ação maligna, a fúria do próprio inferno, inflamada nos últimos dias.

As ameaças externas são poderosas, e essa obra está configurando o caráter dos homens dos últimos dias. No entanto, no próprio coração do jovem discípulo também há conflitos. Se pudéssemos obter uma imagem da vida de Timóteo, naquela hora, ele estava recebendo um legado do próprio apóstolo Paulo: a encargo do «glorioso evangelho do Deus bendito» (1 Tim. 1:11). Isto é, de alguma forma, a passagem de uma geração para a outra do testemunho de Deus.

Os jovens representam uma nova geração. Nossos pais espirituais percorreram um trecho, e seguem percorrendo ainda junto a nós, sendo um modelo para as nossas vidas. O preço que pagaram é uma preciosa referência do caráter de Cristo que conhecemos neles.

Cremos que é um desafio para cada geração, achar uma identidade própria em relação ao testemunho de Deus. O nosso desafio é descobrir qual é a forma em que o Senhor quer que expressemos a glória do Evangelho nesta sociedade naturalista pós-moderna; e qual é o tempo que estamos vivendo.

Paulo ajuda a Timóteo a definir o tempo espiritual. No entanto, ao jovem discípulo e à geração posterior caberia descobrir que expressão de Cristo eles teriam em uma igreja que começava a apostatar, no meio de um mundo opressor, marcado pelas perseguições.

Assim, nós precisamos de uma expressão particular que torne pertinente o Evangelho em nossa geração. A base disto sempre será a palavra do Senhor. Precisamos conhecer a Deus na intimidade, de maneira que o nosso testemunho se encharque de vida. Também precisamos conhecer a geração com a qual convivemos, de modo que a nossa mensagem não seja descontextualizada.

Paulo está deixando o seu legado a um jovem e tímido discípulo. Nesse contexto lhe diz: «Porque Deus não nos deu espírito de covardia» (2 Tim. 1:7). Lendo nas entre linhas, Timóteo estava debaixo de uma ameaça interna por causa da timidez do seu caráter, talvez pensando que ele não pudesse ter a mesma fé que sustentou a Paulo.

Atitude humilde

Aqui podemos extrair um consolo para os nossos corações. Se olharmos para nós em um espelho, realmente temos feito muito pouco em comparação aos nossos pais espirituais. Há igrejas estabelecidas em todo o país, com suor e lágrimas da geração que nos antecedeu, a qual pagou o preço do que temos hoje.

Reconhecemos também que há muitos desafios ainda por diante. Temos a possibilidade de receber a Cristo vindo dos céus. Vivemos com essa esperança em nossos corações; e ao mesmo tempo, nos vemos tão pequenos. Como nos posicionaremos neste cenário? O que diremos aos homens nesta hora avançada? A partir deste pensamento, o melhor que podemos fazer é ter uma atitude humilde.

Não temos a capacidade natural de nos posicionarmos diante de um mundo tão voraz. Mas podemos lembrar das palavras que Paulo recebeu em tempos de fraqueza: «A minha graça te basta» (2 Cor. 12:9). Precisamos de uma profunda proximidade com a pessoa e a obra de Cristo, para que a Sua graça seja nossa única suficiência.

Embora este pareça um dia comum, o Senhor já lançou o seu prumo e se comprometeu com a sua presença; ele não irá nos desamparar. Olhemos para os céus, de lá virá o discernimento para enfrentarmos este tempo difícil, do qual vemos apenas o princípio da hora da provação que virá sobre o mundo inteiro.

O texto que nos inspira contém instruções para que assumamos em Cristo a nossa posição em dias de aflição. Vejamos estas três exortações: «Mas tu sê sóbrio em tudo, suporta as aflições, faz a obra de um evangelista». São três elementos: Sobriedade, Sofrimento e Evangelho.

No começo ele diz: «Mas tu», que é uma expressão contrastante. Timóteo é colocado em uma rota oposta ao curso do mundo, marcado pela periculosidade e a ferocidade, onde outros estão apostatando. «Mas tu…». A ênfase está no contraste que marca aquele que recebe essas palavras, isto é, a nós.

Sê sóbrio em tudo

O que significa neste caso agir de maneira sóbria? É uma palavra de um significado muito particular no grego. Alguém a define como estar alerta, vigilante, com uma atitude firme e persistente da mente, que observa tudo o que acontece ao seu redor e permanece imóvel em relação ao seu objetivo.

Isto significa estar vigiando enquanto se olha ao redor, discernindo o momento e, ao mesmo tempo, sem perder a meta, o alvo. «Esquecendo certamente das coisas que para trás ficam, e avançando para o que está adiante, prossigo para a meta, para o prêmio da suprema chamada de Deus em Cristo Jesus» (Flp. 3:13-14).

Há um objetivo maior, o qual é gozar da plenitude de Cristo, ver o rosto do nosso amado Senhor, vindo com poder e grande glória sobre a terra, e o recebermos. «Considero todas as coisas como perda pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor» (Flp. 3:8). Do mesmo modo, também nós.

«Sê sóbrio». A Escritura está nos impulsionando para olharmos ao redor. A nossa tendência, por desejarmos ter uma voz de entendimento em relação ao que acontece, rapidamente é desviada para as coisas periféricas, e perdemos o foco que está adiante.

A expressão «Sê sóbrio» aparece em cinco ocasiões no Novo Testamento. Vejamos algumas citações a respeito. O que significa nos manter sóbrios no meio de um contexto perigoso? A primeira menção está em 1 Tess. 5:6: «portanto, não durmamos como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios». A segunda, no versículo 8 do mesmo texto: «Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos com a couraça da fé e do amor» (1 Tess. 5:8).

O apóstolo Pedro diz: «Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai por completo na graça que vos trará quando Jesus Cristo for manifestado» (1 Ped. 1:13). «Mas o fim de todas as coisas se aproxima; sede, pois, sóbrios, e vigiai em oração» (4:7). «Sede sóbrios, e vigiai; porque o vosso adversário o diabo, rugindo como leão, anda ao redor procurando a quem devorar» (5:8).

Podemos ter uma visão da carga de cada apóstolo quando fala de sobriedade. Quando Paulo a utiliza com os tessalonicenses, é uma advertência no meio de uma noite espiritual.

Enquanto é de noite, lembremos que somos do dia, porque aqueles que vivem nas trevas serão surpreendidos pela vinda do Senhor. «Mas vós... não estais em trevas» (1 Tess. 5:4). Por esta causa, por ser filhos de luz e não da noite, então não durmamos, mas sejamos sóbrios, quer dizer, mantenhamos a vigília.

Pedro diz: «Temos também a palavra profética mais segura, a qual fazeis bem em estar atentos como a uma tocha que ilumina em lugar escuro, até que o dia esclareça e o luzeiro da manhã surja em vossos corações» (2 Ped. 1:19). Logo a noite acabará, e brilhará o Luzeiro da manhã. As trevas serão dissipadas pelo nosso Salvador; enquanto isso, permaneçamos alertas.

«Porque vós sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá assim como ladrão na noite; que quando disserem: Paz e segurança, então virá sobre eles repentina destruição, como as dores à mulher grávida, e não escaparão» (1 Tess. 5:2-3).

O contexto nesta advertência é o cenário de uma reordenação social. Nos últimos tempos, pelo menos no Ocidente, haverá uma busca do bem-estar e de segurança social. E, quando o mundo proclamar paz e segurança, naquele instante virá sobre eles uma repentina destruição. «Não há paz para os maus, disse Jehová» (Is. 48:22).

Um problema de aplicação

Por que estamos enfatizando isto? Porque muitas vezes nós, chegando tarde no conflito e querendo tomar posições a respeito, tendo empatia com as vulnerabilidades da nossa sociedade, pensamos que, por causa do evangelho, devemos tomar partido pelos fracos, ao ponto de exigir que uma sociedade ímpia nos promova um ambiente de bem-estar.

Por isso muitos saíram para as ruas, com ordens que desvirtuam a glória do evangelho, torcendo a palavra do Senhor, caindo na confusão e esperando benefícios de uma árvore que só dá maus frutos.

Outros, usando as redes sociais, compartilham mensagens sutilmente confusas em relação ao caráter de Jesus nos dias da sua carne, ou de João Batista, quem –segundo eles– não vacilaram em censurar os poderosos da sua época as suas injustiças e que, portanto, a igreja deveria tomar a mesma atitude hoje.

No entanto, há um problema nessa aplicação. Tanto João Batista, como o Senhor Jesus, quando denunciaram a corrupção do sistema, tinham diante deles algo muito claro.

O ministério de João era preparar o caminho do Rei. «Arrependei-vos, porque o reino dos céus tem se aproximado… produzi, pois, frutos dignos de arrependimento» (Mat. 3:2, 8). Ele não pedia para mudar o sistema de injustiças do seu tempo.

Ele estava anunciando a presença de Deus entre os homens, e sua mensagem chega ao clímax quando vê a Jesus na margem do rio Jordão. «Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo… o qual é antes de mim… de quem não sou digno de desatar a correia do seu calçado». Ele é o próprio reino de Deus! Então, ao denunciar os males da nação cumpriu o seu propósito preparando os corações para receber a Cristo.

Jesus, em certa ocasião chamou Herodes de «raposa». E poderíamos pensar como ele aproveitou a liberdade de denunciar o abuso político daquele que ocupava por usurpação o trono em Israel. No entanto, ao ler o contexto completo, Jesus diz: «Ide, e dizei a aquela raposa: Eis que, expulso demônios e faço curas hoje e amanhã, e ao terceiro dia terminarei a minha obra» (Luc. 13:32).

Quando se trata de enfrentar os problemas da realidade social, Jesus apresenta a Sua obra na cruz. Prestemos atenção para não cair no engano sutil, esquecendo o contexto e nos perdendo em coisas periféricas.

Não podemos pedir justiça social, paz ou segurança com iludidas expectativas; nunca seremos satisfeitos, porque este mundo jaz no maligno. A luta do Senhor não se rebaixa ao sistema político.

Uma dimensão superior

A nossa chamada nos eleva a uma dimensão superior, na qual é possível encher a terra da glória do Senhor. Não é buscando mudanças que não trarão nenhum efeito espiritual nos homens. A sobriedade, aqui, é discernir a nossa posição espiritual nesta hora obscura.

Nesta pesada noite, corremos o risco de ficarmos dormindo, como os discípulos mais íntimos do Senhor quando estiveram com ele de noite –como no monte da transfiguração, ou no Getsêmani. Lucas 9:32 diz: «E Pedro e os que estavam com ele estavam rendidos de sono». O Senhor se transfigurou diante deles, mas o sono era tal, que quase caíram no sono. Mas o relato acrescenta: «Mas permanecendo acordados, viram a glória de Jesus».

A visão clara da glória de Deus na face de Jesus Cristo é a única via para nos manter acordados na noite espiritual. Ver a glória de Cristo é a nossa principal necessidade como uma experiência de primeira fonte.

Isto não é algo longínquo. Jesus mesmo orou: «Pai, aqueles que me deste, quero que onde eu estou, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória» (João 17:24). Quer dizer, ele se antecipou para que tivéssemos uma experiência real. Onde e quando vemos essa glória? Na Escritura, quando o Espírito Santo traz luz sobre a verdade. Como por espelho, diz Paulo.

Hoje podemos ter acesso a sua glória e render o nosso coração em devoção a ele. Quando nos ocupamos disso, vemos quão diferente ele é de nós, quão grande, quão excelso, e nos sentimos tão distantes, até que vem a sua mão nos tocar e nos dizer: «Não temas». Só a glória do Senhor tem o poder de nos manter acordados nesta hora de sonolência.

No meio da noite, o Senhor nos permite viver circunstâncias perigosas, para que os nossos corações sejam provados e saibamos onde estamos firmados, para que em sua volta sejamos achados nele.

Meditemos nas Escrituras, esquadrinhemos o caráter do nosso Senhor, em suas palavras e na história da sua vida. Se ocuparmos um tempo diário nisto diante do Senhor, esta atitude nos guiará a reorientar a nossa vida. Este é o caminho para andar no Espírito: resumir a nossa vida só em Cristo. Senhor, a minha alma não descansará até tê-lo por completo no dia da sua volta!

«Sede sóbrios». Pedro, usa esta expressão em sua primeira carta. Em síntese, este chamado seria: Sobriedade no meio de uma batalha espiritual que acontece no campo da nossa mente.

Uma coisa é o cenário externo, a noite espiritual; outra, as ameaças em nossa própria mente. «Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento»; mantenhamos nossos pensamentos freados para que não divaguem fora da centralidade de Cristo, porque o diabo anda rugindo como leão buscando a quem devorar.

Muitas vezes ignoramos a batalha espiritual, pensando que tudo se reduz a questões humanas. Mas a Palavra inspirada destaca que «não temos que lutar contra sangue e carne, mas contra principados, contra potestades, contra os governadores das trevas deste século, contra hostes espirituais de maldade nas regiões celestes» (Ef. 6:12). O campo de batalha é na nossa própria mente, pelas vulnerabilidades que o pecado deixou em nossa vida.

Depositários do seu testemunho

De alguma forma, se não estivermos cheios da palavra de Cristo, ficaremos à mercê do engano, o qual nos separa de Deus e nos conduz à destruição do seu testemunho; porque o nosso inimigo, do começo da história até o final dela, fez guerra contra aqueles que têm o testemunho de Deus.

Deus nos encarregou de sermos os depositários do seu testemunho, e o inimigo virá para nos fazer errar. Só a palavra de Cristo enchendo as nossas mentes pode nos salvar. Por isso é necessário buscar a sua Palavra, amá-la e meditar nela. Todos temos acesso, porque o Senhor orou: «Santifica-os na sua verdade; a tua palavra é a verdade» (João 17:17). Isto nos libertará da ameaça das trevas, do pecado e do mundo.

No tempo em que João escreveu as suas cartas, testificou que o espírito do anticristo já está entre nós. Daniel descreve a sua atuação: «Aos santos do Altíssimo quebrantará» (Dan. 7:25). Existe uma operação perversa de quebrantamento ou desgaste mental. O inimigo procurará desgastar a nossa mente.

Se fomos regenerados, somos parte deste grupo de santos do Altíssimo e, portanto, alvo do ataque maligno por meio do engano, da opressão e da depressão. Não é casualidade que na atualidade as enfermidades de caráter psiquiátrico sejam tão frequentes e complexas em suas resoluções.

Opressão a nível da mente

A sessenta anos, Watchman Nee se referiu a um irmão desconhecido, em um artigo chamado: «Eis que as trevas cobrem a face da terra». Leiamos algumas dessas frases.

«Nos últimos dias haverá muito engano e coisas erradas… haverá uma forma de aparência de piedade exterior, mas que por dentro estará cheia da melancolia do inferno… teremos dificuldades para amar as coisas de Deus… para ter um tempo a sós com Deus… seremos distraídos pelos entretenimentos passageiros, ao ponto que os nossos sentidos serão embrutecidos… e nos tornarão incapazes de gozar das realidades celestiais superiores… passar um tempo em oração e de joelhos diante do Senhor será um trabalho muito pesaroso… sentiremos, de maneira estranha, um desejo pelos prazeres deste mundo».

Esta profecia está se cumprindo cada vez com mais força diante dos nossos olhos. Diz além disso: «Sentiremos uma incapacidade para nos concentrar em ouvir as mensagens». Isto tem um peso maligno em sua causa. E o irmão conclui: «É hora de tomarmos resoluções, e que a igreja se levante de maneira decidida».

O inimigo procurará nos acusar em nossa mente por pecados passados; sutilmente torcerá as verdades do evangelho, nos encurralará em um pensamento doutrinário que pode nos separar de outros irmãos; pretenderá nos polarizar nas opiniões sobre o que acontece ao nosso redor; fará que as nossas paixões se manifestem.

Nossa mente é o campo de batalha, e se não formos guardados pela palavra do evangelho, pode parecer que estamos no caminho. Notem a dimensão do risco, porque isto está ocorrendo com a geração que poderia apressar a volta do nosso Senhor Jesus Cristo dos céus. A igreja deve levantar-se na vitória do Senhor, e lutar, repreendendo as obras das trevas, orando pela geração mais jovem, para que ele, por sua Palavra, nos liberte e nos encha da vida de ressurreição.

Suporta as aflições

A segunda exortação diz: «Suporta as aflições» (2 Tim. 4:5). Esta é uma palavra desafiante. Em 2 Tim. 1:8 diz: «Participa das aflições pelo evangelho». Uma melhor tradução para isto seria: «Sofre com o evangelho». É um chamado a experimentar o sofrimento que só o próprio evangelho pode trazer.

Que tipo de sofrimento é este? Filipenses 3:8, em diante, ajuda-nos a entender: «E na verdade, até estimo todas as coisas como perda pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por amor do qual tenho perdido tudo, e o tenho por lixo, para ganhar a Cristo».

Vemos um contraste entre perda e ganho. Estou perdendo tudo, deixando tudo para trás, porque quero ganhar a Cristo. «E ser achado nele... a fim de conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição, e a participação dos seus sofrimentos, chegando a ser semelhante a ele em sua morte» (v. 9-10). Podemos imaginar o apóstolo obcecado, por assim dizer, pela pessoa e a obra de Jesus. «Cristo é tudo o que eu quero!».

Mas parece que esta vida não lhe é suficiente, e então diz: «Quero conhecê-lo em seus sofrimentos, mesmo em sua morte e ressurreição. Quero experimentar a Cristo em todas as áreas da minha vida, e até morrer como ele». Por isso diz a Timóteo: «Quando sofrer, faça como ele».

Quais são os motivos do nosso sofrimento? Será a empatia com a desigualdade e a injustiça? Evidentemente devemos nos compadecer com os que assim sofrem. Mas olhemos aqui um caminho mais excelente: Sofrer juntamente com o evangelho.

Há um caminho que não conhecemos em sua profundidade, um caminho que esta geração incrédula que nos rodeia não viu marcado ainda em nossos corações. «Se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só; mas se morrer, dá muito fruto» (João 12:24). Nosso Senhor entregou a sua vida até o ponto de sofrer e morrer para que outros tivessem vida. Este caminho está proposto para nós como geração, para que nos gastemos a fim de que outros recebam vida espiritual.

Nós podemos ver as desigualdades e injustiças ao nosso redor; mas o que estamos fazendo, no evangelho, para poder levar vida aos homens?

Referências fiéis

Na história da igreja temos grandes referências que gastaram a sua vida por causa do evangelho.

Nicolás Zinzendorf, um jovem rico, um príncipe da Europa, abriu os campos do seu castelo para um grupo de refugiados, e aquela comunidade se tornou apaixonada pelo Cordeiro de Deus. Neste amor por Cristo, eles decidiram sair em missões para lugares nunca antes visitados pela luz do evangelho.

Outra referência, quase desconhecida, é John Davis, um irmão que serviu durante dezesseis anos em uma comunidade de leprosos na Índia, arriscando a sua própria saúde, pois não existia uma cura caso fosse contagiado. Então, a lepra chegou ao seu corpo. Nas últimas palavras de seu diário, a sua enfermeira registrou com ternura as palavras que ele murmurava com a sua voz quase perdida, para um amigo na fé:

«Não pense que agora sou infeliz, meu pequeno quarto brilha com a glória de uma presença invisível, e meu coração com a plenitude da alegria de Deus. Muitas almas agora estão se voltando para Senhor no que era meu campo missionário. Naturalmente, eu aguardava esperançoso o tempo em que teria o privilégio de batizar essas almas; e havia dito ao Senhor: Permita-me que seja teu servo, cheio do teu Espírito, entregando a Cristo todos os meus pensamentos, minha energia, e minha vida. E ele me respondeu. Mas, em lugar de me deixar servir como planejei, tirou-me do serviço para sempre; e enquanto estava no hospital na Inglaterra, e especialmente quando o primeiro horror do resultado final caiu sobre mim, pensei algumas vezes que ele esconderia o seu rosto de mim, mas não foi assim. Quanto mais tristezas tive que suportar, mais fáceis se tornaram as coisas, e agora me regozijo em meu Salvador a cada instante! Você me perguntou como estou; perdi minha visão e minha voz, não tenho pés nem tornozelos, não tenho braços, mas meu coração está em paz absoluta. Não tenho dúvidas agora de que, se tivesse voz, cantaria sem parar».

Faça a obra de um evangelista

Com este relato, consolemos os nossos corações para começarmos a olhar para quem está do nosso lado. Olhemos para o próximo, olhemos as suas carências, seus vazios existenciais e de relacionamento. Qual é a resposta a tais necessidades? O Evangelho.

Cristo e só Cristo é a resposta de Deus para o homem. Ele é a suficiência, ele compensa as desigualdades. Ele faz o desamparado habitar em família, ele é a nossa paz e harmonia. Na igreja de Deus vivemos uma dimensão de comunidade que o mundo não tem nem conhece.

Olhemos para aquele que está do nosso lado, compadeçamos de suas vulnerabilidades, e nos perguntemos diante do Senhor: Como participar do sofrimento de Cristo para que outros tenham vida? É um chamado que vale a pena responder. Quer ir após o Senhor? Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-o.

A chamada mais elevada no caminho da cruz é morrer para que outros tenham vida. O que nós estamos fazendo por aqueles que habitam nas sombras da morte? Cremos que expondo as nossas opiniões nas redes sociais conseguiremos encher o vazio espiritual dos homens?

Os homens clamam, sem saber da sua necessidade de Deus. Quando pedem justiça, paz, amor, segurança, de alguma forma estão expressando o vazio de Deus que todo homem tem. Nós temos esta vida abundante para entregar. «Faça a obra de um evangelista. Este é o caminho para a ação.

Verdadeiro refúgio

A igreja do Deus vivo é um verdadeiro refúgio neste oceano turbulento. Em nosso barco descansa o Mestre. Temos a paz que o mundo não dá, a justiça que o mundo não dá, o amor que o mundo não conhece. Mas fora há pessoas famintas e sedentas, sendo oprimidas pelo inimigo.

Agora, nós, que vivemos no meio da igreja, temos um contexto que torna plausível a nossa mensagem. Vivemos entre irmãos cujos acessos são limitados; mas, em suas casas há um ambiente de alegria. Eles não estão desesperados por causa das injustiças, pois têm descoberto que Cristo é suficiente. Esta é a evidência da obra do evangelho.

Esta é uma oportunidade para que possamos falar com nosso próximo, nos compadecer da sua dor, entender as suas demandas, mas propor um caminho diferente. A igreja é o instrumento da graça de Deus; nela desaparece toda desigualdade. O Evangelho nos eleva a uma posição diferente.

Nos dias de Paulo havia uma violação dos direitos humanos que nem imaginamos. As relações entre um dono e seu escravo eram déspotas. Vemos o apóstolo lutando por abolir a escravidão? O mais parecido a isso que lemos é: «Se podes te fazer livre, não perca a oportunidade» (1 Cor. 7:21), mas diz também «o que foi chamado sendo livre, escravo é de Cristo» (v. 22).

O Evangelho nos posiciona em um plano mais elevado. Vemos o caso de Filemon e de Onésimo, um senhor e seu servo, ambos redimidos pelo precioso sangue de Cristo.

Paulo recebe a Onésimo quando ainda era um escravo fugido da casa de Filemon. Pela pregação do apóstolo, Onésimo se converte ao Senhor, e Paulo escreve uma carta para devolvê-lo ao seu dono: «Recebe-o como a mim mesmo… como irmão amado» (Flm. 16-17), lhe dando uma maior dignidade. Senhor e escravo eram um em Cristo ao reunirem-se para partir o pão.

A comunidade e as relações nas quais vivemos tornam crível a mensagem do evangelho. O Senhor tem colocado o seu Rei em Sião, o seu santo monte. Jesus é o Rei. Em seu Reino há vida celestial, aquela que pode suprir o necessitado, aquela que devemos pôr em ação até nos desgastar para que outros recebam vida.

Não tenhamos por preciosa a nossa vida para nós mesmos, com o propósito de acabar a carreira com alegria, e cumprir o ministério que recebemos do Senhor: dar testemunho do evangelho da graça de Deus.

Síntese de uma mensagem oral ministrada em Temuco (Chile), em novembro de 2019.

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